Quarta-Feira, 17 Março 2010 - 20:06 (Açores 19:06)
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Alemanha: Amorim Gouveia foi condecorado por três décadas de trabalho voluntário
Funcionário do Consulado de Portugal em Estugarda, começou por trabalhar numa firma têxtil, e, à semelhança de muitos compatriotas, sentiu as dificuldades iniciais num país em tudo diferente do seu. “O início foi difícil, a integração não é fácil, para ambas as partes”, revela, acrescentando que o facto de ser uma pessoa “aberta” ajudou-o a “seguir adiante”. A ligação à igreja é outro factor que diz ter sido importante na sua integração na sociedade alemã. Durante cerca de 20 anos pertenceu ao conselho pastoral de uma paróquia alemã, algo que o ajudou não apenas na aproximação aos alemães da sua comunidade, mas que também foi de grande auxílio aprendizagem de uma língua «estranha». Amorim Gouveia percebeu cedo que sem o domínio do alemão não conseguiria ir «muito longe» e inscreveu-se numa escola nocturna. O trabalho por turnos acabou por impedir que fosse um aluno assíduo e decidiu então aprender por conta própria. “Mandei vir um livro bilingue, alemão-português e comecei a estudar sozinho. Pedia ajuda aos amigos que já conheciam a língua, trabalhei como intérprete para portugueses e acabei por aprender bem o alemão”, recorda. O trabalho de intérprete fazia-o em regime de voluntariado, e refere nunca ter cobrado dinheiro pelo apoio que prestou aos compatriotas. “Fui a hospitais, a repartições de finanças, à Câmara, etc, para servir de intérprete e ajudar portugueses que tinham assuntos a resolver”, recorda e por conta desse apoio, acabou por se ligar, em 1974, ao Conselho para Estrangeiros, um organismo da autarquia de Kirchleim, relacionado com a protecção dos estrangeiros. Saiu em 1989, quando foi extinto. Diz que sempre gostou “de ajudar” e tornou-se conhecido entre os portugueses da região onde vive, não sendo são poucas as vezes em que é abordado por compatriotas que lhe pedem ajuda sobre questões burocráticas. Apoio ao ensino O ensino da língua portuguesa era outra das suas preocupações e foi responsável pela abertura de duas escolas - a Escola Portuguesa de Kirchheim Teck, em 1975, e três anos depois e a Escola de Göppingen, três anos depois. Actualmente, 33 crianças aprendem português em Kirchheim Teck e outras 19 frequentam a Escola de Göppingen. “As escolas já formaram cerca de 200 alunos, muitos dos quais vinham de longe, de cerca de 10 quilómetros de distância, para assistirem à aulas”, recorda Amorim Gouveia que se manteve sempre ligado as duas escolas, como membro dos conselhos de pais e através da organização de diversas actividades, nomeadamente festas, passeios e encontros inter-culturais que ajudaram a divulgar Portugal, a sua cultura e tradições e a gastronomia, junto dos alemães. Dedicação ao voluntariado Voluntário junto da comunidade portuguesa há 35 anos, orgulha-se de entre várias actividades, “visitar os doentes nos hospitais e em casas” e de já ter “angariado fundos para alguns compatriotas”, bem como para obras de igrejas em Portugal. A ligação à Missão Portuguesa de Ulm - que dá apoio a comunidades de seis cidades - durante 34 anos, levou o padre Leonir dos Santos, responsável pela Missão, a propor à diocese que Amorim Gouveia recebesse o Prémio «Martinus Medallie», “como forma de reconhecimento por tanta dedicação”. Na carta a apresentar a proposta, o pároco sublinhava a convicção de que “todos os membros de nossas comunidades, assim como todos aqueles que pelo Sr. Amorim foram ajudados e orientados em sua vida comunitária e espiritual, sentir-se-iam da mesma forma também agraciados com esta homenagem”. Mas essa não foi a única homenagem de que foi alvo. Em 2003, os portugueses residentes na área de Kirchheim Teck organizaram uma cerimónia para marcar