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Alemanha: Amorim Gouveia foi condecorado por três décadas de trabalho voluntário

  No dia 5 de Dezembro, aos 59 anos, José Amorim Gouveia foi condecorado com a medalha de Cidadão Honorário atribuída pela Câmara de Kirchleim Teck, cidade onde reside, pelo trabalho voluntário desenvolvido na comunidade local há mais de três décadas...
Natural de Tondela, Amorim Gouveia chegou à Alemanha a 27 de Setembro de 1973, mas aquele não era o destino em mente. Inicialmente, tinha previsto atravessar o Atlântico para juntar-se no Canadá, a um amigo, mas acabou por decidir-se pela Alemanha, onde já vivia um irmão, e reside há 35 anos em Kirchleim Teck, cidade a cerca de 30 quilómetros de Estugarda.
Funcionário do Consulado de Portugal em Estugarda, começou por trabalhar numa firma têxtil, e, à semelhança de muitos compatriotas, sentiu as dificuldades iniciais num país em tudo diferente do seu. “O início foi difícil, a integração não é fácil, para ambas as partes”, revela, acrescentando que o facto de ser uma pessoa “aberta” ajudou-o a “seguir adiante”.
A ligação à igreja é outro factor que diz ter sido importante na sua integração na sociedade alemã. Durante cerca de 20 anos pertenceu ao conselho pastoral de uma paróquia alemã, algo que o ajudou não apenas na aproximação aos alemães da sua comunidade, mas que também foi de grande auxílio aprendizagem de uma língua «estranha».
Amorim Gouveia percebeu cedo que sem o domínio do alemão não conseguiria ir «muito longe» e inscreveu-se numa escola nocturna. O trabalho por turnos acabou por impedir que fosse um aluno assíduo e decidiu então aprender por conta própria. “Mandei vir um livro bilingue, alemão-português e comecei a estudar sozinho. Pedia ajuda aos amigos que já conheciam a língua, trabalhei como intérprete para portugueses e acabei por aprender bem o alemão”, recorda.
O trabalho de intérprete fazia-o em regime de voluntariado, e refere nunca ter cobrado dinheiro pelo apoio que prestou aos compatriotas. “Fui a hospitais, a repartições de finanças, à Câmara, etc, para servir de intérprete e ajudar portugueses que tinham assuntos a resolver”, recorda e por conta desse apoio, acabou por se ligar, em 1974, ao Conselho para Estrangeiros, um organismo da autarquia de Kirchleim, relacionado com a protecção dos estrangeiros. Saiu em 1989, quando foi extinto. Diz que sempre gostou “de ajudar” e tornou-se conhecido entre os portugueses da região onde vive, não sendo são poucas as vezes em que é abordado por compatriotas que lhe pedem ajuda sobre questões burocráticas.

Apoio ao ensino

O ensino da língua portuguesa era outra das suas preocupações e foi responsável pela abertura de duas escolas - a Escola Portuguesa de Kirchheim Teck, em 1975,  e três anos depois e a Escola de Göppingen, três anos depois. Actualmente, 33 crianças aprendem português em Kirchheim Teck e outras 19 frequentam a Escola de Göppingen.
 “As escolas já formaram cerca de 200 alunos, muitos dos quais vinham de longe, de cerca de 10 quilómetros de distância, para assistirem à aulas”, recorda Amorim Gouveia que se manteve sempre ligado as duas escolas, como membro dos conselhos de pais e através da organização de diversas actividades, nomeadamente festas, passeios e encontros inter-culturais que ajudaram a divulgar Portugal, a sua cultura e tradições e a gastronomia, junto dos alemães.

