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Investigadora portuguesa venceu o prémio mundial da melhor tese de doutoramento

31/05/16 CIÊNCIA Imagem

Ana Sofia Silva, 28 anos de idade, é licenciada e mestre em Ciências Biomédicas. Com a sua tese de doutoramento, deu mais um passo na corrida da evolução científica, com uma nova abordagem terapêutica para o cancro do pulmão, uma das mais comuns e mortais formas de cancro...

Dados atuais indicam que 86% dos pacientes morrem no espaço de dois anos, enquanto somente 14% sobrevive durante cinco anos. As terapias para o cancro do pulmão são ineficientes, uma vez que os agentes terapêuticos não chegam aos alvéolos, as zonas mais profundas do pulmão. Numa época em que cada vez se sabe mais sobre as causas deste tipo de cancro - fumar potencializa em muito o seu aparecimento, a forma como se desenvolve e progride e o estudo para novas formas de o prevenir, detectar e tratar, são fundamentais para a humanidade. É esse o trabalho da tomarense Ana Sofia Silva, aluna do MIT Portugal, e que mereceu o prémio da melhor tese de doutoramento.
A sua  investigação desenvolve uma nova terapia para o tratamento do cancro, sendo uma descoberta que honra a investigadora e a sua equipa e premeia todo o árduo trabalho académico e os cinco meses que passou em Boston, EUA, no laboratório de investigação do cancro, desenvolvendo uma técnica que combina a nova terapia com spray seco com uma terapia genética.
Este novo spray testado com sucesso em ratinhos, veio provar o valor da investigação portuguesa. Ana Sofia Silva recebeu o ‘Mundo Português’na sua casa nos arredores de Coimbra. Após anos de afincado estudo, dá aulas de explicações a futuros alunos médicos, espera não ter que emigrar e poder desenvolver em Portugal a sua vocação por excelência: a investigação. Até aos ensaios clínicos o seu estudo e investigação vai demorar alguns anos, porém foi já dado um passo de gigante.

Fale um pouco do seu percurso escolar e diga-nos se esta vocação foi um sonho de criança…
Fiz em Tomar, a cidade de onde sou natural, o ciclo preparatório, liceu e depois ingressei na Universidade da Beira Interior, na Covilhã. Respondendo à sua questão, em criança sonhava ser cantora (risos), mas depressa vi que não tinha vocação nenhuma. Tive sempre alguma dificuldade em saber o que queria, gostava das artes, das letras, ainda pensei seguir jornalismo. Sei lá, gostava de tanta coisa: adorava química, física, biologia,  matemática não tanto, gosto mais agora. Quando entrei para o 12º ano abriu o curso de Ciências Biomédicas na Universidade da Beira Interior e candidatei-me com uma média de 17,5.

Porque não seguiu para medicina?
Confesso que nunca me interessei muito por medicina. O que queria mesmo  era investigar.
A minha primeira opção era na Universidade de Aveiro. Algarve para mim era demasiado longe e não fazia ideia da Covilhã. Não entrei em Aveiro por 2 centésimas, mas a Covilhã foi a melhor coisa que me aconteceu. O curso na Covilhã tem uma multidisciplinaridade enorme. Tirei licenciatura, depois fiz o mestrado e do 1º para o 2º ano do mestrado fui até Liverpool dado ter ganho uma bolsa de Erasmus. Ali estive três meses a fazer dois trabalhos de investigação, relacionados com o cancro.

Foi uma área que a motivou, o tratamento do cancro?
Sempre gostei muito, sempre me cativou e depois por situações pessoais, (lágrimas nos olhos) tornou-se uma força muito motivadora…

Acredita que um dia este flagelo mundial venha a ter cura?
No futuro, a meu ver, não vamos ter uma, mas várias terapias. Cada pessoa é um caso e cada terapia tem que ser apropriada à pessoa, o que chamamos de medicina personalizada, para cada paciente. Cura, cura… o nosso organismo está exposto a tantas situações, é normal que as mutuações nas células ocorram e que os cancros se vão desenvolvendo. No meu mestrado comecei a trabalhar com nanopartículas para o tratamento do cancro do pulmão e isto é uma junção das duas tecnologias das nanopartículas com os fluídos supercríticos em que juntamos a administração pulmonar com a terapia do cancro do pulmão.

Sempre acreditou no sucesso da sua investigação?
Fui a primeira a fazer todo o percurso na UBI a ter uma bolsa MIT Portugal. Já tinham tido uma aluna que iniciou o percurso na UBI, fez a licenciatura e fez depois o mestrado no Universidade do Minho, tenho conseguido um lugar no programa MIT com bolsa FCT.
Era uma coisa que queria muito! Não queria fazer um doutoramento por fazer, queria fazer um doutoramento que tivesse impacto e tanto ter estado na UBI como ter passado para a Universidade Nova, como ter passado pelo programa do MIT, fez-me conhecer muitos investigadores, muitas técnicas e evoluir muito como pessoa e investigadora. Da minha afirmação, o sucesso da tese. A mesma tinha que ter um grande final e  trabalhei muito, muito para isso. Conheci Boston mas pouco, trabalhei muito durante cinco meses; mas quando se gosta vale a pena.

Sei que está a dar explicações. Em Portugal não se aposta nos investigadores?
Os meus pais, a minha irmã e o meu namorado foram o meu pilar durante estes anos, que foram muito puxados. Tive alguns problemas de saúde e confesso, o que aliás é sintomático a muitos alunos de doutoramento, que houve a vontade de desistir, porque de verdade fazer investigação em Portugal é muito complicado. Nos EUA gastei cerca de 15 mil dólares em cinco meses, dinheiro do programa MIT Portugal. Em Portugal é muito difícil, há muita gente a concorrer, temos investigadores fantásticos, a competitividade é muito grande e há pouco dinheiro para projetos e os que são aprovados são uma pequena parte para tantos laboratórios que existem e  com qualidade. Não é à toa que lá fora somos distinguidos, nós não somos bons porque estarmos lá… nós somos mesmo bons, simplesmente lá temos todos os recursos. É a diferença.
Saliento que um doutoramento não se faz sozinho, sempre tive muito boas equipas de investigação, pessoas fantásticas. Conheci pessoas brilhantes, tanto nesta área do cancro como da engenharia química, pessoas ‘top’ que me ajudaram muito e com quem aprendi muito. Não acredito que os doutoramentos se façam sozinhos, bem como os grandes avanços na ciência… é impossível. O trabalho é sempre de uma equipa e das instituições que nos financiam. Temos muito bons investigadores e nos EUA não me senti minimamente intimidada, senti que estava à altura deles e apesar de alguns não conhecerem Portugal entendi e acho que nós portugueses, não estamos nada atrás dos outros. Se nós tivéssemos todos aqueles recursos, estaríamos muito à frente. O português está habituado a trabalhar muito para conseguir alguma coisa nesta área, que quando chegamos lá, e vemos aquilo tudo, o pensamento é: toca a trabalhar!

E vamos ter uma investigadora que vai ter que continuar a dar explicações ou vamos ter uma investigadora em quem Portugal apostou e vai ter que partir, emigrar?
Eu gostaria de ficar. São tantos os que estão a partir… eu estou tentada a ficar mas, se tiver que ir embora, vou. Já estive lá fora mais que uma vez e a nível profissional não me custa.
Temos depois a parte emocional e familiar que tem uma importância muito grande na nossa sanidade mental. Estou a tentar ficar... estou a  lutar por isso!

António Freitas

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