Domingo, 20 Julho 2008 - 13:57 (Açores 12:57)
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Chile – esquecimentos inquietantes...Na sequência do que escrevi na parte final do último artigo, vou então relatar duas situações, que, no meu entender, mostram que Pinochet ainda estava "presente" no dia a dia dos Chilenos, quando no ano passado visitei o Chile, numa altura em que o ditador ainda não falecera. Não deixa de ser curioso, e mesmo algo inquietante, que apesar de Pinochet ter deixado o poder na sequência do já distante plebiscito de 5 de Outubro de 1988, quando os Chilenos disseram NÃO a mais 8 anos de continuação da sua ditadura, e logo a seguir, como referido nas anteriores "NOTAS DE VIAGEM", nas eleições de 1989, Patricio Aylwin Azócar ter-se tornado Presidente da República, com uma clara vitória, materializada em 55,17% dos votos, enquanto que o candidato da direita e da extrema-direita, o ex-Ministro de Pinochet, Hernán Buchi, só recolheu 29,40% dos sufrágios, sentir-se ainda receio das pessoas em falar de Pinochet e do período em que este liderou o País. Como há muito é do conhecimento geral, e está perfeitamente documentado, a sua ditadura não observou minimamente o respeito pelos Direitos, Liberdades e Garantias dos cidadãos, fossem eles Chilenos ou estrangeiros, tendo revestido, até, uma faceta brutal e impiedosa, que para sempre ficará na história do Chile, da América do Sul, e mesmo do Mundo. Todavia, mesmo assim, passados tantos anos sobre o seu fim, ainda persistem comportamentos que evidenciam medo! Por exemplo, Villa Grimaldi, o mais conhecido local de detenção e tortura da DINA, a polícia política de Pinochet, era perfeitamente desconhecida de toda a gente... Apesar de entre 1974 e 1978, cerca de 5.000 detidos terem sido levados para aquele local de repressão, dos quais, pelo menos 240 foram assassinados ou "desapareceram", e, ainda, entre as vítimas da ditadura que por lá passaram, se contar a actual Presidente do Chile, Michelle Bachelet, que ali foi torturada, juntamente com a sua mãe e o seu pai, o General Bachelet, um opositor de Pinochet, que foi assinado pelo regime. Pois mesmo com tudo isto, ninguém sabia o que era Villa Grimaldi, e quando eu explicava e fornecia uma série de dados perfeitamente identificadora do que se tratava, todos ignoravam onde poderia ser!... Apenas no último dia em que estive em Santiago, quando, mais uma vez, tentava saber onde seria Villa Grimaldi, um Chileno, "com muito esforço", lá se lembrou do que era, mas logo me informando que ficava numa zona afastada da cidade e que era muito perigoso eu lá ir... Sintomático, não é verdade? Em Portugal, por contraponto, há muitos e muitos cidadãos que ainda sabem onde era a sede da PIDE em Lisboa, ou onde se localizava a prisão de Caxias, ou o Aljube, ou Peniche, etc.. Ou ainda, e a título de exemplo, nas minhas primeiras deslocações a Luanda e a Maputo, muita gente me soube dizer onde eram as respectivas sedes da PIDE ou outros locais de repressão associados à polícia política do regime derrubado em 25 de Abril de 1974. Mas no Chile, parece que já todos se esqueceram deste tipo de lugares, e o esquecimento foi bem mais rápido que o dos Portugueses, Angolanos e Moçambicanos, em relação a situações de idêntico cariz... Aliás, e ainda relativamente ao consulado de Pinochet, também foi muito frustrante a situação que encontrei no que concerne a obras literárias sobre o período da ditadura militar. Percorri todas as grandes e importantes livrarias de Santiago do Chile, tentando comprar um livro que documentasse o que de mais significativo se passara naquele período, designadamente, no domínio da não observância das Liberdades e Garantias dos cidadãos e do desrespeito dos Direitos Humanos, e nada consegui! O melhor que arranjei, foi um livro, cuja 1ª edição está datada de Agosto de 2003, que versa o envolvimento das Autoridades dos EUA no golpe de estado que derrubou Salvador Allende, e é da autoria de um Norte-Americano que pertence ao National Security Archive, entidade que se dedica a trabalhar com documentação oficial desclassificada, que tem sede em Washington, DC. Muito pouco, na realidade... Ainda para mais, é possível fazer a comparação com o vizinho do lado, a Argentina. Quando lá estive, há cerca de dois anos, comprei sem qualquer dificuldade, um livro, que cobre amplamente e com grande detalhe, tudo o que teve a ver com a Guerra das Malvinas, que, como se lembrarão, foi uma iniciativa desastrosa da ditadura militar