Domingo, 20 Julho 2008 - 13:57 (Açores 12:57)
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Chile – a Isla Negra significa Poesia...Retomo hoje a temática do artigo anterior, a famosa casa de Pablo Neruda, a Isla Negra. O local, que não é ilha alguma, como já antes escrevi, inicialmente chamava-se Las Gaviotas, e, se o "negra" poderá dever-se à cor das rochas que ali existem, já a palavra "isla", será mais difícil de explicar. Talvez que a razão para esta singular denominação, Isla Negra, se encontre numa carta que Neruda envia em 5 de Setembro de 1931, desde Java, ao escritor argentino Héctor Eandi, em que diz estar na areia, observando a isla negra, Sumatra. Porventura, a memória daquela ilha do sudeste asiático, tenha levado Pablo Neruda a baptizar esta sua casa de praia, com a denominação que passou a ser algo de emblemático no universo nerudiano. Quando em 1937, vindo da Europa, o poeta regressou ao Chile, procurava um lugar onde se pudesse dedicar à sua poesia, designadamente, à escrita do "Canto General", um livro marcante na obra de Neruda, e, deste modo, no ano seguinte, comprou um terreno com uma pequena construção de pedra e madeira, que pertencia a um marinheiro Espanhol, que, segundo dizem, depois de perder o seu barco em Punta Arenas, decidiu ficar-se pelo Chile. Ainda a propósito do local e da sua obra, julgo que o que Pablo Neruda escreveu nas suas memórias, retrata com nitidez o que o poeta procurou ao ali se instalar, "A costa selvagem da Isla Negra, com o tumultuoso movimento oceânico, permitia entregar-me com paixão ao desígnio de escrever o meu novo Canto". A localização é soberba, e Neruda, um apaixonado pelo mar e pelos coisas marítimas, construiu a casa tentando que se parecesse o mais possível com um barco - o material utilizado é quase sempre madeira, tectos baixos, soalhos também em madeira, que até rangem como nas embarcações, corredores interiores muito estreitos, etc.. A vivenda tem dois pisos, situa-se em cima de rochas, tem amplas janelas e estão quase todas viradas para o Oceano Pacífico - se bem me lembro, com a configuração da casa e o modo como a mesma foi construída sobre a costa, é possível ver o oceano de todas as janelas... Mesmo localizada sobre as rochas da costa, existe, contudo, uma apreciável vegetação envolvente, designadamente, algumas árvores, não muitas, e de porte não muito significativo, pelo que o mar está mesmo ali, em frente dos nossos olhos, e, não muito distante, encontra-se uma praia, algo pequena, mas com areia! No quarto do casal, o lado que está virado para o Pacífico, é só vidro, não há madeira do chão ao tecto, e Pablo Neruda colocou a cama numa posição, inclinada, para que o Sol, assim que nascesse, incidisse directamente no leito. Chegou ao pormenor, de mandar fazer uma peça em madeira, parecendo um prisma triangular com a altura do leito, para colocar entre a cama e a parede, e, deste modo, "travá-la" para que ela não deslizasse da tal posição ideal face ao Sol... A casa é, em parte, um repositório da vida de Neruda, encontrando-se ali muitos objectos que o poeta-diplomata, e também grande coleccionador, foi reunindo ao longo da sua vida, e onde o mar marca presença iniludível - figuras de proa de barcos, astrolábios, búzios gigantes, baús de corsário, garrafas, pinturas, mapas, miniaturas de barcos em garrafas, etc., e ainda uma impressionante colecção de conchas, localizada numa sala própria. Acaba quase por ser um autêntico museu! Um pormenor curioso relacionado com o escritor, foi o facto de Pablo Neruda ter mandado edificar um espaço destinado somente ao seu trabalho literário, e que ele quis que fosse construído em madeira e com o tecto em chapa de zinco, para que assim pudesse sentir "o canto da chuva"... Ainda para documentar esta relação íntima do poeta com o mar, permitam-me que reproduza mais um outro seu delicioso e