Dedicação ao voluntariado

Voluntário junto da comunidade portuguesa há 35 anos, orgulha-se de entre várias actividades, “visitar os doentes nos hospitais e em casas” e de já ter “angariado fundos para alguns compatriotas”, bem como para obras de igrejas em Portugal.
A ligação à Missão Portuguesa de Ulm - que dá apoio a comunidades de seis cidades - durante 34 anos, levou o padre Leonir dos Santos, responsável pela Missão, a propor à diocese que Amorim Gouveia recebesse o Prémio «Martinus Medallie», “como forma de reconhecimento por tanta dedicação”. Na carta a apresentar a proposta, o pároco sublinhava a convicção de que “todos os membros de nossas comunidades, assim como todos aqueles que pelo Sr. Amorim foram ajudados e orientados em sua vida comunitária e espiritual, sentir-se-iam da mesma forma também agraciados com esta homenagem”.
Mas essa não foi a única homenagem de que foi alvo. Em 2003, os portugueses residentes na área de Kirchheim Teck organizaram uma cerimónia para marcar os seus 30 anos de dedicação de à comunidade. A festa, que reuniu jovens e adultos, ficou marcada pela apresentação de testemunhos e pela «actuação» do grupo de jovens que surpreenderam Amorim Gouveia com uma música da sua autoria. Dos discursos que ouviu, um o terá deixado mais emocionado, por estar ligado à Escola Portuguesa de Kirchheim Teck, de que foi o fundador.
Amorim Gouveia ouviu da professora, palavras de agradecimento pelo facto de estar “sempre disponível” para “ajudar a quem lhe batia à porta”. “Quase sempre esteve integrado nas várias iniciativas da comunidade portuguesa de Kirchheim Teck: missa portuguesa, coro da igreja, rancho folclórico e inúmeras festas”, recordou a professora, sublinhando ainda a disponibilidade do homenageado “para ajudar os outros” e a sua “abertura de espírito, vontade de aprender e gosto de viver e festejar a vida”.

Cidadão de Kirchheim Teck

O reconhecimento também se fez notar fora da comunidade portuguesa. A 5 de Dezembro do ano passado, Amorim Gouveia recebeu da autarquia de Kirchheim Teck, a Medalha de Cidadão. “Senti muita alegria por ter sido reconhecido pelos alemães pelo trabalho prestado ao longo de 30 anos”, afirmou ao Mundo Português, justificando que “há poucos cidadãos estrangeiros a quem atribuem essa medalha”. “É um cidadão português que está a ser reconhecido, o que é bom para o «bom nome» dos portugueses”, acrescenta.
Apesar dos anos “já irem pesando”, mantém-se ligado a actividades de voluntariado. O seu mais recente projecto foi a formação do «Ter-Sol», um grupo de terapia de grupo criado para dar apoio psicológico a adultos e, mais recentemente, a crianças e jovens de origem portuguesa. Amorim Gouveia explica que o primeiro surgiu em Kirchheim Teck e neste momento já há mais grupos formados em várias localidades, como Estugarda, onde o grupo de terapia é constituído por cerca de 30 pessoas. “Temos o apoio de um psicólogo português, que trabalha para a Caritas e para a Missão Católica Portuguesa e atende gratuitamente as pessoas, sempre aos sábados. Na maioria são portugueses, mas já há pessoas de outros países lusófonos que procuram o grupo”, conta sublinhando que, o facto de ser também estrangeiro, permite ao psicólogo ter uma “outra compreensão dos problemas” das pessoas que procuram os grupos «Ter-Sol». “Ali, a palavra «saudade» é bem compreendida”, acrescenta.
O passo seguinte foi a criação de um grupo de terapia para crianças e jovens entre os 6 e os 15 anos porque, revela, “há muitas crianças com problemas, como separação dos pais e questões que envolvem a escola, entre outros”. Diz que a procura tem sido grande e dá como exemplo o caso de dos cais que percorrem 75 quilómetros para levar os filhos às sessões de terapia, que por enquanto realizam-se de dois em dois meses, aos domingos, fruto da disponibilidade do mesmo psicólogo que atende os adultos.
Amorim Gouveia sente-se realizado por ter servido “de ombro amigo” a muitos portugueses. “Hoje tenho muitos amigos, alguns que foram viver para outros lugares na Alemanha e continuam amigos. Não recebi dinheiro, mas ganhei muitas amizades com o voluntariado”, destaca, lembrando que não foram poucas as vezes em que «faltou» à família, “para ajudar os outros”. Valeu-lhe nessas alturas, a compreensão e o apoio da mulher, Conceição Cordeiro, companheira de 34 anos de vida em comum, e das três filhas. “Sou um homem entre mulheres”, diz com orgulho.
Já decidiu que, quando se reformar, regressa a Portugal e á «sua» Tondela, onde reside uma das filhas. Outra está a viver em Carregal do Sal e a terceira vive na Alemanha. “Acho que se me reformasse amanhã, ia para Portugal no dia seguinte”, brinca, mas, mais a sério, diz que quer manter-se ligado ao voluntariado “junto dos idosos”, quando regressar.

A.G.P.

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