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Comunidades"Com esta crise só nos resta emigrar"Terça-Feira, 18 Novembro de 2008
Na cidade de Olhão, sentem-se os efeitos da crise e do desemprego. Antigamente a indústria das conservas com várias fábricas dava emprego a muitos trabalhadores, hoje restam duas unidades em laboração. A agravar a falta de trabalho, já que o turismo não consegue empregar toda a gente, uma das importantes indústrias sediadas no centro de Olhão que produzia rações para animais encerrou no dia 6 de Novembro e mandou para o desemprego 180 trabalhadores.À porta da fábrica Bela Olhão os trabalhadores olham para o edifício com lágrimas nos olhos e lamentam a sua sorte. “Foi a prenda de Natal antecipada” dizem-nos e olham para o futuro, para região e para a crise que está por todo o lado e só pensam em emigrar, como aconteceu nos anos 60 a 70 quando outros olhanenses rumaram para fora do país. Os ciclos repetem-se ou ameaçam repetir-se. Ali homens e mulheres que agora desesperam à porta da fábrica, em piquetes, dia e noite, para que as máquinas não sejam levadas dali, e ao menos lhes seja pago o que lhes devem. «O Emigrante/Mundo Português» assistiu ao drama destes trabalhadores, que ainda jovens, com família, alguns marido e mulher ali a trabalhar, não sabem o que fazer no futuro. Verónica Fernandes aceitou falar ao nosso jornal “com a actual crise que por aqui está, com a falta de trabalho, só nos resta emigrar, para conseguir trabalho. O que é que vai ser de nós! Esta fábrica era moderna, foi inaugurada em 1996 e produziamos comida húmida para animais de estimação, a partir de derivados de peixe. Sem contarmos com isto de um dia para o outro fomos todos dispensados, ou seja mandados para casa”. O sindicato que representa os 180 funcionários da fábrica que encerrou em Olhão invoca ilicitude do despedimento e encerramento da unidade de produção, conforme referem algumas trabalhadoras. Mas não acreditam “ os sindicatos querem é dinheiro e nós é que estamos aqui dia e noite de vigília à fábrica, pois se tirarem daqui as máquinas acaba-se a esperança de recebermos o que nos é devido” refere Matilde Fonseca de 45 anos e que estava ali a trabalhar desde o primeiro dia. Para esta trabalhadora emigrar não era a melhor solução já que tem dois filhos na escola do primeiro ciclo “Há muita gente a emigrar, para Espanha, para trabalhos na agricultura e para França e alguns para a Alemanha, já que somos gente que não baixa os braços e todos os dias temos que comer, mas isto está tudo muito difícil” refere. De acordo com a legislação laboral, a empresa teria que ter informado oficialmente os trabalhadores da sua intenção de pedir insolvência e de extinguir os postos de trabalho com 60 dias de antecedência, o que não aconteceu. “O sindicato desaconselhou-nos a assinar qualquer acordo, mas temos que requerer a atribuição do subsídio de desemprego no centro de Emprego de Olhão” refere Rosa Duarte já que, os trabalhadores já foram divididos em dois grupos para se poderem dirigir aos três balcões de atendimento disponibilizados apenas para este caso. O formulário entregue pela administração da empresa aos trabalhadores para poderem aceder ao Fundo de Desemprego está a suscitar dúvidas a Josué Marques, delegado sindical que receia que o motivo assinalado não resulte na atribuição do subsídio de desemprego. “O motivo invocado para receber o subsídio é ‘morte do empregador’ ou ‘extinção ou encerramento da empresa’, mas como ainda não foi decretada insolvência, não sei se o pedido vai ser deferido”, afirmou. A Bela Olhão foi uma das fábricas de conservas de peixe a laborar até ao século XXI. Foi adquirida em 1996 por um empresário árabe através da Entente Limited que pretendia apostar na produção de conservas de peixe “gourmet”, nomeadamente de sardinha com pele e sem espinha. As dificuldades de escoamento encontradas em mercados como o norte-americano acabaram por levar à decisão de, nos últimos cinco anos, reconverter a fábrica para a produção de comida para animais. Este encerramento já é considerado no concelho como um “rombo social” já que nos Centros de Emprego estão inscritas 1305 pessoas a que se juntam mais estas 180. O concelho tem 12.000 habitantes pelo que a taxa de desemprego ronda os 10%. O turismo nesta região algarvia não tem grande expressão nem é um grande empregador e tem a agravante da sazonalidade. Por isso com o declínio das pescas e dos empregos colaterais associados, os trabalhadores em idade activa tenham que se aventurar noutros países, na procura do seu sustento. Depois do desemprego no Norte do país e na mesma semana a chegar as minas alentejanas de Aljustrel e Neves Corvo, o desemprego bate à porta, na região turística por excelência do Algarve, onde antigamente não havia mão de obra para tanto trabalho. Câmara negoceia comprador Por sua vez a Câmara de Olhão, numa tentativa de manter os postos de trabalho e não ver a sua população activa no desemprego ou a partir, reuniu-se com o Ministério da Economia para encontrar um novo operador para a fábrica de comida para animais . O autarca olhanense, Francisco Leal, refere “é um drama social, mas temos que olhar em frente e é por isso que já iniciamos contactos com o Ministério da Economia para, em primeira instância, se encontrar uma empresa do mesmo ramo para reactivar a fábrica”. Se a Câmara e o Governo não encontrarem operadores do mesmo ramo, o autarca admite poder vir a promover a reconversão das instalações fabris. “Não podemos pôr de lado essa hipótese, mas seria uma pena pois é uma fábrica com tecnologia muito actual”. A.F. |
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