Quarta-Feira, 17 Março 2010 - 07:53 (Açores 06:53)
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Maria Tereza Heimans: Condecorada na Holanda pelo apoio aos imigrantes
Maria Tereza Heimans Magno ficou praticamente «até ao último minuto» sem saber que iria ser condecorada. Diz que não se recordava do facto do seu nome ter sido proposto para uma condecoração, já que a proposta tinha sido feita há um ano atrás - o tempo que a comissão de avaliação levou a “confirmar” o seu vasto curriculum. “Já nem me lembrava mais”, afirmou categórica na entrevista a O Emigrante/Mundo Português, explicando que soube que ia receber a condecoração, na véspera desta ser entregue. “Recebi uma carta a dizer que teria que estar em Haia, impreterivelmente às 10 horas da manhã, e que não poderia faltar, de maneira nenhuma. Não me disseram do que se tratava, e só soube quando lá cheguei. Nem sabia se era uma condecoração, de que tipo, se era um diploma, não sabia de nada”, recorda. A surpresa foi “grande e boa”, mas a professora de língua portuguesa que vive na Holanda há mais de três décadas, assumiu que a condecoração “era dada mais à comunidade imigrante” do que a si própria. “Uma temporada” prolongada... O percurso de emigrante de Maria Tereza Heimans Magno na Holanda começou nos anos 70, quando decidiu concorrer a uma das vagas para leccionar língua e cultura portuguesa no estrangeiro. Holanda foi a última das suas cinco opções, mas foi naquele país que acabou por ser colocada. Foi apenas “para ficar uma temporada”, e por isso, decidiu deixar os dois filhos mais novos em Portugal, com familiares. Com Maria Tereza, foram os três filhos mais velhos, tinham na altura, 14, 13 e 12 anos. “Vim completamente à deriva, não sabia o que ia encontrar”, recorda. Os mais novos só chegaram à Holanda depois da mãe ter já uma vida profissional mais estável. Depois, aconteceu-lhe o que ocorre maioritariamente com os emigrantes portugueses. “Fui ficando, os meus filhos foram crescendo, comecei a ver que aqui tinha mais possibilidades do que em Portugal, mesmo na questão de educação, de cursos para eles. E cá estou ainda”. Entretanto a família aumentou. Casou com um holandês, teve mais dois filhos e, apesar da maioria “já ter saído de casa”, as reuniões familiares continuam a ser «concorridas». “Quase não precisamos de mais ninguém, com os filhos, noras, genros e netos - que são já 12 - faz-se a festa”, diz a rir. Maria Tereza fez questão de ensinar o português aos mais novos e de não permitir que os mais velhos a esquecessem. Diz, com certo orgulho que em casa, “sempre se falou português”. “Mesmo depois de me ter casado, estipulamos que o meu marido falava com os dois mais pequenos em holandês e eu falava em português”, explica, acrescentando que deu aos filhos, aquilo que achava ser sua obrigação: a língua materna. “Daí para a frente seriam eles próprios a decidir”, revela sublinhando que até hoje, todos “falam, lêem e escrevem correctamente o português”. A língua portuguesa foi afinal, o motivo da sua permanência na Holanda. Maria Tereza leccionou em Amesterdão e numa localidade próxima daquela cidade, sempre a filhos de portugueses. Hoje em dia, os alunos são outros. Já não lecciona nas salas de aula, mas ainda está disponível para ensinar o português, a título particular. Os alunos, agora são outros - holandeses que vão para Portugal, para o Brasil ou para países africanos de língua portuguesa para trabalhar e até alguns que vão apenas de férias e que querem partir “já como umas noções de português”. Mas ontem como hoje, a professora Maria Tereza continua convicta de que é essencial ensinar a língua materna aos filhos e netos dos portugueses que residem no estrangeiro. “Nunca sabemos o dia de amanhã e não podemos de maneira nenhuma estar a tirar às crianças o seu «eu». Não sabemos se o seu futuro será a Holanda ou Portugal. Tenho visto muitas crianças e jovens um bocado divididos e os meus são exemplo disso. Em relação aos dois mais novos, que têm pai holandês, uma é «cem por cento» holandesa, mas o outro tem nitidamente a maneira de pensar portuguesa. Portanto, nós não temos o direito de lhes cortar as suas raízes”, afirma. E para reforçar a sua opinião, diz que ainda há muitos filhos de emigrantes interessados em aprender o português, agora como segunda língua. “São filhos já da segunda geração que dominam muito bem o holandês, têm mães ou pais portugueses e o português já se tornou uma segunda língua. Mas continua a haver muita vontade para as crianças irem para as escolas e, inclusivamente, depois de fazerem o básico, seguirem para o secundário”, destaca. Trabalho na