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“Valentim Morais faleceu com 86 anos. Era meu pai.”

30/05/17 ATUALIDADE Imagem

Valentim Gonçalves Morais faleceu às 21 horas do passado dia 20 de Maio com 86 anos. Era meu pai.

Habituei-me a admirá-lo pela forma muito diferente que ele tinha de viver a vida em relação às outras pessoas. Vi-o sempre disponível para os outros, enormemente sério, honesto, leal, amigo do seu amigo e imensamente aberto ao mundo. Com orgulho, ainda me lembro, com 6 ou 7 anos de andar na tipografia onde tudo era feito ainda com letras a chumbo nas velhinhas ‘Linotypes’ e andar numa antiga ‘Solex’, um motociclo a pedais, tendo evoluído da típica tipografia para ser a maior gráfica do país na área de jornais, boletins, folhetos, livros, revistas, formulários, empregando mais de 500 colaboradores, com mais de 2000 pessoas direta ou indiretamente deles dependentes.

Era uma pessoa que estava sempre disponível, a qualquer hora e dia da semana, para apoiar e ajudar o próximo, sacrificando muitas vezes o tempo da família em prol da criação de condições para a realização e sucesso de todos independentemente da sua condição económica, social e politica.

Vi com orgulho, durante décadas, subir os degraus da então Gráfica Mirandela, na Calçada do Combro em Lisboa, políticos, editores, articulistas, jornalistas, empresários, da extrema-esquerda, centro, à extrema-direita, antes e após o 25 de abril de 1974.

Foi com esta atitude única de humildade e amiga de ajudar o próximo que cresci e vivi.

Vi nascer ‘O Emigrante/Mundo Português’, o ‘Jornal Agrícola’, o ‘Costa do Sol’, o ‘Luta Popular’, o ‘Dia’, o ‘Diabo’, o ‘Expresso’, entre tantas outras publicações. Vi nascer livros feitos para apoiar a extrema-esquerda, o centro e até a extrema-direita, a quem o meu pai, independentemente daquilo que representavam, apoiava. Infelizmente por diversas vezes pagavam mal, tardiamente, ou nem chegavam a pagar e disso todos fomos vítimas, porque naquela casa, embora um empresário de sucesso que sempre o foi, nunca houve muito dinheiro.

Parece hoje tudo muito fácil, mas à época todos os jornais eram impressos em gráficas próprias que eram propriedade de grupos económicos que naturalmente não enfrentavam o regime. Por isso, o meu pai, um simples anónimo que tinha vindo de Avô, em Oliveira do Hospital, foi capaz de criar a gráfica que permitiu o surgimento de novas publicações, novos princípios e novos ideais para que estes viessem à luz e pudessem exprimir novas correntes, confrontando os poderes então instituídos, os grupos económicos mais poderosos e, naturalmente, sofrendo algumas retaliações ao longo da sua vida.

Como surgimento da ala liberal, antes do 25 de abril, nenhuma gráfica estava disponível para imprimir as suas novas ideias, apenas a Gráfica Mirandela estava disponível para o fazer. Nasciam assim ‘O Emigrante/Mundo Português’ ou o ‘Expresso’ e com orgulho aprendi esta forma única de empreender, de ser persistente e resiliente, ser amigo do seu companheiro, indo muitas vezes antes do tempo, mas sempre numa lógica de Agir Servindo. Aprendi que os princípios são mais importantes do que as dificuldades que enfrentamos. Justificar o não fazer é sempre o caminho mais fácil. Empreender o impossível, o nunca antes visto, aquilo que ninguém acredita, foi a isto que me habituei e é isso que ainda faço todos os dias. Tenho a certeza que o faço porque me corre nas veias o mesmo sangue do pai que tive.

Com orgulho assisti, após a sua morte, a manifestações de pesar vindas desde o Presidente da República, a louvores atribuídos na Assembleia da República, mensagens do Secretário de Estado das Comunidades, diversas associações e entidades a quem o meu pai esteve ligado, desde a Associação Naval de Lisboa à Academia do Bacalhau da Serra da Estrela, entre muitas outras. Bem como de inúmeros leitores, assinantes, clientes, anunciantes e amigos que de forma direta ou indireta me foram expressando o quanto o meu pai era diferente dos demais.

Uma coisa é certa. Vale a pena lutar por aquilo que nunca ninguém viu e vale a pena lutar pelos mais fracos, porque muitas vezes por detrás dos mais fracos estão inevitavelmente pessoas mais fortes. Eles apenas são fracos porque não lhes deram as condições de exprimir e trazer à luz a capacidade intrínseca de todos nós.

‘O Emigrante/Mundo Português’ ainda é hoje um exemplo disso. Através deste jornal demos força ao nascimento de projetos ímpares, como o SISAB PORTUGAL, que é hoje a maior feira do mundo de marcas e produtos portugueses orientada para a exportação. Se o criei há 23 anos foi na consciência de que também tenho a mesma fibra que o meu pai. Tenho os mesmos princípios e, sem dúvidas, os mesmos ideais. Quem me dera chegar à idade que ele chegou com a mesma imagem e amizade que ele granjeou até ao último dia com aqueles que lhe eram mais próximos.

Estou certo que os meus filhos terão um enorme orgulho no avô que tiveram e acima de tudo no enorme legado que lhes deixou.

Os colaboradores deste jornal veem certamente no trabalho iniciado há 47 anos uma sólida estrutura de princípios, orientações e acima de tudo do ideário de uma cartilha que a todos nos orgulha.

Agradeço aos nossos leitores, anunciantes e amigos que são a base sólida para que este projeto possa continuar a ser independente, na certeza porém que os princípios iniciados há 47 anos pelo meu pai, Valentim Morais e pelo Padre Vítor Melícias são intrinsecamente a massa do nosso pão e, sem dúvida, a forma como iremos levar a bom porto este projeto que vai durar no mínimo mais 100 anos.

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