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Comendador António Silvestre Ferreira: Uma vida dedicada ao projeto familiar do Vale da Rosa...

09/10/17 Imagem

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O projeto “Vale da Rosa” nasce em 2001, embora a plantação das uvas já venha de 1965 quando o pai do Comendador Silvestre Ferreira plantou 400 hectares na sua Herdade do Pinheiro em Ferreira do Alentejo. Pelo meio há toda uma história de vida em que são exaltados os valores da família, da fraternidade e do respeito pelos outros... Antes disso já o pai aqui se estabelecera e a quem chamavam com ternura, o “mata fome” porque arranjava sempre trabalho para quem precisava. Como é que uma família do Oeste estabelece este grande império aqui no Alentejo?

O meu avô Silvestre que era natural do Ramalhal (perto de Torres Vedras) era um agricultor de muito bom nível e era um homem muito valente e que se dedicava muito à plantação da vinha, árvores de fruto e hortícolas. O meu pai jovem ainda, com mais ou menos vinte anos começou a fazer diversos negócios no Alentejo, levando vinhos, trazendo cereais. Ferreira do Alentejo foi uma terra que sempre o encantou e como a vida lhe estava a correr vem, resolveu fazer um armazém de vinhos nessa vila, que se viria a expandir passando a comercializar para além dos vinhos, também licores, vinagres, e aguardentes.

   Naquele tempo era habitual os agricultores negociarem com os intermediários os seus produtos e os seus gados e como o meu pai era negociante e bastante dinâmico muito conhecido por ser um homem muito sério e de palavra, as pessoas gostavam de negociar com ele e foi isso que o transformou num negociante de peso.

   Numa determinada altura houve uma casa agrícola da região com quem ele tinha negócios e que lhe propôs o arrendamento do seu complexo agrícola composto por alguns milhares de hectares, pretendendo que o meu pai lhes comprasse os animais e os gados.

   Ora o meu pai não era agricultor e sim negociante, apesar disso estava dentro do meio e depois de muito pensar resolveu aceitar e por isso mudou radicalmente a sua vida, passando a ser agricultor e com que responsabilidade. Alguns anos depois, não muitos, o meu pai tinha-se tornado no primeiro produtor de trigo de Portugal. Pode dizer-se que deu cartas na região tendo feito um grande trabalho. Foi sempre comprando outras propriedades e nessa altura já tinha uma fábrica de rações, uma pecuária muito intensa, uma vacaria para 1.000 vacas de leite até que em 1965 deu início à plantação das vinhas.

  UMA FAMÍLIA LIGADA À TERRA

   Estávamos todos ligados à terra, eu fui para Veterinária e os meus dois irmãos para Agronomia, numa fase em que tínhamos dois camiões que constantemente transportavam os muitos produtos hortícolas que o meu pai produzia em Ferreira do Alentejo. E tudo isto numa altura muito difícil em que ainda não havia Alqueva, por isso o meu pai “inventava” água, fazendo poços e  represas para plantar grandes áreas de hortícolas. Lembro-me de estar dentro do carro com o meu pai a ver apanhar ervilhas para enviar para a praça de Lisboa. Eram 400 mulheres na apanha para os nossos lugares do mercado da Ribeira, 24 de julho, Rego, Praça da Figueira. Tudo isto há 50 anos atrás.

     E como se começaram a exportar uvas?

   No ano de 1972 fui eu próprio que levei a primeira caixa de uvas para Londres para o “Marks And Spencer”. E ainda hoje aquele supermercado é o nosso cliente mais antigo e isso é muito dignificante para nós.

   Estávamos nesta fase quando se deu o 25 de abril e dois anos depois a consequente ocupação das nossas terras no Alentejo. E foi assim que o Brasil entrou na vida desta família para onde fomos entretanto.

   E chegou ao Brasil o que foi fazer?

