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Prudêncio Carreira: o português que descobriu as grutas de Sto António

Aconteceu por casualidade, mas foi preciso alguma coragem, espírito de aventura e ainda uma certa falta de noção do perigo.
Em Junho de 1955, Prudêncio Carreira, então com 28 anos, descobria as Grutas de Santo António, e tudo por «culpa» de uma criança que lhe pediu para apanhar uns filhotes de gralhas que estavam num ninho à entrada "de um buraco" com cerca de 18 metros. Afinal, a tal abertura era o caminho para uma série de salas com paisagens naturais deslumbrantes que compõem uma das mais belas grutas de Portugal.
Passados 53 anos da descoberta, este emigrante no Canadá continua ligado ao local, que adquiriu com alguns amigos, e do qual fala com a mesma paixão de há cinco décadas...
 

Prudêncio Carreira tinha 28 anos e vivia na povoação de Serra de Santo António, concelho de Alcanena. Diz que foi o espírito aventureiro que, num dia de Junho de 1955, o levou a condescender no pedido de "um miúdo", interessado em apanhar filhotes de gralhas que sabia estarem "na entrada de um buraco", que, pensava-se na altura, "tinha cerca de 18 metros de altura", num terreno na povoação de Alvados. "Eu conhecia o lugar desde garoto, assim como todos os pastores de gado e, como era um bocado aventureiro, descia se fosse preciso, para apanhar os pássaros para o miúdo", recordou a O Emigrante/Mundo Português.

Foram as tentativas para apanhar os pássaros que o levaram a descer os 18 metros e aperceber-se que havia outro buraco no fundo da entrada. "Estava praticamente tapado, mas tirei algumas pedras, que rolei por ali abaixo e vi que havia uma passagem", explicou. Decidiu explorar o caminho, algo que só fez porque tinha com ele uma caixa de fósforos - por conta do hábito de fumar.

"Fui escorregando e quando pude levantar a cabeça acendi os fósforos e apercebi-me que havia qualquer coisa interessante. Calhou ter fósforos comigo, senão nada disto acontecia", recordou divertido.

A primeira imagem que guarda é de uma «sala» com uma passagem apertada, onde sentiu uma corrente de ar, que o animou a continuar, mas por pouco tempo. Os poucos fósforos que restavam levaram-no a voltar para trás. No dia seguinte, lá estava novamente, desta vez munido "com velas antigas, que duravam muito tempo".

Desta vez, a «exploração» demorou cerca de duas horas. "À entrada, para a direita, há um caminho que não está aberto a visitas, que se fazem pela esquerda. Quando entrei com as velas, calhou principiar pelo lado esquerdo e pensei «ontem não vi este caminho, para aqui também há» e fui andando", contou, explicando como se conseguiu orientar: "foi pela voz, a luz era fraca, tinha que andar com muito cuidado para não cair em nenhum buraco e como não sabia se estava perto de uma rocha ou em caminho aberto, dava um grito para perceber até onde ia a voz. Fui andando, o caminho tem cerca de 80 metros de comprimento e lá cheguei ao fim". Ali encontrou "uma «rapaziada» barulhenta" como chamou às dezenas de morcegos que, assustados pela voz, começaram a esvoaçar.

Prudêncio Carreira diz que foi mais uma vez a sua voz que o encaminhou até à saída das grutas, mas até hoje admira-se com o facto de ter conseguido "caminhar lá dentro por duas horas e depois dar com o caminho de volta e sair".

Descobridor e proprietário


Confirmada a descoberta, Prudêncio Carreira não demorou a informar familiares e amigos sobre o feito. O interesse que suscitou foi visível logo no primeiro fim-de-semana seguinte e, entre os inúmeros curiosos que lá apareceram, o emigrante português destaca as seis senhoras que resolveram descer "penduradas por cordas". "Homens então, foram muitos", completou.

Com a notícia da descoberta publicada em vários jornais e o crescente interesse popular pelas grutas, Prudêncio e um grupo de amigos pensaram na hipótese de comprarem o terreno, que era propriedade privada. "Fomos ter com o dono que estava «deserto» para vender o terreno porque achava que não tinha interesse nenhum. Como havia por ali algumas explorações de mármore ainda nos perguntou se era para isso que o queríamos, mas dissemos que não", recordou.

As negociações foram bem sucedidas e os seis amigos compraram o terreno. Prudêncio Carreira e os sócios não mentiram ao afirmar que não tinham interesse na extracção de mármore, mas também não referiram o facto de haver no local umas grutas com uma paisagem natural admirável que iria, ao longo das décadas seguintes, atrair milhares e milhares de visitantes. "Nós também não podíamos dizer que aquilo valia muito se estavamos com ideias de comprar", justifica.

Dos seis sócios iniciais, um desistiu um ano depois e a quota foi comprada pelos restantes. Anos mais tarde, quando se apreceberam que já não tinham "força, nem dinheiro nem experiência suficiente" para continuarem sozinhos, associaram-se a uma empresa a exploração das grutas, que adquiriu aos cinco amigos, um terço do negócio, tendo outro terço sido comprado por um particular.

Uma situação que se prolongou por vários anos, até à nacionalização - após o 25 de Abril - da empresa associada. "Nós voltamos então a comprar a parte deles", conta.
O «descobridor» e os quatro sócios iniciais passaram, assim, a deter dois terços das Grutas de Santo António.


O último...


Prudêncio Carreira já perdeu os quatro amigos de negócios, mas diz que os herdeiros mantiveram as quotas dos pais e continuam a acompanhar a gestão das grutas.

