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Apito Dourado: Seis minutos de acareação entre Pinto da Costa e Carolina Salgado não chegaram para saber quem mente

Quarta-Feira, 14 Maio de 2008
A acareação de hoje, entre Pinto da Costa e Carolina Salgado, durou apenas seis minutos e só permitiu clarificar que um deles mentiu sobre alegadas conversas à mesa de um restaurante para combinar árbitros que interessariam ao Gondomar SC.

Carolina Salgado disse que Pinto da Costa "mentiu" e o dirigente portista garantiu que o que a ex-companheira contou é "totalmente falso".

Ambos mantiveram, assim, as versões que apresentaram anteriormente, em depoimentos autónomos ao Tribunal de Gondomar, enquanto testemunhas do processo inicial do "Apito Dourado".

Em 13 de Março, Carolina Salgado disse ao Tribunal de Gondomar que presenciou várias conversas envolvendo Pinto da Costa, Valentim Loureiro e Pinto de Sousa sobre alegados favorecimentos ao Gondomar SC.

As conversas teriam decorrido no restaurante Degrau Chá, na zona do Foco, um estabelecimento que pertence à família de Valentim Loureiro.

Em 22 de Abril o dirigente "azul-branco" garantiu que não participou nos alegados repastos para combinar árbitros para os jogos do Gondomar SC.

"Nem para "apanhar o Bin Laden", ironizou.

Na rápida acareação de hoje, Carolina Salgado limitou-se a reiterar o que anteriormente dissera e a assegurar, a perguntas do juiz-presidente Carneiro da Silva, que Pinto da Costa "está a mentir".

O magistrado dirigiu-se em seguida a Pinto da Costa, esboçando um sorriso e dando por adquirido que este iria afirmar que "a senhora é que está a mentir".

"O sorriso diz tudo. É totalmente falso", retorquiu o dirigente portista.

Alongando-se um pouco mais do que Carolina Salgado, Pinto da Costa disse ser "fácil" comprovar que não foram combinados quaisquer encontros para discutir árbitros.

"É fácil verificar. O meu telefone está sob escuta há muitos anos", afirmou.

"Esteve!", retorquiu o juiz.

"Esteve e está. E é fácil de verificar que nunca, em qualquer circunstância, foi combinado qualquer almoço com Valentim Loureiro e Pinto de Sousa", observou.

Pinto da Costa confirmou que às vezes ia ao Degrau Chá comer arroz de pato e admitiu que se lá tenha deslocado alguma vez com Carolina Salgado.

"Com mais, com quem quer que fosse, não", acrescentou, numa alusão a arguidos do processo Apito Dourado acusados de escolher árbitros para o Gondomar SC.

Nas acareações, as testemunhas colocadas frente a frente não comunicam entre si, respondendo a perguntas directas do juiz.

"Falam só comigo e não um com o outro", advertiu o juiz-presidente a Carolina Salgado e a Pinto da Costa, mal entraram na sala.

Apesar de se enfrentarem em vários processos, esta foi a primeira vez que o presidente do FC Porto e a sua ex-companheira estão frente a frente na barra judicial, ainda que ambos na condição de testemunhas.

A acareação estava marcada para as 14:00 no Tribunal de Gondomar, no âmbito do julgamento do processo inicial do Apito Dourado, tendo começado às 14:34.

Carolina Salgado chegou ao tribunal às 12:50, acompanhada por seguranças e entrou nas instalações judiciais em passo apressado por uma porta lateral.

Pela mesma porta entrou Pinto da Costa, que chegou ao tribunal meia hora depois.

Para a área foi destacado um dispositivo policial aparentemente maior do que o habitual em julgamentos do Apito Dourado.

As únicas dificuldades sentidas pela polícia relacionaram-se com a distribuição de lugares na assistência, escassos para o número de jornalistas e cidadãos com interesse em presenciar a acareação.

Carolina Salgado, testemunha arrolada pelo Ministério Público (MP), referiu em 13 de Março que presenciou várias conversas envolvendo Pinto da Costa, Valentim Loureiro e Pinto de Sousa sobre alegados favorecimentos ao Gondomar SC.

A mulher que viveu seis anos com Pinto da Costa e que se assumiu perante o tribunal como escritora, disse que os responsáveis falavam no restaurante Degrau Chá, na zona do Foco, um estabelecimento que pertence à família de Valentim Loureiro.

Pinto da Costa seria, segundo Carolina Salgado, o intermediário solicitado junto de Pinto de Sousa - o "Zé", como era tratado - para que o Gondomar SC tivesse os árbitros pretendidos.

A versão foi desmentida a 22 de Abril, no mesmo tribunal, pelo próprio Pinto da Costa, chamado a depor pela defesa do arguido Pinto de Sousa (à data presidente do Conselho de Arbitragem da FPF).

Jorge Nuno Pinto da Costa garantiu que não participou nos alegados repastos, nem para combinar árbitros para os jogos do Gondomar SC, nem para "apanhar o Bin Laden".

"Acho ridículo que o senhor major, que tinha uma relação privilegiada com o senhor Pinto de Sousa, precisasse de mim" para interceder pela nomeação de árbitros para o Gondomar SC, declarou, noutro ponto do seu curto depoimento.

O presidente portista afirmou ainda que nunca viu qualquer jogo do Gondomar SC, nem teve qualquer relação com o clube, ao qual o FC Porto nunca emprestou jogadores.

A acareação agora realizada foi pedida pelo MP face às "notórias contradições" nos testemunhos de Carolina Salgado e Pinto da Costa.

O processo "Apito Dourado", que incluiu investigações a alegados casos de corrupção e tráfico de influências no futebol profissional português, foi desencadeado há quatro anos com a detenção para interrogatório de vários dirigentes e árbitros de futebol.

No caso de Gondomar, 24 arguidos são suspeitos de integrarem um esquema para induzir os árbitros a beneficiar o clube local na época 2003/2004, que aspirava a subir à II Liga profissional de futebol.

De acordo com o Ministério Público, Pinto de Sousa nomeava os árbitros a pedido de José Luís Oliveira (vice-presidente da Câmara de Gondomar, presidente da Direcção do Gondomar SC à data dos factos) e de Valentim Loureiro, que à data já era presidente da Câmara de Gondomar e ainda dirigia a Liga Portuguesa de Futebol Profissional.



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