   Cheguei a Maringá e fui pedir emprego na universidade local onde le cionei Zootecnia, tendo o meu pai formado uma pequena empresa de construção civil. Não foi nada fácil este recomeço, o meu pai ficou bastante sofrido com estes acontecimentos que o levaram de Portugal onde tinha investido tanto da sua vida. A minha mãe por brincadeira até costumava dizer que o meu pai era “formado em Letras”, já que tudo o que havia construído tinha sido pago com letras bancárias (empréstimos). Todos os anos o meu pai pagava as letras por alturas da feira de Ferreira do Alentejo por volta de setembro. Curiosamente quis o destino que as últimas letras fossem pagas em 1976 nessa mesma feira, nada mais devendo a ninguém. Tinha uma grande casa agrícola com 2800 hectares de terra, mais de 400 hectares de vinhas e pomares e uma grande pecuária. Em novembro tiraram-lhe tudo e puseram-no fora.

     Apesar disso o senhor é uma pessoa muito serena que parece não guardar rancores...

   É verdade, Graças a Deus o meu coração é assim, embora tenha sido tudo muito sofrido. Vi o meu pai chorar e logo ele que era um “homem de pedra”. O meu irmão mais velho morreria nessa época.

   Passados alguns anos a maior parte das propriedades acabaram por ser devolvidas aos meus pais, que entretanto regressariam. Eu continuei no Brasil por mais 22 anos a tomar conta das coisas que fomos construindo: plantamos uvas, fizemos uma suinicultura e por isso continuei e acabei por casar com uma senhora brasileira. Tenho quatro filhos e uma família muito bonita, a começar pela minha mulher que tem sido uma companheira fantástica.

     E quando se dá o regresso a Portugal?

   Em 1999 o meu pai ficou muito doente e acabaria por morrer no ano seguinte. Vim para Portugal e por cá fiquei a gerir a minha parte da herança que correspondia a um terço da Casa Agrícola Silvestre Ferreira e com 100 hectares de vinhas de uvas de mesa com um modelo de plantação que trouxemos de Itália. Vinhas altas cobertas de plástico para defender as plantas de chuvas e humidades de setembro permitindo mais tempo de permanência dos fruto na planta.

     E foi a viver já no Brasil que descobriu uma nova forma de tratar as uvas...

   Logo no início da minha vida no Brasil vim à europa e fui a Londres visitar o meu amigo Carlos Ramos que trabalhava na MAC que fornecia a cadeia Marks and Spencer que então não comprava diretamente. Isto aconteceu no início dos anos oitenta e foi quando ele me disse que tinham aparecido uns italianos com um tipo de uvas totalmente diferente, que eram as melhores uvas que apareciam em Londres. Fiquei muito empolgado com aquilo e por isso quando cheguei ao Brasil não descansei enquanto não fui a Bari para perceber o sistema e acabei por plantar no Brasil quatro hectares com esse novo sistema onde também já produzia uvas de mesa. A cobertura de plástico servia para que as uvas pudessem estar mais tempo na planta, resistindo às humidades e chuvas de Setembro. O meu pai ficou tão entusiasmado com o sistema que resolveu de imediato adoptá-lo em Portugal e assim transformou algumas das vinhas que tinha para este novo método.

   Não deixa de ser curioso que seja eu que estou a explorar estas vinhas, portanto esta tecnologia foi de Itália para o Brasil e deste país para Portugal.

     E as uvas sem grainha como aparecem na sua vida?

