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25 de Abril: Como viveu a Revoluo dos Cravos?

Tera-Feira, 22 Abril de 2008

Onde estavam, o que fizerem, como viveram o 25 de Abril de 1974 e de que forma influenciou as suas vidas.
A «Revolução dos Cravos» vista pelos «olhos» de pessoas ligadas à Emigração...

"Liberdade, igualdade, direito ao trabalho e à justiça". Esse é para Manuel Beja, o significado da Revolução de 25 de Abril de 1974.

Ligado ao Partido Comunista, vivia na Suiça já há cerca de três anos, como refugiado político, quando se deu a revolução. "Trabalhava para uma empresa Suiça e tive conhecimento da revolução na manhã desse dia, nas montanhas de Gottard. Ia com uns colegas a escutar a emissão de uma rádio italiana, porque 25 de Abril é o dia em que comemoram a libertação da Itália pelos aliados na Segunda Guerra Mundial. De repente, a emissão foi interrompida para informarem que algo estava a acontecer em Portugal", recordou a O Emigrante/Mundo Português.

Os portugueses que, como ele, viviam em Zurique reuniram-se junto à estação dos caminhos-de-ferro, onde havia uma cabine de telefones, mas nenhum conseguiu contactar os familiares em Portugal e saber mais detalhes do que realmente se estava a passar em Lisboa. Manuel Beja diz que já esperava que algo fosse acontecer, por informações que recebia de Portugal, através do partido, e não se esquece da alegria com que os portugueses em Zurique receberam a notícia.

Além dele, viviam em Zurique mais três refugiados políticos portugueses, mas a comemoração juntou reuniu os emigrantes, independentemente da sua ideologia política. "Passei o 1º de Maio na Suiça, havia cerca de dois mil portugueses a trabalhar na região de Zurique e fizemos uma manifestação no dia 1 de Maio", contou.

Manuel Beja regressou logo a seguir a Portugal e recorda particularmente a boa recepção que teve em Alcobaça, terra natal, onde as pessoas já conheciam as suas opções políticas. Ainda ficou dois anos em Portugal, participou no processo de criação de cooperativas de pesca na região de Peniche, além de acompanhar outros movimentos, mas acabou por decidir regressar à Suiça, decepcionado "com os contornos que a revolução estava a tomar em Portugal", explica.

Mas foi em grande parte o 25 de Abril, que lhe deu a motivação para manter, até hoje, uma actividade ligada aos movimentos associativo e sindical. "Se não fosse o 25 de Abril, não me teria ligado tanto à emigração portuguesa", sublinha.


Algo "muito forte"

 

Paulo Marques não pode ter do 25 de Abril as mesmas recordações que Manuel Beja, mas o movimento não lhe passou «ao largo». Com apenas quatro anos, Paulo Marques viveu o 25 de Abril através dos «olhos» dos pais e dos outros adultos com quem convivia em Aulnays-sous-Bois,

França, país onde nasceu. "Recordo-me que houve algo forte em Aulnays, onde vivíamos. Em 1973 os meus pais criaram a Associação e o Rancho Rosa dos Ventos e foi junto dos integrantes do rancho folclóricos que me lembro de ter sido transmitido algo «forte». No ensaio do rancho dançou-se com alegria, emoção", contou.

Professora num colégio francês, a mãe de Paulo Marques soube por uma colega francesa que algo se estava a passar em Portugal e a comemoração aconteceu somente no dia seguinte. A Revolução ocorreu numa quinta-feira, o rancho ensaiava às sextas e no dia 26, a alegria que viu nas pessoas foi "marcante" para o rapaz de quatro anos, "marcante".

Mas Paulo foi aprender o significado do movimento que deu origem ao 25 de Abril, depois, com o passar dos anos, através dos pais e de dirigente do movimento associativo. Depois disso, já participou de inúmeras comemorações, mas uma marcou-o mais. Em 1999, era representante das Comunidades Portuguesas para o Conselho Consultivo da Juventude e ouviu em Portugal o então secretário de Estado da tutela, Miguel Fontes, revelar a intenção de gravar um DVD sobre o 25 de Abril, com informações históricas e depoimentos.