comunidade Maria Tereza é conhecida também pelo que desenvolve na Holanda não apenas junto da comunidade portuguesa, mas também de outras comunidades estrangeiras residentes naquele país, nomeadamente, no âmbito da integração, ensino e apoio a mulheres. Presidente da Federação da Comunidade Portuguesa na Holanda e do núcleo holandês da «Associação Mulher Migrante», Maria Tereza tem dedicado grande parte da sua vida naquele país ao trabalho junto dos estrangeiros, num percurso que a fez aperceber-se desde cedo das dificuldades e problemas que enfrentam os imigrantes, principalmente, os portugueses. A professora e dirigente traça o perfil da comunidade portuguesa, calculando-a – com base nas estatísticas holandesas - em cerca de 23 mil pessoas, mais oito mil do que os inscritos no consulado. Um número final que, sublinha, tem vindo a aumentar. “Não há apenas os que vêm para o trabalho temporário, há ainda aqueles que vêm para ficar, à procura de novos horizontes, e os estudantes do Projecto Erasmus”, explica. Fazem todos parte de uma comunidade que apresenta “múltiplas dificuldades”, como refere. Ao problema das baixas reformas, junta-se o do desconhecimento da língua, da exploração de que ainda são alvo alguns trabalhadores temporários e do ensino do português. Órgão de cúpula das associações e dos grupos de portugueses na Holanda, a FCPH acolhe os mais diversos casos e pedidos. “Há casos sociais, laborais, familiares, jurídicos, há de tudo. Desde mulheres com medo porque foram alvo de maus-tratos dos maridos; casos de abusos de trabalho; pais cujos filhos não estão a ter o rendimento esperado nos estudos e nos pedem para irmos às escolas; senhoras que querem ir ao médico e não o fazem por não falam a língua e não sabem que têm direito a ter um tradutor ao pé delas; pessoas que estão em processo de divórcio, têm que fazer as partilhas e não sabem o que hão-de fazer porque não percebem os advogados holandeses e não sabem que têm direito a um tradutor”, revela. Problemas que continuam a bater à porta da FCPH e que os seis voluntários que ali trabalham (onde Maria Tereza se inclui) tentam minorar, orientando quem pede ajuda, na medida do possível, já que a Federação não dispõe de meios financeiros para muito mais. E foi o trabalho e longo tempo que dedicou a apoiar as comunidades imigrantes na Holanda, que esteve na génese da atribuição da comenda. Durante 13 anos, Maria Tereza foi dirigente do LIZE, um organismo de consulta do governo holandês, para as políticas dos estrangeiros. Diz que foi a condecoração foi-lhe entregue pelo trabalho que ali realizou. “Estive lá 13 anos e, defendendo a minha comunidade, defendia também as outras, porque, ao fim e ao cabo, os problemas são iguais para todos. Uns estão em maior número, outros em menor, mas o que é certo é que os problemas são comuns”, defende. Ter recebido a comenda no dia 25 de Abril foi um acaso, um feliz acaso. A cerimónia teria que decorrer, obrigatoriamente, antes de 30 de Abril - o Dia da Rainha. A 24 e 25 daquele mês, as condecorações foram atribuídas em todas as câmaras da Holanda: a de Maria Tereza foi agendada para o Dia da revolução dos Cravos. “Até estava preparada para ir às comemorações de uma associação e depois acabei por não ir. Pensei que por ser de manhã e as comemorações serem normalmente à tarde, teria tempo de ir á associação, mas não foi possível”, recorda, dando à comenda que recebeu, uma importância discreta, apesar de ter sido até hoje, o único elemento da comunidade portuguesa naquele país a recebê-la. “Sei que é uma das mais importantes distinções atribuídas na Holanda, até porque o presidente desta ordem é, precisamente, a rainha”, revela para acrescentar que a recebeu como se fosse “a mão da comunidade”. “Se não tivesse estado sempre presente em nome da comunidade portuguesa, nunca teria recebido coisa nenhuma. Portanto, achei que aquela condecoração era atribuída por ter trabalhado em nome da comunidade”, justifica. A comenda é, para Maria Tereza, mais um acontecimento numa vida que tem sido “cheia”: como professora, como mãe de sete filhos, mas sobretudo, como faz questão de sublinhar, por “ter sido útil, na minha passagem por esta vida”. Dediquei-me aos meus filhos, ao meu marido e aos meus compatriotas. Portanto, a vida para mim, tem sido preenchida”, destaca ainda. “Quando vim para cá foi para trabalhar para a comunidade portuguesa, dei aulas durante uma série de anos. Depois parei, mas continuo ligada à comunidade. Foi para isso que vim para esta terra, onde só vejo o sol durante um mês por ano”... A.G.P. |
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