Quinta-Feira, 18 Março 2010 - 03:00 (Açores 02:00)
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"Foram as minhas raízes que me puxaram para Portugal"Richard Gonçalves é um aluno alemão, filho de pais portugueses, que escolheu o nosso país para tirar o seu curso superior. O Emigrante/Mundo Português foi falar com este estudante da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa acerca da sua experiência em Portugal. Não, já nasci na Alemanha. Vivi lá toda a minha vida. Só agora é que vim para Portugal estudar.
Os seus pais ainda permanecem na Alemanha ou já regressaram? Ainda estão lá. Têm uma boa vida lá, estável e com bons empregos.
Em casa falava-se português ou alemão? Falava-se mais vezes alemão. Com quem falava mais português era com a minha mãe. A minha família encontra-se muito bem integrada na sociedade local. Moramos numa pequena aldeia e não conhecemos lá outra família portuguesa. Todos o meus amigos lá são alemães e eu sempre frequentei escolas alemãs. Os meus pais, como todos os emigrantes, sempre que tinham oportunidade vinham a Portugal. Vinham ver a família. Até os meus avós falecerem, Portugal era o único destino de férias da minha família.
Está há quanto tempo em Portugal? Tenho 23 anos e estou quase à três anos. É o tempo em que estou no curso.
Como surgiu esta escolha por Portugal? A ideia surgiu, talvez, devido às minhas raízes. Foram elas que me puxaram para Portugal, mas também, porque na altura pensei que fosse uma boa oportunidade e benéfico para mim. Para o curriculum é sempre bom apresentar este tipo de experiências. Penso que o facto de ter tido a coragem de estudar fora da Alemanha, pode ser muito benéfico para mim a nível curricular. Mostra que sou uma pessoa flexível.
Pensa que é bom estudar em Portugal? Agora com o Tratado de Bolonha, penso que sim. Hoje em dia já existem equivalências em quase todos os países europeus. De qualquer forma, não se compara com os estudos na Alemanha. Tenho um amigo a estudar na Alemanha a mesma coisa que eu e ele está a fazer muito mais. Só o facto de o meu curso ser de três anos e o dele ser de cinco já faz uma grande diferença. Não é possível uma pessoa que tira um curso em três anos aprender tanto quanto uma pessoa que tira o mesmo curso em cinco. Pessoalmente, penso que foi um erro ter vindo estudar para Portugal, porque a expectativa na Alemanha é muito maior. É triste dize-lo, mas em Portugal o mercado de trabalho está muito mal. Os licenciados tiram os seus cursos e depois não conseguem encontrar um emprego de acordo com a sua formação.
Acha que vai ter mais dificuldades para encontrar um emprego na Alemanha do que, por exemplo, o amigo que referiu? Sem dúvida. Apenas a questão de eu estudar apenas três anos e ele cinco, já é uma grande vantagem para ele. Depois há a questão das equivalências, que ainda não sei como se vai resolver. Não sei se vou conseguir equivalências para todas as disciplinas. Vou ter de mandar traduzir todos os documentos necessários e depois esperar que o meu curso seja reconhecido na Alemanha. Agora com o processo de Bolonha, pode ser que o processo seja facilitado, mas não é certo que a minha situação seja fácil de resolver.
Pensa que o Tratado de Bolonha pode ser prejudicial? Muitos portugueses estão contra, mas eu acho que pode ajudar. Hoje em dia, com a globalização, uma pessoa tem de ser flexível. É bem possível que um português opte por trabalhar fora de Portugal. Acho que os portugueses ainda têm essa mentalidade de ficarem dentro do País e fazerem a sua vida por cá. Na minha perspectiva, este tratado pode abrir muitas portas, que os portugueses devem aproveitar. Os portugueses deviam pensar que pertencem à Europa antes de pensarem que pertencem a Portugal. Estamos na era da globalização. É claro que existem muitas críticas que podem ser feitas, mas também existem muitas vantagens que podem advir deste fenómeno.
Foi por sua vontade que veio para Portugal ou era a alternativa mais fácil? Não, foi mesmo por minha vontade. Vim para Portugal da mesma forma como outros amigos meu escolheram ir para os Estado Unidos ou França, por exemplo. Queria também experimentar algo de novo e acabei por escolher o país dos meus pais.