   Eu sou uma pessoa muito curiosa e sempre me forcei para melhorar o inglês. No início dos anos 80 assinava a revista Fortune, também para me ajudar na aprendizagem da língua. E foi nesta revista que li um artigo sobre uvas sem grainha que me levou a pensar que vinha aí uma grande revolução. Na época eu tinha um técnico Japonês que me dava assistência e que ia habitualmente aos Estados Unidos e que me trouxe algumas variedades de uvas sem grainha para nós experimentarmos. Feitas as experiências ao longo de anos, verificamos que uma das variedades resultou muito bem em Maringá. Que eu saiba, na época ninguém tinha uvas sem grainha no Brasil. Fiz umas embalagens de luxo, muito bonitas,  com um lacinho para apresentar no mercado de S. Paulo e foi um sucesso. Hoje em dia o Brasil é um grande exportador de uvas sem grainha, mas fui eu que comecei…

   Depois quando regressei a Portugal voltei a contatar a Marks and Spencer porque o meu pai não tinha exportado mais, sobretudo depois da morte do meu irmão mais velho. Nessa altura fui informado que em Inglaterra já não se importavam uvas com grainha. Aí fui buscar o conhecimento que já tinha e dei continuidade ao que já havia feito no Brasil e a minha luta de 2001 para cá tem sido trabalhar sempre em novas variedades. Hoje em dia o Vale da Rosa tem 250 hectares de vinha e metade já é produção de uva sem grainha.

     E o mercado nacional já consome este tipo de uvas?

   Tem evoluído bastante o consumo de uvas sem grainha, já consome uma quantidade significativa. As uvas são cerca de  30 por cento mais caras porque o método de trabalho é diferente e exige mais de mão de obra.

     E como é que a partir da Herdade do Pinheiro nasce a Vale da Rosa?

   A Vale da Rosa representa um terço da Herdade do Pinheiro porque nós éramos três herdeiros. Embora eu tenha ficado com as uvas de mesa e outras terras, acabei por ficar sem o nome porque Herdade do Pinheiro estava ligada à produção de vinhos e coube aos meus sobrinhos. No entanto havia na Herdade do Pinheiro uma horta antiga que era uma coisa fantástica, e que me deixou recordações maravilhosas da minha infância. Tinha árvores de fruto fantásticas com tanques de rega onde tomávamos banhos inesquecíveis, era a Horta do Vale da Rosa que assim veio a dar nome a esta propriedade.

       E assim nasceram as uvas…

   É verdade porque tive a sorte e o privilégio de desenvolver esta atividade numa região que “acrescenta sabor” às coisas. Tudo é mais saboroso nesta região, o pão, o vinho, as azeitonas, o porco, tudo é realmente mais saboroso porque tem um clima muito particular. Tive a sorte do meu pai ter iniciado esta plantação de vinhas em Ferreira do Alentejo e assim ter na mão um verdadeiro tesouro. Por isso a Vale da Rosa não se destina apenas a produzir uvas, eu quero fazer um produto “gourmet” que seja conhecido no mundo inteiro. E temos tido tanta sorte que já somos conceituados em diversos países, o próprio Marks and Spencer já declarou que são as melhores uvas que recebe. E isso resulta de um trabalho que cada vez vamos aperfeiçoando mais porque as vinhas não podem produzir o que querem, mas o que nós queremos que elas produzam. São centenas de pessoas com as suas tesourinhas a tirar bagos excessivos dos cachos ou a reduzir os próprios talões sempre em busca do melhor aroma e sabor. Trata-se de um investimento brutal, só para ter uma ideia, todos os anos organizamos um almoço antes de iniciar a vindima, este ano éramos mais de 500 e ainda faltavam três semanas para o início das operações.

     Mas o que fazem 500 pessoas numa vinha antes da vindima?

   Fazem qualidade. Estamos a fazer o nosso melhor para conseguir essa qualidade, mas com muita sorte temos criado uma grande diferença no mercado. Exportamos para vários países da Europa, para a China e para Angola e vamos obtendo resultados. Temos grandes técnicos e os meus quatro filhos, cada um na sua área a colaborar neste grande objetivo. – a qualidade. Neste momento devem andar lá mais de 800 pessoas nesta missão. Por isso vejo um grande futuro nesta atividade e queremos continuar a ser o maior empregador da região e estou otimista porque vejo os meus filhos muito entusiasmados com esta atividade.

   

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