que então governava aquele País Latino-Americano, que acabou por se saldar por uma humilhante derrota infligida aos militares Argentinos pelo Reino Unido. Apesar de se estar em presença de períodos bem sombrios das histórias daqueles dois Países, as diferenças nos comportamentos subsequentes, entre a Argentina e o Chile, são por demais evidentes... Retomando a temática Santiago do Chile. A capital Chilena, que alguns consideram a cidade da América Latina com melhor qualidade de vida, estima-se que presentemente tenha mais de 6 milhões de habitantes, significando cerca de 36% da população total do País, e localiza-se num vale rodeado de montanhas, que ao limitarem a circulação dos ventos, originam problemas sérios de contaminação atmosférica, especialmente graves no Inverno, o que fez com que durante muito tempo, Santiago tenha sido considerada uma das capitais mais poluídas do Mundo. Felizmente, desde 2000, a poluição tem registado índices, que configuram uma melhoria da situação existente. A cidade, que se situa 543 metros acima do nível do Mar, próxima da Cordilheira dos Andes, foi fundada pelo conquistador espanhol Pedro de Valdivia em 12 de Fevereiro de 1541, nas margens do Rio Mapocho, em pleno Vale Central, tendo então sido denominada Santiago de Nueva Extremadura, sendo determinantes para a sua localização, o clima moderado e as condições geográficas que proporcionavam uma boa defesa da urbe - o Rio Mapocho dividia-se em dois braços, que, posteriormente, se tornavam a juntar, criando assim uma ilha, onde o aglomerado populacional foi erigido. Santiago foi designada capital do País em 1818, e durante a primeira parte do século XIX, permaneceu uma cidade pouco desenvolvida. Foi a exploração de nitratos no norte do Chile, que, a partir de 1880, trouxe prosperidade para o País, e, finalmente, promoveu o desenvolvimento de Santiago Actualmente, Santiago do Chile, possuindo uma área metropolitana significativa e muito populosa, cujos habitantes são na sua esmagadora maioria descendentes de Europeus, inicialmente de Espanhóis, mais tarde, e contando com políticas governamentais de apoio à imigração, de Alemães, Suíços e oriundos do Reino Unido, posteriormente seguidos por imigrantes Italianos, Irlandeses e Croatas, tendo muitos deles miscigenado com Ameríndios, tem uma arquitectura moderna, dispondo de um apreciável número de edifícios com muitos andares, tipo arranha-céus, que convivem sem qualquer "agressividade" com o seu centro histórico, bem como com os bairros e as casas construídas no século passado. É em Santiago do Chile que estão instaladas as sedes regionais de importantes multinacionais, como, por exemplo, IBM, Nestlé, Ford, Coca-Cola, HP, Microsoft, Reuters, JPMorgan, Unilever, Intel, Kodak, Motorola. Igualmente na capital Chilena, está instalada a CEPAL, Comissão Económica para a América Latina e Caribe, criada em 1948 pelo Conselho Económico e Social das Nações Unidas, com o objectivo de incentivar a cooperação económica entre os seus membros. É uma das cinco comissões económicas da ONU, possui 43 Estados e oito Territórios não independentes como membros, e, além dos Países da América Latina e Caribe, fazem parte da CEPAL, Canadá, França, Holanda, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos da América e Portugal. A capital Chilena dispõe de inúmeras praças, parques e jardins, diversas pontes sobre o Rio Mapocho, bem como várias igrejas, museus e outros locais de interesse cultural. Todavia, apesar de se encontrarem amiúde indicadores de cosmopolitismo, e mesmo de alguma sofisticação citadina, os mesmos coexistem com muitos sinais e comportamentos de ruralidade, com certeza, resultado do afluxo quotidiano de vendedores e artesãos, que do exterior da cidade, vão até à Capital para vender os seus produtos e adquirir o que necessitam para as suas vidas, mesclando assim Santiago de vivências e culturas diferentes. Ainda em relação às pessoas, no geral, não achei os habitantes de Santiago especialmente afáveis e hospitaleiros. Andei por muitos lados, percorri e visitei inúmeros locais, mas nas ruas, nos museus, nos restaurantes, nas livrarias, nas lojas de música, etc., a excepção foi as pessoas com quem contactava serem muito simpáticas!... No próximo artigo, relatarei episódios curiosos por mim vividos, com especial destaque para o meu "encontro" com a fadista Mariza, e escreverei sobre alguns dos locais visitados.
Rui Oliveira e Sousa Janeiro 2007 |
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