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ComunidadesEUA: Os heróis açorianos do faroesteTerça-Feira, 22 Julho de 2008
Mais de século e meio depois, as histórias destes e de outros pioneiros - maioritariamente nascidos no arquipélago dos Açores - foram reunidas numa obra que pretende registar e homenagear homens (e também algumas mulheres) inovadores e destemidos que se destacaram numa região dos Estados Unidos em tudo diferente da terra onde nasceram e à qual, muitos, nunca mais voltaram. O livro «Os Portugueses no Faroeste - Terra a perder de vista», de Donald Warrin e Geoffrey Gomer, acaba de ser lançado em Portugal, e fala de portugueses que ultrapassaram os seus limites e obtiveram resultados surpreendentes em áreas que nada tinham a ver com as tradicionais actividades que muitos exerciam em Portugal, como a exploração de ouro, o comércio de peles, a exploração mineira, a construção civil ou a criação de grande número de cabeças de gado e de ovinos. “Espantaram-me. Foram inovadores, valentes, individualistas, homens de destaque a nível unitário, estadual e regional. Era gente esperta e destemida, e é-me muito difícil resumir as suas características em algumas palavras”, revelou o historiador americano Donald Warrin a O Emigrante/Mundo Português. Dez anos de investigações O livro resulta de uma investigação extensiva e rigorosa, e reúne 50 fotografias e biografias pormenorizadas de figuras de destaque e de outras menos famosas, mas igualmente importantes. Os historiadores Donald Warrin e Geoffrey Gomes começam por oferecer um panorama geral da história de Portugal, com destaque para a emigração e o papel de relevo desempenhado pela caça à baleia, na ida de portugueses para a Nova Inglaterra e mais tarde para a Califórnia. Explicam ainda as condições geográficas, sociais e históricas encontradas por esses colonos portugueses numa determinada região, para depois contarem as muitas e bem sucedidas histórias de que foram protagonistas. Donald Warrin explica que foram precisos dez anos para concluir a obra, porque as investigações eram realizadas nos tempos livres. “O Geoffrey não viajava, gostava de ficar nos arquivos. Eu, sempre que tinha possibilidades, durante os verões quando não leccionava, passava semanas a viajar pela grande expansão do oeste americano, em estados como o Novo México e Wyoming, a descobrir comunidades de interesse e informações escondidas em arquivos”, recordou. A história da parceria entre os dois historiadores - um americano sem raízes portuguesas e um luso-descendente - surgiu numa conversa informa. “Moro na área da baía de São Francisco, estou a par da presença portuguesa por aqui e nos estados vizinhos e interessei-me pelo assunto”, começa por explicar. Professor de Literatura Portuguesa e Brasileira durante muitos anos, Donald Warrin começou a interessar-se pela comunidade açoriana que reside na Califórnia e a escrever artigos sobre a literatura produzida por membros dessa comunidade. Não foi preciso muito tempo para começar a escrever sobre a história da sua emigração… Em 1986, publicou duas colectâneas de poesia de açorianos radicados na Califórnia. Ao investigar em jornais em língua portuguesa naquele estado, acabou por descobrir tantos autores, que decidiu publicar, juntamente com o professor Eduardo Bayonne Dias, da Universidade da Califórnia, um livro intitulado «Cem Anos de Poesia Portuguesa na Califórnia». Um dos retratados era Alfred Lewis, natural da Ilha das Flores, autor de livros de poesia. “Foi na altura do lançamento de um livro de Alfred Lewis, em Angra do Heroísmo, que alguém se aproximou de mim, disse-me que tinha sido nomeado sócio correspondente do Instituto Histórico da Ilha Terceira e pediu-me para voltar no ano seguinte para fazer uma comunicação. Aceitei e disse que iria falar sobre os portugueses nos estados de Nevada e Oregon”, recorda. Entretanto, o trabalho de investigação levou-o a descobrir “tantas histórias interessantes” em Nevada, que o trabalho incidiu apenas em histórias de portugueses