Um negócio que exigiu sempre muito sacrifício. Quem vê hoje a infra-estrutura criada para receber o público não imagina que, nos primeiros tempos, o trabalho foi feito de uma forma quase amadora. "Os camiões já conseguiam na altura ir até lá perto, para buscar mármore, mas um camião passa em qualquer lado. Mesmo junto às grutas, acho que nem um cavalo lá conseguia ir", recordou. Prudêncio diz que os sócios começaram a arranjar o caminho conforme podiam, com a intenção de abrirem uma estrada onde pudessem passar os automóveis. Para o acesso ao interior das grutas, contrataram um carpinteiro que construiu uma escada, na entrada, com 18 metros de profundidade "e que ia até ao fundo".

"Desci e subi essa escada tantas milhares de vezes que ainda me lembro bem: tinha 82 degraus", conta a recordar as inúmeras vezes em que foi às grutas "às tantas da noite", por conta dos curiosos que chegavam a qualquer hora com a vontade expressa de conhecer uma paisagem bastante diferente do que imaginavam. "Naquele tempo, os carros eram menos, mas eu não sei de onde aparecia tanta gente. Eram as pessoas que nos «obrigavam» àquele ritmo de trabalho, com o entusiasmo que demonstravam", acrescentou.


Emigrar para não «perder» os filhos


Prudêncio Carreira não se esquece dos 15 anos que passou nas «suas» grutas, como guia, sem direito a fins-de-semana ou feriados. Gostava "demais" do que fazia e por isso, quase não tinha tempo para mais nada. Mas desistiu prontamente do ofício, por causa da guerra no Ultramar.

Começou a assustar-se com a hipótese de vir a "perder" os filhos para Angola, Moçambique ou outra então colónia portuguesa em África. Apesar do mais velho ter apenas 13 anos, apercebeu-se que "estava a criar os filhos para eles irem defender" algo que diz nunca ter entendido, e decidiu tirar os dois rapazes de Portugal. A emigração era a única saída e Prudêncio Carreira agarrou a oportunidade.

Escolheu um país de que ficou a "gostar muito". "Tinha família no Canadá que me incentivou e tratou da documentação", recorda Prudêncio que em 1970, aos 42 anos, recomeçou a vida naquele país porque também queria "que os rapazes pudessem estudar mais e aprender outras línguas". A estadia não deveria ter sido definitiva, pelo menos não era essa a vontade inicial. Até porque, em Portugal ficava o seu «negócio». Mas o Canadá acabou por ser o país de residência, até hoje.

Em Agosto de 1973 regressou às suas grutas para, a 15 do mesmo mês, assistir ao dia de maior movimento de sempre. "Registamos mais de 17 mil entradas, era tanta camioneta, tanta gente, uma loucura", recorda.

Não houve, aliás, nenhum ano em que viesse a Portugal e que não se deslocasse ao local, mas os regressos têm diminuído. Aos 80 anos, está a ficar cansado e já sente o "peso" da viagem, apesar do conforto que representam uma casa e um carro à porta. Diz que gostava quando "tinha mais vontade" e aproveitava os cinco meses que passava em Portugal com a mulher. "Caçava, ia à praia, apanhava azeitona, estava com os amigos, era um tempo bem passado". Esteve em Portugal em 2007, mas este ano já foi o procurador que o representou na reunião de acerto de contas.


Apenas mais um turista...


Mas as grutas de Santo António foram sempre um dos principais motivos do regresso e uma passagem obrigatória durante a estadia em Portugal. Mesmo que nos últimos anos, não tenha encontrado nas «suas» grutas, ninguém que o reconheça. "Nem os funcionários chegam a saber quem eu sou. Já lá tenho ido e eles pensam que é mais um turista qualquer", revela sem mágoa. Gostou sempre de voltar ao local que descobriu há mais de 50 anos, e com cada regresso, surgem as memórias de outras épocas. "E olhe que eu tenho muitas, era preciso muito tempo para as contar", diz com bom humor.

Destaca que os quinze anos a trabalhar nas grutas "foram qualquer coisa de especial", mas não se arrepende da decisão de emigrar. Afirma mesmo que foi a atitude acertada. "Foi um descanso, vim para aqui, comecei a trabalhar por conta de outra pessoa e tive outra vida. Já estava quase a ficar maluco com aquilo", confessa, explicando que ao trabalho de guia, acrescia a responsabilidade por todo o movimento de público e pela prestação de contas. "Eu não tinha horas para comer, não descansava tempo nenhum". Foi apenas quando chegou ao Canadá que tomou consciência do que estava a perder se continuasse em Portugal.

Os filhos acompanharam de perto as aventuras de Prudêncio nas Grutas de Santo António. O mais velho chegou mesmo a ajudar o pai, como guia e a ligação ao negócio levou-o a comprar a parte de um dos herdeiros dos restantes sócios. O mais novo, que entretanto regressou ao Canadá, representava o pai nas reuniões durante o tempo em que viveu em Portugal.

Prudêncio Carreira não consegue eleger um lugar das grutas que considere especial. Diz que gosta de tudo e afirma categórico que não havia nem há ninguém "que faça uma ideia do que aquilo é sem lá ir". "Podem ver fotografias, mas só entrando nas grutas é que se percebe a beleza do lugar".

Mas o que o mais impressiona são mesmo as estalagmites, sabe que a maior tem 4,80 metros de altura - "só lhe falta cerca de 1,5 centímetros para se ligar ao tecto" - e diz que algumas "parecem velas de cera" com 2, 3 metros de altura e "dos mais variados feitios". Não esconde o orgulho pela descoberta e afirma mesmo que o seu «caso» é único. "Conforme descobri, partilhei e vivi. E continuo a partilhar, enquanto estiver vivo".

A.G.P.

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