Quinta-Feira, 18 Março 2010 - 05:29 (Açores 04:29)
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Mário Lopes: O percurso de sucesso de um português de Ourém
Tinha quase 13 anos quando deixou Olival, no concelho de Ourém e chegou a França, em 1976, para se reunir ao pai. As noções de francês, que tinha aprendido no colégio, não foram de grande ajuda. “Quando cheguei percebi que afinal não sabia nada, mas depressa aprendi”, recordou ao Mundo Português. Aos 15 anos começou a delinear o seu percurso profissional. Mário Lopes queria ser professor primário, mas as possibilidades financeiras da família não permitiam custear um curso superior. Se o pai esperava que seguisse a sua profissão, pedreiro, a mãe achava que o filho poderia ser cozinheiro. Mário não se via a seguir nenhum desses percursos e acabou a trabalhar como ajudante de um barbeiro amigo do pai. O jovem aprendiz, de 15 anos, descobriu assim a sua vocação. Se havia dúvidas em relação à sua dedicação e vocação por aquela área de trabalho, estas foram dissipadas pelo tempo de que necessitou para concluir a formação profissional: os três anos de estudos foram feitos em um ano, ao fim do qual fez o exame e recebeu o certificado. Seguiu-se outro curso que deveria ter demorado dois anos, mas que o jovem aprendiz de cabeleireiro conclui igualmente em um ano. “Aos 20 anos, abri o meu primeiro salão, nos arredores parisienses. Tinha duas funcionárias quando o comprei e ao fim de dois anos eram 11 a trabalhar. Tive bastante sucesso, funcionava muito bem e comprei depois outro”, revelou. Mas a vontade de ter um espaço seu na capital de França começou a ganhar força, impulsionada pelo apoio das clientes. Há cinco anos atrás, concretizou esse sonho e abriu um salão numa das zonas mais sofisticadas da cidade. Ali, atende desde as clientes mais anónimas a diversas personalidades. Apresentadoras de televisão, artistas, grandes empresários, constam da sua agenda de trabalho, mas Mário Lopes garante que não recebem um tratamento privilegiado em relação às restantes clientes. “Devemos ter a mesma atenção tanto para uns como para outros, tenho clientes, anónimas, que se mantêm fiéis desde o meu primeiro salão e que percorrem uma distância de hora e meia para serem atendidas”, destaca. Se pudesse, mudava o visual da primeira-dama francesa, que reside na rua onde tem o seu salão. O cabeleireiro português gostaria de alterar o estilo clássico do penteado de Carla Bruni, para um corte mais moderno. “Penso que tem um potencial que não está explorado, mas sei que é preciso ter em conta o estatuto que agora tem”, refere para revelar outra personalidade a quem gostaria de dar o seu toque criativo. “Gostaria muito de pentear a Madonna, por ser um ícone que segue sempre a última tendência, acho extraordinária a sua capacidade de mudança”, explica. Prémio em 2006 Em 2006, Mário Lopes foi surpreendido com a sua eleição como o Melhor Cabeleireiro de França. Decidiu arriscar e concorreu à categoria regional, por Paris. Ganhou e viu-se então a passar para o nível seguinte que reuniu todos os vencedores regionais. Acreditava, na altura, ser muito difícil atingir o primeiro lugar e ficou espantado com o resultado. “O júri era composto por jornalistas de moda - como as directoras artísticas da «Elle», «Cosmopolitan» e «Marie Claire» - fotógrafos e criadores de moda, e é um dos concursos mais voltados para a moda, com um júri exigente a quem devíamos fazer entender a nossa inspiração”, conta. Confessa por isso, que o prémio foi mesmo uma surpresa que o deixou feliz, mesmo que, pessoalmente, ache o título um pouco “exagerado”, porque, afirma, “não existe o melhor, há bons e menos bons”. “Mas o título é esse e tenho que o assumir”, sublinha acreditando que a sua vitória deveu-se às “imagens” que os seus cortes e penteados produziram. Criador de tendências O importante prémio que recebeu em 2006 abriu portas na sua vida profissional. De membro associado há mais de 20 anos, Mário Lopes passou, em 2008, a integrar a Direcção Criativa da Haute Coiffure Française. Com cerca de 1500 associados em todo o mundo – pouco mais de cem estão em França – a Associação, que já tem 60 anos, é considerada a de maior prestígio nessa área e dita as tendências da moda para os penteados, a nível mundial. O convite a candidatar-se surgiu na sequência do prémio. “Disseram que eu preenchia os critérios necessários a integrar a direcção, e acabei por ser eleito. É um trabalho que vem na sequência do meu percurso profissional e é muito interessante”, sublinha. Composta por 12 membros, a Direcção Criativa da Haute Coiffure Française decide as tendências dos penteados para as temporadas. “Estamos a definir agora o que vai ser a tendência para a Primavera/Verão e depois iremos lançamos a tendência Outono/Inverno”. Para a definição dos cortes e cores que irão ditar a moda um pouco por todo o mundo, Mário Lopes e os seus colegas de direcção estudam o que vão ditar os principais estilistas. “Começamos a trabalhar sempre com dois anos de antecedência. Pesquisamos que tecidos os grandes costureiros vão encomendar para as