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"Os portugueses já negociavam com Caracas antes da independência da Venezuela" - António Xavier

Quarta-Feira, 15 Fevereiro de 2012

António de Abreu Xavier nasceu em Caracas, há 54 anos. Licenciado e doutorado em História pela Universidade Central de Venezuela, tem investigado as relações entre a Europa e o seu país de nascimento através da imigração. Atualmente é investigador do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, e com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), está a desenvolver um projeto sobre os laços político-económicos entre Portugal e a Venezuela. Ao longo dos dois primeiros anos de investigação descobriu "coisas bastante interessantes", como o facto de já no século XVII se consumirem produtos portugueses na Venezuela. "Há antecedentes que já falam de portugueses a negociar com Caracas quando lá estavam ainda em guerra pela independência", revela António de Abreu Xavier nesta entrevista.

Filho de madeirenses, António de Abreu Xavier foi educado em criança na perspetiva do retorno da família a Portugal, o que aconteceu em 1969. Acabou por ser um regresso temporário, porque pouco mais de um ano depois, a família voltava à Venezuela. A partir daí, António e os irmãos começaram a ser «educados» na certeza da permanência no país e passou a ser permitido falarem espanhol em casa. Mas a ligação a Portugal não se desfez, como recordou nesta entrevista a O Emigrante/Mundo Português. "É impossível anular tudo o que ficou para trás", sublinha, acrescentando que "não é muito fácil" viver entre duas culturas, mas que é preciso "aprender a geri-las".

Foi o que fez ao longo da vida. Licenciado e doutorado em História pela Universidade Central de Venezuela, tem investigado as relações entre a Europa e o seu país de nascimento através da imigração. Atualmente é investigador do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, e com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), está a desenvolver um projeto sobre os laços político-económicos entre Portugal e a Venezuela. Concorreu a uma bolsa de investigação FCT e ficou em segundo lugar entre 135 candidatos. Ao longo dos dois primeiros anos de investigação descobriu "coisas bastante interessantes", como o facto de já no século XVII se consumirem produtos portugueses na Venezuela. "Há antecedentes que já falam de portugueses a negociar com Caracas quando lá estavam ainda em guerra pela independência", revela António de Abreu Xavier nesta entrevista.

 

O que o levou a interessar-se pela emigração portuguesa na Venezuela?

Viver entre duas culturas não é muito fácil, temos que aprender a geri-las. Esta dualidade de pertença é o que nos caracteriza e enquanto não a aceitarmos, haverá sempre conflitos. No meu caso, os meus pais sempre me educaram para o retorno a Portugal, o que aconteceu em 1969. Como os meus pais, regressaram muitos outros com a ideia de que o regime não iria se manter (com a saída de António Salazar do governo). Passados 16 meses regressamos à Venezuela e houve uma mudança na educação: se até aí da porta de casa para dentro apenas falávamos português, passou então a ser permitido falarmos em espanhol. Mas é impossível anular tudo o que ficou para trás.

 

Como caracterizaria a comunidade portuguesa na Venezuela, atualmente?

Para fazê-lo tenho que referir o meu trabalho de doutoramento na Universidade Central da Venezuela sob o tema «Permanências e mudanças na comunidade portuguesa na Venezuela entre 1900-1974». Fiz uma análise comparativa entre os primeiros emigrantes portugueses no país e a comunidade que lá se encontra hoje em dia. A grande diferença é, indiscutivelmente, a evolução sócio económica. Depois, é a evolução financeira da comunidade: uma tomada de consciência da importância económica dos portugueses, dentro do país. E de como essa importância não se tinha ainda refletido na atividade política da Venezuela, ao nível de dirigentes.

A ausência de participação política dos emigrantes portugueses, nos anos 40, 50 e 60, mudou nos anos 70, com a chegada de outros emigrantes. Refira-se nesses anos os níveis de emigração portuguesa foram mais baixos do que nas três décadas anteriores. A média, nos anos 60, foi de 3.500 chegadas anuais, enquanto nos anos 70, baixa para menos de mil.

 

Essa emigração dos anos 70 é diferente em que aspetos?

Tem que ver com a descolonização portuguesa em África. Muitos que voltaram a Portugal após da descolonização, emigraram depois para outros países, como a Venezuela. São emigrantes já com uma maior consciência política.

Por essa altura - uns anos antes - deu-se também a partida clandestina para França, algo que teve uma grande repercussão política em Portugal. E na Venezuela, no caso dos emigrantes portugueses oriundos de Portugal continental, também se deu uma «partida»: o retorno a Portugal e uma «reemigração» para França. É um caso que ainda não foi estudado e nem se fala. Houve muitos portugueses, continentais, que o fizeram e eram na maioria, do norte de Portugal.

Alguns desses portugueses, que tinham vivido na Venezuela e regressaram a Portugal, começaram a criar associações para lembrar e manter os laços com aquele país. Associações como o Centro Social Luso-Venezuelano, em Espinho (na freguesia de Nogueira da Regedoura).

 

Os portugueses que foram nos anos 70 para a Venezuela, são mais politizados? E os luso descendentes?

A Venezuela distingue-se dos restantes países da América Latina pela sua atividade política. É nessa tradição política que os jovens luso-descendentes se têm formado. E qual é o centro onde essa mentalidade de combate político é formada? É nas universidades, sejam as públicas ou as privadas. É impossível ficar à margem destas atividades e daí vem então a participação de muitos luso-descendentes na política, como Delia da Silva que foi deputada no Congresso, de Tobias Nóbrega, ex-ministro das Finanças ou de José Luis Rodrigues Fernandez, autarca da Carrizal, entre muitos.

 

Essa participação dos descendentes também se nota junto da comunidade portuguesa?

