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D. Viçoso: um homem à frente do seu tempo

 No dia 13 de Dezembro, foi relançada na cidade histórica de Mariana, estado de Minas Gerais, sudeste do Brasil, a campanha para beatificação de Dom António Ferreira Viçoso.

Português, natural de Peniche, foi bispo de Mariana entre 1844 e 1875 e a sua memória permanece «viva», pelo seu humanismo, a luta contra a escravatura e as preocupações com a educação e o meio ambiente.

 


O processo para a beatificação de D. António Viçoso - um homem e um religioso considerado «avançado» para o seu tempo - foi relançado em Dezembro, na cidade de Mariana. O autarca local, Celso Cota, participou na Igreja da Sé, da missa solene de campanha para beatificação, presidida por D. Geraldo Lyrio Rocha, presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, e concelebrada por diversos padres da arquidiocese. No mesmo dia, foi realizada a sessão inaugural do processo para examinar o milagre de Dom Viçoso a favor do padre Célio Dell´Amore. Uma fase que deverá terminar com o título de beato a ser conferido pelo Papa, caso o milagre seja reconhecido científica e canonicamente.



De Peniche para Mariana

 

António Ferreira Viçoso, religioso lazarista, nasceu em Portugal a 13 de Maio de 1787. Aqui concluiu os primeiros estudos e ordenou-se padre. Aos nove anos foi confiado aos Padres carmelitas do Convento de Olhalvo, para formação e estudos básicos. Dois anos depois foi enviado para o Convento de Santa Teresa, dos mesmos padres, em Santarém. Ordenado sacerdote em 1818, foi enviado a leccionar em Évora. Um ano depois, os superiores escolhem-no para acompanhar o padre Leandro Peixoto e Castro, para as missões no Brasil. Tinha 32 anos quando desembarcou.

O historiador brasileiro Maurílio Camello refere que D. Viçoso "identificou-se com o povo brasileiro que amou extremosamente". "Foi, entre nós, padre missionário, educador da juventude, defensor dos direitos da Igreja, protector dos escravos e dos órfãos", escreve ainda o historiador.

Nomeado bispo de Mariana, em 1843, ao longo de 31 anos desenvolveu naquela cidade um importante trabalho pastoral: reformou o clero, animou a vida religiosa da sua extensa diocese, construiu casas de educação e asilos. Preocupado com a rudeza da população, mandou buscar em Paris, em 1848, as Filhas da Caridade, educadoras francesas, para criar em Mariana o primeiro colégio feminino de Minas Gerais. O bispo português justificou a iniciativa com a afirmação de que "somente educando a mulher, oferecendo-lhe uma boa condição cultural, é que teremos uma sociedade mais civilizada e preparada para dar à pátria cidadãos completos". "Não vos esqueçais de que a mulher, sobretudo a mãe, será sempre a primeira mestra", destacou ainda.´


Contra a escravatura

 

Baseado no seu ideal de justiça que pressupõe a igualdade entre todos os homens, D. António Viçoso afirmou-se abertamente contra a escravidão. Entre outras iniciativas escreveu, em 1840, o texto «A escravatura ofendida e defendida» que lhe rendeu uma longa inimizade com seu primeiro companheiro no Brasil, o padre Leandro Peixoto, favorável à escravidão. R. M. Assis, na obra «Memorandum 11» (2006), explica que "para o lazarista, se Cristo institui a igualdade entre os homens, amando do mesmo modo os pescadores, os ricos, as crianças, as prostitutas e os cobradores de impostos, então a escravidão não deveria existir." Para o historiador Maurílio Camello, homens como D. Viçoso "pairam muito acima de tempos e lugares. O professor, licenciado em História do Cristianismo pela Universidade Gregoriana de Roma, sublinha ainda que a cidade de Mariana e o estado de Minas Gerais, orgulham-se "com fundadas razões", terem tido o religioso português "como educador e pastor" por mais de 30 anos. "Seus pés missionários palmilharam incansáveis, todos os caminhos de Minas, visitaram remotos lugarejos, procuram, sem discriminação, a todos que dele precisavam, em especial os pobres e os que padeciam da verdadeira sede de Deus".

D. António Viçoso morreu em Julho de 1875, aos 88 anos. O seu túmulo encontra-se na cripta da Catedral Basílica de Mariana.

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