colecções e a partir daí começamos a ver as matérias, os tons. As tendências dos penteados estão intimamente ligadas às da moda”, explica, para revelar que as tendências de penteados e tons para a época Primavera/Verão, já estão praticamente decididas. “Definimos sempre versões para cabelos curtos e para compridos. A tendência deste Outono/Inverno foi com linhas mais direitas, mais «duras», mas com cores bastante suaves. Agora, a próxima criação será pela mudança: cortes mais redondos, mas com reflexos mais acentuados, a continuar nos tons claros mas também com o regresso de tons mais vivos”. Tendências que Mário Lopes aplica no seu salão, mas sem deixar de as adaptar ao seu próprio estilo, e ao gosto das clientes, que considera ser, afinal, o mais importante. Diz que deverá ser esse o segredo do seu sucesso. “Uma vez questionaram-me porque as clientes vêm ao meu salão. A resposta pode ser a que me deu uma cliente, que me disse que o corte que faço fica «em movimento» e mantém-se. Todas as minhas colecções têm sempre essa preocupação, leveza e movimento. Além disso, quando recebo uma cliente, a minha primeira preocupação é ouvi-la, esquecer um pouco o que eu penso que deveria ser feito e conversar para compreender a sua personalidade. Analiso o rosto, depois proponho um corte até chegarmos a um acordo quanto à execução do penteado”. São raras as ocasiões em que não acerta na escolha que propõe. Parceria em Portugal Mário Lopes afirma que o prémio e o cargo na Haute Coiffure Française não alteraram o seu dia-a-dia e as suas prioridades. “O meu principal objectivo continua a ser servir a cliente. Quando venho a Portugal, dedico-me ao salão. Faço algumas produções de moda para revistas, mas são trabalhos que vêm alimentar a minha inspiração. Em primeiro lugar está o trabalho no salão”, sublinha. Isto apesar de já ter feito produções de moda para revistas como a «Elle» francesa e a congénere alemã, além de trabalhos para revistas profissionais. O regresso profissional a Portugal poderá ter começado a delinear-se no final do ano passado, fruto de uma parceria proposta pelo proprietário de um dos mais antigos salões de cabeleireiros da capital e um dos primeiros a associar-se à Haute Coiffure Française. Mário aceitou o desafio e, uma vez por mês, desloca-se a Lisboa para dar formação e trazer as tendências parisienses à equipa do Spa Tabot. “Venho como consultor de moda nesta área e tenho a função de colocar a equipa a trabalhar com as novas tendências francesas”, explicou. Ultrapassados as dificuldades iniciais, diz que neste momento a equipa do salão trabalha consigo num espírito de parceria e entreajuda. Lisboa, Londres e Nova Iorque … Mas, por enquanto, não está nos seus plano abrir um salão em Portugal, apesar de este ser um projecto que gostaria de concretizar a longo prazo. Londres e Nova Iorque são outras cidades aonde se imagina a levar as suas criações. Um sonho por enquanto difícil de concretizar, não apenas em termos financeiros mas também por uma questão de disponibilidade. “Sei que é difícil gerir vários espaços, mesmo estando perto”. Para já, sabe que pode contar com a família para a continuação do seu negócio. Mário Lopes tem desde o início o apoio da mulher, responsável pela gestão do salão. A eles, juntou-se a filha mais velha, de 21 anos, que herdou de Mário Lopes a vocação para a criação de penteados e cortes e será, segundo o pai orgulhoso, “um futuro talento”. A mais nova, de 18 anos, estuda Gestão e poderá seguir o percurso da mãe. A curto prazo, Mário está a ver realizado um projecto que apresentou à Haute Coiffure Française e recebeu o aval dos seus colegas de Direcção. Tem por objectivo atribuir um troféu da Associação ao melhor cabeleireiro, num concurso realizado a nível mundial aberto a todos os cabeleireiros interessados e que recebeu candidatos de diversos países, como Rússia, Suíça e Bélgica, entre outros. O vencedor sairá de entre um dos dez finalistas já seleccionados, e irá receber o troféu a 15 de Fevereiro, em Paris, na mesma cerimónia onde aquela associação vai dar a conhecer as tendências para a Primavera/Verão deste ano. Mário revela o orgulho que sente na concretização da sua ideia, mas sem se deixar levar pela «glória» momentânea. “Acho que temos que conhecer as nossas capacidades e não querer ir além do nosso saber fazer, acreditando sempre que podemos vir a encontrar pessoas com as quais criemos parcerias e possamos evoluir”, destaca Mário Lopes. Mas o melhor cabeleireiro de França em 2006 não deixa de frisar que é no número 88 da avenue Mozart, em Paris que se sente mais realizado. “Tenho tanto prazer em ver uma senhora de idade a sair do meu salão satisfeita, como a pentear a modelo mais espectacular. Até acho que é mais fácil pentear a modelo, porque qualquer penteado que tenha, fica-lhe bem. Somos nós que ditamos a moda? Não, é uma inspiração daquele momento”, sublinha Mário Lopes, acrescentando que é preciso estar sempre “com os pés bem assentes no chão”. “É no salão, no contacto com as pessoas, que me sinto bem”. A.G.P. |
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