Naquele ano, a Festa das Tradições Populares, em Aulnays, inclui um espaço multimédia onde avós, pais e filhos tiveram a oportunidade de assistir ao documentário. "O DVD foi exibido num espaço onde os mais velhos puderam recordar aquele período, reconhecer lugares e reviver o movimento junto dos filhos e netos", recorda. "Nasci em França e nunca vivi a repressão, mas acho que temos um dever de memória, de relembrar através das memórias dos pais e avós, tudo o que se passou antes, a repressão, a guerra", destaca.


Tranquila... a gravar

 

Em 1974, Manuela Aguiar vivia em Lisboa e estava longe de imaginar que passaria grande parte da sua vida ligada às questões da Emigração. Menos de 48 horas antes do golpe, tinha tomado posse, como assistente na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e a sua vida passou a ser dividida entre as duas cidades. No dia 25 de Abril de 1974, a então professora universitária estava em Lisboa, no seu apartamento. "Fui acordada às 8 da manhã por uma tia a dizer-me que havia uma revolução e que eu devia, por precaução, ir ao mercado comprar víveres suficientes para dois ou três dias. Foi o que fiz. Voltei para casa e ali fiquei todo o dia, a ouvir e gravar os programas que passaram na rádio", recorda a O Emigrante/Mundo Português.

As gravações estão guardadas até hoje e registam momentos históricos e "conversas engraçadíssimas entre o Largo do Carmo e o Terreiro do Paço", como recordou com humor.

O que a ex-secretária de Estado das Comunidades e ex-deputada pela Emigração não consegue justificar até hoje, foi o que levou uma pessoa dinâmica e curiosa, a passar em casa o dia 25 de Abril. "Acho que decidi apenas seguir aquilo que a família me pediu para fazer", disse, confessando a pena que até hoje sente de não ter ido logo para a Baixa de Lisboa. "Veja lá o que eu perdi. Em vez disso, estive calma e tranquila a fazer gravações".

Talvez para compensar o «dia perdido», a primeira coisa que fez, quando saiu, foi ir até à Baixa, comprar o disco «Cantigas de Maio». Mas se falhou o primeiro dia da Revolução, Manuela Aguiar não perdeu depois nenhuma das manifestações que se seguiram. A do 1º de Maio foi a primeira de muitas. "Íamos todos juntos, nem sequer havia ainda as divisões partidárias. A manifestação foi num dia de sol e lá ia eu com o meu cravo, que por acaso era cor-de-rosa".

Por passar metade da semana em Lisboa e a outra metade em Coimbra, Manuela Aguiar apercebeu-se que a Revolução e as situações vividas nos primeiros tempos, sentiram-se verdadeiramente na capital do país. Sobre a importância do facto, diz que no imediato, deu-lhe a possibilidade de viver num país diferente, democrático, europeu, com direito à opinião pública. "Agora, se correspondeu às expectativas, devo dizer que há dez anos atrás, dava uma resposta mais positiva. Hoje vive-se uma prepotência de poder que não é própria de uma democracia", critica.

A nível pessoal afirma que a Revolução influenciou-a a ponte de enveredar uma carreira política que não teria seguido se não tivesse vivido os acontecimentos de 25 de Abril de 1974. "Porque permitiu a existência de um regime democrático que influenciou a minha vida política", explica.


«Grândola, Vila Morena» em directo...

José Miranda de Melo já tinha optado pela emigração há mais de 20 anos, quando se deu a Revolução. A viver no Brasil desde 1952, foi na cidade de Recife que soube o que se estava a passar em Portugal, naquela madrugada de 25 de Abril.

E foi o hábito de escutar diariamente a emissão em ondas curtas da RDP que lhe permitiu ouvir, a milhares de quilómetros de distância, a música que deu início ao movimento. "Captei numa emissão da rádio, a canção «Grândola, Vila Morena» e vim a saber depois que aquela música tinha sido a senha para o início do movimento", recordou.

Miranda de Melo lembra-se de ter continuado a acompanhar a emissão e ter-se apercebido do que se estava a passar, embora a certeza só tenha chegado ao longo do dia. "Já havia no ar alguma insatisfação, e embora não fossem divulgadas, tínhamos informações que davam a entender que algo estava a ocorrer. Mas não pensávamos que tivesse aquela magnitude", revelou ainda.