Já sabia que existiam vagas reservadas apenas para filhos de emigrantes portugueses? Na altura em que decidi concorrer ainda não sabia. Apenas depois vim a saber que não teria quaisquer dificuldades em entrar em qualquer universidade portuguesa. Não tive sequer de fazer os exames nacionais que todos os outros meus colegas portugueses fizeram.
Comparativamente com o ensino alemão, como considera o ensino português? É uma diferença enorme. O ensino alemão é muito mais exigente. Tive a oportunidade de estudar na Alemanha até ao 13º ano e noto grandes diferenças, principalmente, na forma de estudar e nas apresentações. O 13º ano que existe na Alemanha, e não em Portugal, faz grande diferença. Enquanto que na Alemanha existe uma selecção a partir do quarto ano que é feita pelos professores, em Portugal todos podem fazer o 12º ano e frequentar a universidade. Na minha maneira de ver, nem todas as pessoas têm as mesmas capacidades. Existem umas que são melhores numas funções que outras e é essa selecção que é feita na Alemanha. Se a pessoa não gosta de estudar, pode fazer outra coisa, pode especializar-se noutro tipo de função. Em Portugal, são os país que escolhem o que os filhos vão fazer no futuro. Mesmo que não gostem de estudar, são quase obrigados a terminar o 12º ano e, por vezes, frequentar a universidade. Esta é uma das causas porque há muitos licenciados em Portugal sem trabalho. Muitos entraram para o ensino superior com médias muito baixas e saíram de lá com médias igualmente baixas.
Na Alemanha, que ideia se tem do sistema educativo português? Há muito pouca informação acerca disso na Alemanha. O meio de informação mais acessível é a RTP Internacional e, sinceramente, a programação, para mim, é uma vergonha. O Telejornal, por exemplo, que seria um programa de informação por excelência, é de um nível fraco. A informação sobre Portugal na Alemanha, praticamente não existe, na minha opinião.
Quando disse aos seus pais e amigos que vinha estudar para Portugal, qual foi a reacção deles? Lá está o cliché de Portugal. O país sol, os portugueses simpáticos e acolhedores, as praias... É claro que os meus amigos ficaram contentes por mim e surpreendidos. A opinião deles era que eu estava a fazer a escolha certa. Os meus pais são mais objectivos. O conselho deles foi que pensasse duas vezes antes de fazer a minha decisão, mas é claro que ficaram contentes por ter optado pelo país deles.
Ficou contente com a opção que tomou? Não. Somando as vantagens e desvantagens, minha resposta é, definitivamente não. Uma pessoa tem de ser realista. Uma pessoa que está na Alemanha, que fez a escola lá, se está integrada na comunidade, porque vir estudar para um país onde o salário mínimo é de 400 euros? Uma pessoa que cá em Portugal ganhe o salário mínimo, na Alemanha ganha o dobro ou mais. Hoje em dia, o importante é o dinheiro. Claro que a saúde e a família estão em primeiro lugar, mas nós estamos a estudar para um dia podermos ser independentes financeiramente. Aqui, depois de se acabar um curso, mesmo que com uma média alta, encontram-se muitas dificuldades em arranjar trabalho. Por quê vir para Portugal se cá não existem vagas de trabalho!? Mesmo a nível social, a minha experiencia em Portugal foi muito má. Eu ainda não vi o povo acolhedor de que falam lá fora. Raramente saio de Lisboa, mas pelo que vejo, as pessoas portuguesas são frias. Eu, por exemplo, ainda não consegui entrar num grupo português de amigos. Penso que em Portugal existe um certo estigma em relação aos imigrantes e todos aqueles que vêm de fora e eu sinto isso na pele. Os meus amigos em Portugal são, quase apenas, os estudantes do Programa Erasmos e os estudantes não portugueses e eu sou uma pessoa muito aberta. Mesmos esses meus amigos, têm a mesma opinião. Não aconselho nenhum emigrante a vir estudar para Portugal.
Mas pensava trabalhar em Portugal? Sim, a princípio sim. De resto já tentei arranjar um trabalho para as horas vagas, mas as condições que me oferecem são uma vergonha. Penso que nunca trabalharia por 2 euros por hora, por exemplo. Não sei como os portugueses ainda não fizeram um pequena revolução! Para mim, isto é ridículo.
Depreendo de tudo isto, que assim que terminar o curso vai voltar para a Alemanha? Ainda não tenho a certeza. Vou tentar encontrar trabalho em Portugal, mas se não conseguir, tenho de avaliar as outras opções. A.B. |
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