os seus 30 anos de dedicação de à comunidade. A festa, que reuniu jovens e adultos, ficou marcada pela apresentação de testemunhos e pela «actuação» do grupo de jovens que surpreenderam Amorim Gouveia com uma música da sua autoria. Dos discursos que ouviu, um o terá deixado mais emocionado, por estar ligado à Escola Portuguesa de Kirchheim Teck, de que foi o fundador. Amorim Gouveia ouviu da professora, palavras de agradecimento pelo facto de estar “sempre disponível” para “ajudar a quem lhe batia à porta”. “Quase sempre esteve integrado nas várias iniciativas da comunidade portuguesa de Kirchheim Teck: missa portuguesa, coro da igreja, rancho folclórico e inúmeras festas”, recordou a professora, sublinhando ainda a disponibilidade do homenageado “para ajudar os outros” e a sua “abertura de espírito, vontade de aprender e gosto de viver e festejar a vida”. Cidadão de Kirchheim Teck O reconhecimento também se fez notar fora da comunidade portuguesa. A 5 de Dezembro do ano passado, Amorim Gouveia recebeu da autarquia de Kirchheim Teck, a Medalha de Cidadão. “Senti muita alegria por ter sido reconhecido pelos alemães pelo trabalho prestado ao longo de 30 anos”, afirmou ao Mundo Português, justificando que “há poucos cidadãos estrangeiros a quem atribuem essa medalha”. “É um cidadão português que está a ser reconhecido, o que é bom para o «bom nome» dos portugueses”, acrescenta. Apesar dos anos “já irem pesando”, mantém-se ligado a actividades de voluntariado. O seu mais recente projecto foi a formação do «Ter-Sol», um grupo de terapia de grupo criado para dar apoio psicológico a adultos e, mais recentemente, a crianças e jovens de origem portuguesa. Amorim Gouveia explica que o primeiro surgiu em Kirchheim Teck e neste momento já há mais grupos formados em várias localidades, como Estugarda, onde o grupo de terapia é constituído por cerca de 30 pessoas. “Temos o apoio de um psicólogo português, que trabalha para a Caritas e para a Missão Católica Portuguesa e atende gratuitamente as pessoas, sempre aos sábados. Na maioria são portugueses, mas já há pessoas de outros países lusófonos que procuram o grupo”, conta sublinhando que, o facto de ser também estrangeiro, permite ao psicólogo ter uma “outra compreensão dos problemas” das pessoas que procuram os grupos «Ter-Sol». “Ali, a palavra «saudade» é bem compreendida”, acrescenta. O passo seguinte foi a criação de um grupo de terapia para crianças e jovens entre os 6 e os 15 anos porque, revela, “há muitas crianças com problemas, como separação dos pais e questões que envolvem a escola, entre outros”. Diz que a procura tem sido grande e dá como exemplo o caso de dos cais que percorrem 75 quilómetros para levar os filhos às sessões de terapia, que por enquanto realizam-se de dois em dois meses, aos domingos, fruto da disponibilidade do mesmo psicólogo que atende os adultos. Amorim Gouveia sente-se realizado por ter servido “de ombro amigo” a muitos portugueses. “Hoje tenho muitos amigos, alguns que foram viver para outros lugares na Alemanha e continuam amigos. Não recebi dinheiro, mas ganhei muitas amizades com o voluntariado”, destaca, lembrando que não foram poucas as vezes em que «faltou» à família, “para ajudar os outros”. Valeu-lhe nessas alturas, a compreensão e o apoio da mulher, Conceição Cordeiro, companheira de 34 anos de vida em comum, e das três filhas. “Sou um homem entre mulheres”, diz com orgulho. Já decidiu que, quando se reformar, regressa a Portugal e á «sua» Tondela, onde reside uma das filhas. Outra está a viver em Carregal do Sal e a terceira vive na Alemanha. “Acho que se me reformasse amanhã, ia para Portugal no dia seguinte”, brinca, mas, mais a sério, diz que quer manter-se ligado ao voluntariado “junto dos idosos”, quando regressar. A.G.P. |
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