inspirado escrito, que explica a localização da Isla Negra - "O Oceano Pacífico saía do mapa. Não havia onde o pôr. Era tão grande, desordenado e azul que não cabia em nenhuma parte. Por isso o deixaram em frente à minha janela". Repito, uma delícia! A Isla Negra conquista-nos pela beleza do local, juntamente com a originalidade da arquitectura da casa, que de imediato desperta no visitante a sensação de ser acolhedora, e em frente, o Oceano Pacífico, ora ameaçador, quando as ondas "cavalgam" as rochas da costa, ora cativante, pela serenidade e beleza do tom azul das suas águas, com que muitas vezes se apresenta aos nossos olhos. Foi na Isla Negra que Pablo Neruda escreveu parte importante da sua obra literária, e onde igualmente reuniu quase toda a sua biblioteca pessoal, e foi também ali que passou os seus últimos meses, quando o cancro avançava inexorável e vorazmente, e sempre, sempre acompanhado pela grande paixão da sua vida, Matilde Urrutia. Designado em 1970, pelo Governo de Salvador Allende, Embaixador em França, por motivos de saúde, retorna ao Chile em 1972, recolhendo-se na Isla Negra. Quando em 11 de Setembro de 1973, Pinochet toma o poder pelas armas, e com o derramamento de sangue que é conhecido, o poeta já se encontrava muito perto do fim da sua vida, mas ainda estava na plenitude das suas faculdades mentais, e assim, quando na sequência do golpe, os militares vão até Isla Negra fazer buscas na casa e nos terrenos circundantes, estando Pablo Neruda presente, ficou célebre o que então lhes disse: "procurem em todo o lado - aqui só há uma coisa perigosa para vocês - poesia". Na noite de 23 de Setembro de 1973, apesar do cancro na próstata se apresentar irremediável, morre de ataque cardíaco numa clínica de Santiago do Chile, havendo muitos que dizem que o golpe militar de Pinochet "ajudou à estocada final"... Foi então sepultado num túmulo anónimo no Cemitério Central de Santiago do Chile, tendo sido enterrado com a presença massiva e vigilante dos militares golpistas de Pinochet, e só com a restauração da democracia no Chile, foi possível levar o seu corpo para a casa da Isla Negra, conforme era seu desejo. Cumpria-se então a vontade expressa pelo poeta, quase 50 anos antes, no seu poema «Disposiciones» do "Canto General": "Compañeros, enterradme en Isla Negra / frente al mar que conozco, a cada arena rugosa de piedras / y de olas que mis ojos perdidos / no volverán a ver..." Pablo Neruda voltou à Isla Negra em Dezembro de 1992, quando os seus restos foram transladados, e se realizou um funeral com todas as honras e com a participação das mais altas autoridades da Nação. Aquando da sua morte, o ditador Augusto Pinochet proibiu qualquer manifestação pública. Aliás, nesse período sombrio e vergonhoso da história do Chile, a poesia de Pablo Neruda foi considerada ilegal pela Junta Militar de Augusto Pinochet, e só quando os Chilenos voltaram a viver em Liberdade, a obra de Neruda saiu desta medieval e criminosa proibição. Actualmente, Pablo Neruda está sepultado num túmulo, que somente tem à sua frente o Oceano Pacífico, com a forma da proa de um navio, onde inclusive existe um mastro, numa alusão ao importante papel que o mar sempre assumiu para o poeta, estando a seu lado, a paixão de uma vida, Matilde Urrutia, isto é, juntos na vida, juntos na morte. Foi uma visita a um local muito belo e cheio de significado! Tocou-me muito! Pablo Neruda continua vivo, e termino as "NOTAS DE VIAGEM" de hoje, relembrando o texto de um graffiti que em tempos esteve escrito na casa de Isla Negra, que já reproduzi em outro artigo, e que penso reflectir, segundo um prisma nacional, quem é e o que significa Pablo Neruda: "Neruda não é chileno, o Chile é nerudiano"! Nas próximas "NOTAS DE VIAGEM" irei até Santiago do Chile.
Novembro de 2006 Rui Oliveira e Sousa |
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