naquele estado. “Fiz várias viagens e entrevistas, publiquei alguns artigos e depois continuei por Oregon. Ficava cada vez mais surpreendido com as minhas descobertas”, sublinha. Foi nessa altura que, ao conversar com o amigo Geoffrey Gomes, soube que o historiador luso-descendente tinha «descoberto» dois portugueses - Peter Joseph e António Monteiro - negociantes de peles no interior do Faroeste e ainda Manuel Brazil, um criador de gado bovino do estado do Novo México e natural da Ilha de São Jorge, que ficou célebre por ter ajudado o xerife Pat Garret a prender o célebre pistoleiro Billy the Kid. “Decidimos então escrever o livro. O Geoffrey escreveu sobre esses homens e eu escrevi o resto do livro, mas ele ajudou-me a editá-lo”. Comunidades longínquas… «Os Portugueses no Faroeste» reúne histórias que percorrem um período de cem anos, entre 1830 até 1930, desde a chegada dos primeiros pioneiros até ao declínio da emigração portuguesa em estados do interior, como o Wyoming, Novo México ou Oregon. Mais tarde, foi a Califórnia a atrair a emigração portuguesa, proveniente principalmente dos Açores. “Não chegaram muitos açorianos depois da corrida ao ouro, a grande emigração de portugueses para o Faroeste foi por volta de 1880”, revela o historiador que percorreu muitas pequenas cidades do interior desses estados para descobrir histórias, muitas delas em locais onde, a princípio, não acreditava que as pudesse encontrar. Das viagens - que afirma ter sido a parte do trabalho que mais lhe agradou – recorda a passagem por uma pequena cidade no estado do Wyoming. “Entrei na biblioteca, expliquei que andava à procura de histórias da presença portuguesa. E a senhora surpreendeu-me ao dizer que tinham uma colectânea de informações. Mostraram-me vários documentos relacionados com a antiga presença de açorianos na região. Telefonei ao Geoffrey quase imediatamente a dizer-lhe que ali, tão longe, conheciam bem os portugueses. Foi uma surpresa”, contou. A cidade em questão, chama-se «Buffalo». Donald Warrin não tem dúvidas de que as viagens “foram enriquecedoras” e sublinha que, do que mais gostou ao longo dos dez anos de pesquisa, foi ter podido travar conhecimento “com muitos indivíduos, famílias e comunidades ligadas aos portugueses”. E perceber que estes preservam com orgulho as histórias dos seus antepassados. “Recolhi muitas histórias orais e percebi que a memória desses pioneiros mantém-se muito «viva» nos seus descendentes”, afirmou, recordando a surpresa que teve, mais do que uma vez, ao chegar a uma cidade para entrevistar uma ou duas pessoas, “geralmente muito idosas”, e encontrar metade da comunidade reunida a assistir à entrevista. “Têm realmente muito orgulho do seu passado, às vezes as suas recordações não estavam cem por cento de acordo com os documentos, mas de modo geral, ajudaram-me a dar um toque mais vital à obra e a dar-me ideias para prosseguir na investigação”. Histórias comoventes Donald Warrin tem uma profunda admiração por todos os «seus» pioneiros, mas diz que há biografias mais comoventes que outras. “Há várias histórias interessantes, mas a que mais interesse me criou foi a de Joe Enos, que era uma figura lendária no estado de Washington, e até mais ainda depois da sua morte”, revela (ver página 4). A morte deste pioneiro levou à realização de dois processos judiciais. Natural da Ilha de São Jorge, deixou uma grande fortuna que acabou por ser disputada pelos irmãos e pela mulher com quem tinha casado, nos Açores. “Os irmãos contestaram o testamento e depois apareceu uma índia no tribunal que dizia ter casado com ele muitos anos antes e afirmava que merecia o dinheiro. O julgamento gerou muito interesse na altura, em 1912”, conta o historiador. Apesar dos portugueses no Faroeste terem sido poucos, se comparados com emigrantes de outras nacionalidades, acabaram admirados, até hoje, como homens destemidos. Verdadeiros pioneiros. “Por causa da sua experiência em barcos baleeiros - atravessaram o oceano e viveram os perigos do mar - eram muito valentes, atreveram-se