Lembra-se da euforia do primeiro momento, "porque o país ansiava por mudanças". Dos anos anteriores ao 25 de Abril, recorda uma infância vivida "sobre uma forma de regime que tinha uma política restritiva". "O regime anterior pode ter tido alguns méritos, mas após 1945, o governo não teve capacidade de acompanhar as mudanças", sublinhou.

"A grande maioria dos portugueses viu no 25 de Abril o raiar de uma aurora, era a possibilidade de se equacionar uma nova vida política para o país", afirmou. Miranda de Melo concorda que há aspectos que mudaram no país, mas não deixa de frisar que "há aspectos sociais" que o "preocupam muito". "Mas não se pode pesar que as coisas poderiam ficar como estavam", afirma.


Dia eufórico

 

Ao contrário de Miranda de Melo, José Xavier ainda vivia em Portugal por altura do 25 de Abril. Tinha 14 anos, era estudante em Torres Vedras e não imaginava que iria um dia deixar a sua terra para viver na Holanda. Estava ligado ao movimento estudantil, através da Associação de Estudantes e recorda-se que "já se falava que algo iria acontecer brevemente".

"Foi um dia eufórico, mas também de muitas incertezas sobre o que poderia acontecer. Nos dias seguintes manifestamo-nos, acompanhamos a libertação dos presos políticos, enfim, são momentos que só vivemos uma vez na vida", sublinhou.

A viver ainda na Holanda, José Xavier, conselheiro das Comunidades portuguesas durante dez anos, afirma com convicção que o 25 de Abril marcou muito a sua vida. "Em relação à minha forma de estar, sei que tenho mais liberdade do que tinha antes do 25 de Abril, todo o trabalho que desenvolvo é sem o medo das sanções que existiam antes", destaca ainda.

Quando decidiu emigrar, em 1981, José Xavier fê-lo para o país da Europa que entre 1960 e 1974, acolheu o maior número de portugueses que fugiam ao regime político da altura. A comunidade portuguesa não era formada apenas por aqueles que procuravam uma vida económica melhor, mas também por um grande número de refugiados políticos "que marcaram muito" essa mesma comunidade, principalmente em Amesterdão.

Já José Morais acompanhou, nos Estados Unidos, todos os acontecimentos ligados ao 25 de Abril. O conselheiro das Comunidades Portuguesas vivia no país há seis anos e lembra-se "perfeitamente" daqueles dias. "Soubemos as notícias através da rádio, as pessoas ficaram contentes até por não ter havido mortes".

Diz que a Revolução foi importante até pelo facto de lhe permitir a hipótese de regresso a Portugal, algo que nunca imaginaria fazer no antigo regime. "O 25 de Abril veio trazer muitas coisas novas, tanto a quem vivia no país como a quem vivia fora", destacou.


Ambiente democrático

 

Apesar de residir na Venezuela há 16 anos, Inácio Pereira teve a oportunidade de ver de perto os reflexos do 25 de Abril. Tinha 22 anos quando a Revolução saiu à rua e, por coincidência, estava em Portugal. Não se recorda ao certo se foi no dia 18 ou 19 que desembarcou na Ilha da Madeira, vindo da Venezuela, país onde vivia desde os seis anos.

E foi na Madeira que acompanhou "o dia do golpe" e lembra-se de lhe terem dito que "havia barulho em Lisboa". Pressentiu que algo se passava depois de ter visto "uns barcos militares a passarem pela Madeira" e "aviões militares a aterrar, à noite". Soube depois que "tinha aterrado o (presidente) Américo Tomás".

Mas Inácio Pereira teve, antes de voltar para a Venezuela, a oportunidade de presenciar a euforia da altura. No dia 27 de Abril, aterrou em Lisboa e, recorda, "toda a gente andava com cravos vermelhos nos bolsos". "Agarrei também eu num cravo e pus no casaco, os meus amigos a brincar diziam-me que tinha vindo a Portugal para dar o golpe", recorda.

Mais a sério, Inácio Pereira confessa que percebia muito pouco da política portuguesa, e que foi em Lisboa que começou a questiona-se sobre o que iria acontecer dali em diante. Diz entretanto, que o que mais o impressionou foi não ter havido vítimas. "Fiquei contente por estarmos a entrar numa democracia. Eu vivia num ambiente democrático na Venezuela e queria na altura que o mesmo existisse em Portugal".

A.G.P.



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