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RegionalUm olhar sobre a cidade do PortoTerça-Feira, 15 Maio de 2007
"Quem vêm atravessa o rio, junto à Serra do Pilar/ vê um enorme casario que se estende até ao mar" é a letra da canção do cantor portuense Rui Veloso. De verdade o visitante vindo do sul, ao atravessar o Rio Douro, fica contagiado por esta cidade "mui nobre e sempre leal e invicta cidade do Porto". Ao longo de algumas edições o nosso olhar vai-se debruçar sobre o Porto e o Douro que pode acompanhar nesta viagem guiada e quem sabe numa futura visita a tão bela e importante região, já que o Encontro Internacional de Turismo (EIT) promovido pelo nosso jornal vai ter lugar nos dias 1-2-3 de Outubro e elegeu o Porto e a região do Douro para a visita... A conquista de Portucale em 868 por Vímara Peres, guerreiro de Afonso III, de Leão, é aqui considerada, com razão, acontecimento da mais antiga História do Porto. A povoação de Portucale in Castro novo era desde a segunda metade do séc. VI, desde os tempos dos Suevos, sede da Diocese Portugalense, mas a partir de 868 a sua importância aumenta: torna-se o centro do movimento de reconquista e de aglutinação das terras circundantes, as quais por tal facto em meados do séc. X passam a constituir a província portugalensis, a cujos habitantes logo se dá o nome de portugalenses, e entre os quais começam a surgir as primeiras e vagas manifestações de sentimento nacional. Portucale, foi, por isso, na verdade, quem deu nome e origem à Nação Portuguesa! Em 1120, a Rainha D. Tareja viúva do conde D. Henrique, doa ao Bispo D. Hugo e os seus sucessores o pequeno Burgo do Porto e um Couto a que o Bispo dá Foral em 1123, e cujos limites D. Afonso Henrique mais tarde confirmou e ampliou. Em 1147 entraram no Douro os Cruzados nórdicos que faziam parte da Segunda Cruzada à Terra Santa e é o Bispo do Porto D. Pedro Pitões quem lhes prega no Crasto de Portucale, no alto do monte, em frente da Sé, um eloquente sermão, exortando-os a irem auxiliar D. Afonso Henrique na conquista de Lisboa; depois o Bispo Portugalense acompanha a armada e toma parte na bélica empresa. Caída em poder dos Cristãos a formosa Princesa do Tejo, entrou o Porto rapidamente a desenvolver-se. Cresce em população e importância económica, e os burgueses envolvem-se em questões e em lutas com os seus Bispos, aos quais, aliás, o Burgo devia, mas de cuja subordinação temporal os revoltosos anseavam libertar-se. Não raro o Rei serviu de medianeiro entre as partes desavindas, sendo D. João I quem, ao cabo de dois séculos, faz terminar essas contendas, consentindo em comprar aos Bispos do Porto o direito à jurisdição temporal que estes diziam ter sobre o Burgo e respectivo coutos. Ao mesmo Mestre de Avis, porque se apresentava como Regedor e Defensor de Portugal contra os Castelhanos, o Porto prestara tais serviços na crise de 1383-1385, que dele recebeu o título de MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE. Segue-se o Ciclo das Conquistas e Descobrimentos Ultramarinos. Da mesma forma que do norte do país tinham saído os guerreiros que conquistaram o sul aos Mouros, também do Norte, onde nasceu o portuense Infante D. Henrique e tantos navegadores, partiu um decisivo impulso para as grandes navegações marítimas; o Porto, no séc. XV, era uma das cidades onde mais navios se fabricavam e donde mais marinheiros saíram. Mas nem só o comércio e as navegações interessavam aos burgueses do Porto. Também entre eles houve muitos e excelentes cultores das Belas-Artes que honraram a cultura nacional, desde, segundo é fama, o Vasco de Lobeira, do Amadis de Gaula, até aos poetas do Cancioneiro de Garcia de Resende como Diogo Brandão e Fernão Brandão, ou ao celebrado Pero Vaz de Caminha, autor insigne da Carta do Achamento do Brasil, mundialmente conhecida e admirada. Quando, após o cativeiro filipino, Portugal recupera a independência, o Porto assume entusiasticamente um papel de relevo nas lutas da Restauração e sustenta à sua custa um Terço de Tropas. Pela Pátria, o Porto solta em 1808 o grupo de revolta contra Junot e sofre em 1809 todo o peso da invasão de Soult, bem como as suas trágicas consequências. Nem tudo são guerras na História do Porto
Na segunda metade do séc. XVIII a Cidade, que se enriquecera extraordinariamente, cresceu, monumentalizou-se, modernizou-se graças aos Almadas: e no séc. XIX o Porto deu à Nação poetas como Garrett e criou escultores da grandeza de Soares dos Reis. É claro que na base de todas as acções colectivas dum povo está o próprio povo: a gente obscura, cujos nomes não ficaram na história, mas que trabalhou, sofreu e se sacrificou, que deu a sua fazenda, as suas forças e a sua vida para que as pátrias fossem gloriosas e grandes. Não o esqueceu Guilherme Camarinha, nas tapeçarias da Câmara Municipal do Porto, pois colocou em lugar de relevo na base da sua assombrosa composição os lavradores, os mesteirais, os carpinteiros, os petintais, os carniceiros, a trabalhar na preparação da armada que da Ribeira do Douro no ano de 1415 partiu para Ceuta sob o comando do Infante D. Henrique. O povo do Porto, entre cujas qualidades avulta a de um profundo sentimento de civismo, deu quanto tinha para o aparelhamento e abastecimento desses navios; generosa e patrioticamente os portuenses cederam toda a carne das rezes, e porque, para sua alimentação, só ficaram com as vísceras desses animais, ganharam um epíteto que é o seu mais lídimo título de orgulho:
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