a entrar nas terras dos índios, no Novo México, no Wyoming, e não tinham receio. Algo que os outros não faziam, não se atreviam a ir”, sublinha o autor, acrescentando que por terem tido experiências no mar, estes açorianos “tornaram-se mais valentes do que o comum cowboy”. “E muitos deles nunca mais viram o mar”, conclui. Novo projecto Terminado este projecto, Donald Warrin já está envolvido noutro, ligado ao Regional Oral History Office (ROHO) da Universidade da Califórnia, em Berkeley, organismo do qual é director associado. Que não sabe, aliás, quando estará concluído e que passa pela recolha oral de histórias de actuais emigrantes, maioritariamente açorianos, na Califórnia. Iniciou as entrevistas em 2002, já reuniu cerca de 12 histórias e percursos de vida de vida mas este é um trabalho que prossegue “lentamente”. “Com mais fundos, haveria mais entrevistas”, lamenta. Entretanto, algumas delas já podem ser conhecidas. “Apareceram primeiro em formato impresso, mas também já estão na Internet. Temos um site e lá estão fotografias e um texto sobre cada indivíduo (http://bancroft.berkeley.edu/ROHO/)”. Donald Warrin quer agora preservar as histórias de vida dos emigrantes portugueses radicados na Califórnia ao longo de muitos anos. “Interessam os indivíduos estabelecidos em vários aspectos da comunidade, pessoas de mais idade, é preciso capturar a sua história antes de eles desaparecerem”, explica. Para já, não tem a intenção de reunir estas recolha num livro. Até porque, neste momento, tem outra obra em mãos: um livro sobre a presença dos portugueses - principalmente açorianos - e também dos cabo-verdianos, na indústria baleeira dos Estados Unidos. Vai relatar a história da presença portuguesa desde o século XVIII até ao século XX na indústria baleeira americana, porque nos últimos anos dessa indústria foram os portugueses que a dominaram. “Esse foi o motivo da vinda dos portugueses para os Estados Unidos, primeiramente. Aquando da descoberta do ouro na Califórnia, encontravam-se já nos barcos baleeiros. «Abalaram», fixaram-se na Califórnia e atraíram mais gente de Portugal”. Donald Warrin "Lisboa é a minha cidade favorita" Natural de Nova Jersey, Donald Warrin, formou-se em Literatura de Língua Inglesa, na Califórnia. Depois de terminar o curso, aventurou-se pela Europa durante quase um ano. Em Portugal, passou 15 dias, mais foi o suficiente para mudar a sua carreira. Corria o ano de 1960 e o país que descobriu, impressionou-o. “Foi muito interessante, na altura Portugal era mais rico que Espanha, e fiquei impressionado com Lisboa. De Coimbra guarda um dos melhores momentos da estadia em Portugal. Donald Warrin sabia que naquela cidade universitária iria encontrar «Repúblicas» de estudantes e que seria possível ficar lá. “Era verdade”, recorda, “mas estavam repletas”. “Bati à porta, e é claro que não havia vagas. Mas fui recebido por um grupo de estudantes surpreendidos, mas muito amáveis: houve alguém que me «deu» a sua cama e abrigaram-me”, conta ainda. No dia seguinte os mesmos estudantes levaram-no a um restaurante “onde o professor costumava almoçar com os alunos” e o «amigo» americano viveu em Coimbra (poucos) dias memoráveis. “Não estive muito tempo em Portugal, mas no regresso decidi ter aulas de português e apercebi-me que gostava mais da literatura luso-brasileira do que da minha”, explica. Em 1967 concluiu o mestrado em português e em 1973 o doutoramento, ambos na Universidade de Nova Iorque. Passou muitos anos a leccionar Língua e Literatura Portuguesa na Universidade da Califórnia, em Hayward. Mas, aos poucos, passou a interessava-se cada vez mais pela história da emigração portuguesa. “Gosto de me relacionar mais com o ambiente em que estou, e fazer investigações em Portugal ou no Brasil não me interessava tanto como investigar, por exemplo, sobre poesia portuguesa produzida na Califórnia”, destaca para revelar que, por estar a esgotar esse tema e pelo facto de conhecer cada vez mais e melhor “essa gente” portuguesa, interessou-se “cada vez