Temos que estar lá para sentir que há um esforço para se identificarem com a origem dos pais. A preocupação existe, mas o que faz falta é chamá-los aos centros, às associações que já estão estabelecidas, fazer com que as associações de luso-descendentes que existem não funcionem fora das instituições comunitárias. Essa é uma responsabilidade dos «líderes» da comunidade portuguesa na Venezuela, mas também dos dirigentes políticos de Portugal.

Os emigrantes de primeira geração são cada vez menos e o interesse tem que estar centrado nos luso-descendentes, nas 2ª, 3ª e 4ª gerações que já existem na Venezuela. E a língua portuguesa é um fator importante, mas não é tudo. Para se divulgar a língua, tem que se sair um pouco do padrão académico de ensino e ir além, fazer dela um instrumento de comunicação. Por exemplo, quando o grupo Madredeus foi à Venezuela e se apresentou na Aula Magna da Universidade Central, quase todo o público era de luso-descendentes. Que não falavam português, mas gostavam dos Madredeus.

 

Do que trata o projeto de investigação «Estratégias, projetos e realizações práticas nas relações comerciais entre Portugal e a Venezuela».

Quero dar a conhecer a forma como os dois países se têm relacionado enquanto parceiros comerciais. Como tem progredido, modificado, com base nas necessidades político-económicas de cada um dos países. Estou agora a iniciar o terceiro e último ano de investigação deste projeto. O trabalho está a ser financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e inscrito no Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora. Já concluí a parte de pesquisa nos arquivos, tanto em Portugal como na Venezuela.

Estou a trabalhar um universo temporal que vai do ano de 1800 a 1960. Por quê este longo período? Porque há antecedentes que já falam de portugueses a negociar com Caracas quando lá estavam em guerra pela independência. A investigação termina em 1960 porque é o momento em que há uma mudança nos interesses político-sociais e político-económicos na política diplomática em Portugal.

No caso da Venezuela a emigração passou a ser um assunto mais importante, no âmbito da política diplomática. Do que trato é qual o peso político, como essa emigração mudou a estratégia económica de Portugal e como isso se manifestou na Venezuela.

 

A que conclusões chegou?

Coisas bastante interessantes. Por exemplo, pessoas cá de Portugal, que tinham um grande conhecimento das necessidades económicas da Venezuela, e que levaram para lá projetos viáveis, mas que não foram adiante por falta de apoio das duas partes.

 

Foi a partir dos anos 60 do século XX, que começaram a ser construídos os grupos económicos portugueses na Venezuela?

Esses grupos não integram o trabalho que estou a fazer, mas sim, surgiram a partir dos anos 60, sobretudo no setor alimentar. Mas antes, no período que investigo, é interessante saber que as iniciativas não saíram da comunidade que vivia na Venezuela, mas foram de cá. Lá, houve sempre iniciativas de comércio à escala nacional, mas comércio em grande escala, saiu daqui. Grandes empresários de Portugal que tentaram obter créditos junto da banca portuguesa.

Uma boa parte desses grupos estavam ligados à Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense (fundada em 1843) e com a Associação Comercial de Lisboa (1834). Eram grandes negócios, indústrias, como, por exemplo, de moagem de trigo - compra de grão e exportação de farinha, a partir da Venezuela. Exportavam o capital daqui para a Venezuela e a partir de lá, realizavam os negócios, porque era mais barato. Mas na Venezuela, debateram-se com problemas políticos.

 

Influenciaram de que forma a economia venezuelana?

Vou responder com um exemplo e com uma declaração do embaixador da Holanda em Caracas. O exemplo é dos portugueses que foram trabalhar nas refinarias de petróleo na ilha de Curaçau (meados do século XIX), muitos dos quais acabaram os contratos e emigraram para a Venezuela.

O embaixador holandês diz, quanto a Caracas e às relações que a cidade mantém com a ilha de Curaçau, que ninguém poderá esquecer qual foi a influência dos portugueses que moraram na ilha, para as relações económicas entre Curaçau e Caracas. Começou há tempos antigos, quando os judeus portugueses chegaram a Curaçau.

A partir daí, iniciou-se uma relação com Caracas, a ponto da capital da Venezuela chegar a ser a cidade de férias dos portugueses que moravam naquela ilha holandesa. Essas relações não se perdem. Salomon Maduro (1891-1967), um dos mais antigos e importantes cônsules honorários portugueses em Curaçau - descendente de judeus portugueses e grande empresário na ilha - sempre manteve relações comerciais com Caracas e com os portugueses que viviam lá.

 

Este projeto de investigação vai culminar num livro?

Espero que sim, porque acho que será um trabalho importante em termos de consulta. Mas o projeto não está concluído. Nas associações comerciais ou industriais, encontrei arquivos completos, mas nas empresas, foi mais difícil. Em termos de arquivos de empresas, não há quase nada e aproveito para lançar um apelo aos industriais. Por exemplo, para uma pesquisa sobre a presença do azeite Gallo na Venezuela, onde poderei encontrar material? Faz-me falta muita informação sobre esta empresa. Quando falamos de azeite na Venezuela, é um imperativo falarmos do azeite Galo.

 

Quando acabar este projeto vai regressar à Venezuela ou continuará em Portugal?

Quando um luso-descendente aceita essa dualidade cultural, essa dupla pertença, torna-se cosmopolita, uma pessoa multicultural. Há muito disso em mim. No caso dos filhos de emigrantes que tenham plena consciência dessa pertença dual, isso tem-nos dado a capacidade de aceitar a geografia como a nossa casa. Não é importante dizer «estou cá» ou «estou lá». E eu sinto-me muito bem cá.
Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org



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