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Estados Unidos acolhe encontro mundial sobre o ensino do portugus

Quarta-Feira, 24 Abril de 2013
Congregar as novas descobertas e perspectivas sobre a aquisição de língua e com isso contribuir para a melhoria e eficácia dos professores de português é o principal objectivo do II Encontro Mundial Sobre o Ensino de Português, que se realiza entre 3 e 5 de Maio em Fort Lauderdale, Florida, Estados Unidos, realizado pela Organização Americana de Professores de Português (AOTP, no original em inglês). Durante três dias, sessões, mesas redondas e palestras dinâmicas e inovadoras vão trazer para o centro do dabate, o ensino e o futuro do Português tanto como língua de herança, quanto como língua estrangeira.

Este ano a organização deu prioridade à apresentação de artigos com áreas temáticas específicas, como o desenvolvimento de programas de português, metodologias e abordagens ao ensino de línguas, desenvolvimento de atividades comunicativas e formas inovadoras de praticar todos os modos comunicativos. “É uma excelente oportunidade para conhecer o trabalho que especialistas e colegas desenvolvem com o ensino de português em vários países. Convidamos todos a conhecer iniciativas criativas e dinâmicas e ver o seu impacto e resultados”, avançou ao «Mundo Português» Luis Gonçalves, membro do Conselho da Organização Americana de Professores de Português (AOTP).
O Encontro insere-se no objectivo daquela associação profissional de professores, que preconiza o desenvolvimento e a formação contínua dos seus membros. “Por isso, organizamos este encontro anual onde os professores vêm e apresentam trabalhos e estudos no âmbito das metodologias de ensino, da linguística, que demonstram que determinada metodologia funciona ou não. E é na partilha desses conhecimentos que a actividade pedagógica vai melhorando”, afirma o docente universitário português.
Este ano, há 35 professores que inscreveram estudos e trabalhos para apresentação aos participantes, todos eles com um grau elevado de interesse, destacou Luis Gonçalves. “Um dos trabalhos a apresentar um será sobre como integrar as novas tecnologias, em particular o «skype», como ferramenta pedagógica, o que é muito interessante porque permite aos alunos falarem com os nativos da língua e terem conversas informais”, revelou, destacando ainda outro estudo centrado na utilização das partir das histórias populares (literatura folclórica, sobretudo a de cordel) como ferramenta de ensino e que culminou na criação por parte dos alunos, das suas próprias histórias populares.
Os trabalhos foram elaborados por professores do Brasil, Estados Unidos, Nigéria, Argentina, Peru, Colômbia, México e Trinidad e Tobago, um universo de palestrantes que é indicador do interesse global que o Português tem despertado nas últimas décadas.
“Não nos surpreendeu a inscrição de palestrantes da América Latina, porque com o Mercosul (Mercado Comum do Sul) é objectivo que o português se torne língua obrigatória nos sistemas de educação de todos os países hispânicos que o integram. Por exemplo, o português já está integrado no ensino secundário e universitário na Argentina, por isso é natural que tenham aparecido trabalhos de profissionais desses países”, sublinha Luís Gonçalves, português natural de Tomar e docente desde 2010 na Universidade de Princeton, instituição onde estudam cerca de 100 alunos de Português, a nível de licenciatura e pós-graduação.

Língua de herança e de negócios

Para além das apresentações dos trabalhos e estudos, o encontro terá ainda a participação de três palestrantes convidados. Gilvan Muller de Oliveira, professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, irá falar sobre a presença do português na internet e as oportunidades que este meio apresenta como ferramenta de trabalho e onde os alunos podem ir à procura de informação que seja pertinaz.
Gláucia Silva irá falar sobre o trabalho que desenvolve junto dos falantes de português como língua «de herança». Mestre em Linguística e doutora em Linguística Hispânica pela Universidade de Iowa, é docente no Departamento de Português da Universidade de Massachusetts Dartmouth, considerado uma referência no ensino do português nos Estados Unidos. Orlando Kelm, professor Associado de Linguística Hispânica na Universidade do Texas, onde ministra cursos em português e espanhol, é especializado no ensino da língua portuguesa para negócios e nos aspectos culturais da comunicação em negócios internacionais, tema que irá apresentar.
Para Luis Gonçalves este é um tema importante e actual, já que, sublinha, “foram os negócios que num primeiro momento implantaram o português como uma língua internacional”. “Mas agora a língua está a ganhar novos espaços na ciência e é preciso manter metodologias de trabalho e práticas pedagógicas interessantes para continuarmos a ter alunos”, alerta.
Por outro lado, o docente recorda que nos Estados Unidos “o público de (português língua de) herança é muito importante. “Tem sido feito um trabalho muito interessante com a comunidade portuguesa desde há muitos anos e com a comunidade brasileira, que é mais recente. Vários participantes vão apresentar trabalhos sobre isso”, revelou sublinhando que o ensino como língua de herança tem ganho cada vez mais importância junto destes últimos. “Para a comunidade brasileira em particular, é muito importante. Porque enquanto a comunidade portuguesa se instalou nos Estados Unidos há muito tempo e não há uma atitude de regresso, na comunidade brasileira, por ser mais recente e porque o Brasil tem estado com uma actividade económica muito intensa, muitos querem voltar. Por isso, é muito importante que os filhos saibam falar português”, explicou.
Já como língua estrangeira, o docente universitário diz que nos Estados Unidos o português é aprendido mais como terceira língua, “porque muitos que vão aprender português já falam espanhol ou outra língua estrangeira”. “Esse público está a crescer muito, e há uma preocupação em haver mais cursos. Desde 1988/1989 que o número de pessoas a estudar português tem aumentado bastante”, sublinhou.
Sobre o contínuo crescimento do interesse na língua de Camões, o docente da Universidade de Princeton defende que passara pela escolha de opções. “Para mantermos esta posição privilegiada que temos estado a ter no mercado internacional, precisamos que a pesquisa linguística em Portugal e no Brasil se concentre no que acontece na sala de aulas entre o professor e o aluno e entre o aluno e o mundo exterior. E deixemos de fazer tantas pesquisas sobre política da língua e gramática, porque não têm impacto na vida de um professor de português como língua estrangeira”, defendeu.
Além disso, acredita que a área das Humanidades, nas universidades portuguesas e brasileiras, devem adotar “um modelo de negócio”. “Porque o português é um «produto» e nós temos «clientes» interessados, com dinheiro para investir nesta área”, afirma, explicando que são necessários “programas de intercâmbio de qualidade que respeitem os calendários escolares dos outros países”, para além de uma produção cultural “interessante mas que chegue aos professores nos outros países”. “Acho sinceramente que a língua portuguesa vai crescer na Ásia, e não só na China onde já está a crescer, mas também em outros países, pela via dos negócios”, afirmou.
Por parte de Portugal, considera importante que a produção científica nacional presente nas bases de dados internacionais fosse escrita em português. “Estamos a fazer muita pesquisa científica e a publicá-la em inglês. Isso faz com que nas áreas das Ciências não haja grande interesse em aprender português, porque não é necessário. “Quem tem mantido o português como língua de ciência tem sido o Brasil”, lamenta.
Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org



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