mais pela sua história”. Daí ao livro, foi um passo… O professor perdeu a conta à quantidade de vezes que veio a Portugal, mas o primeiro «regresso» levou algum tempo. Foi em Junho de 1974, e pode «viver» a agitação do pós-25 de Abril. Encontrou, definitivamente, um país diferente, e em «ebulição». “Foi interessantíssimo, fiquei por aí durante todo o Verão”, recorda. Desde então, tenho regressado a Portugal “de dois em dois ou de três em três anos”, principalmente aos Açores. “Já perdi a conta ao número de vezes em que estive nos Açores”, brinca, mas faz questão de dizer que também já visitou “duas ou três vezes” a Madeira, e que vem sempre a Lisboa. “É a minha cidade favorita”, revela. Uma história... JOHN «PORTUGEE» PHILLIPS - O herói da fronteira do Wyoming Manuel Filipe Cardoso, que nos Estados Unidos «transformou-se» em John Phillips, era também conhecido pela alcunha de «Portuguese Phillips» (de acordo com a oralidade da época era «Portugee Phillips»). Nasceu no lugar de Terras, Lajes do Pico, a 28 de Abril de 1832, mas sabe-se pouco da sua vida nos Açores, à excepção de que era o quarto filho de Filipe e Maria de Jesus Cardoso. Por volta dos 18 anos, empregou-se num barco baleeiro e viajou para a América, à procura de ouro. Era um homem baixinho e de estrutura mediana, mas conhecido pela sua impulsividade, pelo seu temperamento e pelo seu voluntarismo. Andou anos pelos territórios hoje pertencentes aos estados da Califórnia, do Oregon, do Idaho e do Montana, na companhia de míticos prospectores de ouro e acabou por ser contratado pelo exército. Já rebaptizado como John Phillips realizou um único grande feito na vida, mas foi o suficiente para ser lembrado nos Estados Unidos, até aos dias de hoje. A 21 de Dezembro de 1866, um grupo de noventa soldados da União estava cercado por mais de dois mil índios Sioux, Cheyenne e Arapahos que se haviam recusado a assinar um tratado de paz proposto pelo general Patrick Connor. Foi John Phillips, português das Lajes do Pico (Açores), um simples guia ao serviço do exército sedeado no recém-estabelecido Fort Phil Kearny, no então Território do Dakota, quem se ofereceu para ir buscar ajuda. Nessa altura já haviam morrido 79 soldados e dois civis, numa batalha que ficou conhecida como uma das mais vitoriosas campanhas índias – e a que então se deu o nome de Massacre de Fetterman (actualmente «Batalha de Fetterman»). Ainda hoje não é possível separar a realidade do mito. Mas, de noite, sob um forte nevão e perante temperaturas abaixo de zero, Phillips terá cavalgado na companhia de Daniel Dixon cerca de 190 milhas (300 quilómetros) ao longo do Trilho de Bozeman até Horseshoe Station, aí chegando na manhã de Natal. Expediu um telegrama para Fort Laramie, em Horse Creek (Wyoming), a pedir ajuda, descansou algumas horas e dirigiu-se ele próprio para o forte, ao longo de mais 40 milhas (65 quilómetros), para certificar-se que era enviado socorro para o Fort Phil Kearny. Com isso, salvou a vida de mais de 90 pessoas. O seu cavalo, hoje mítico, chamava-se Dandy. Phillips morreria de nefrite em 1883, com apenas 51 anos, e desde o acto heróico até ao dia da sua morte não recebeu mais de 300 dólares pelo feito: o pagamento pelo trabalho de guia. Em 1899, 16 anos após a sua morte, os herdeiros receberam mais cinco mil dólares, a título de recompensa. Entre 1866 e 1883, a vida de John Phillips foi banal: primeiro uma empresa de correio e transporte, depois um rancho, mais tarde um hotel modesto. Mas em 1872, quando visitava Milwakee, o guia português foi chamado pelo general Ulysses Grant para cima do coche em que este desfilava na qualidade de (re)candidato à presidência americana. Nos anos 60 do século passado, a empresa de cereais «Kellog’s» deu-lhe um espaço de destaque numa caixa de cereais, a meio de uma série dedicada aos doze maiores pioneiros do faroeste americano («Men Of The Wild West»), entre os quais Daniel Boone, Kit Carson, Buffalo Bill Cody ou Pat Garrett. A.G.P. |
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