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NacionalPedro Lukeia de Santarém: O menino de Angola que a guerra adoptouTerça-Feira, 07 Abril de 2009
Pouco mais de um ano depois do início da Guerra em Angola, numa madrugada de Outubro de 1962 uma criança perdida dos pais, nas margens do Rio Lukeia, a Norte de Angola acabou adoptada pelos soldados do pelotão de Cavalaria de Santarém. O menino atravessou o mar e hoje é engenheiro de máquinas, na Câmara do Barreiro. Tem 53 anos, é casado, e tem dois filhos. Pedro, é o seu nome e até hoje nunca tinha contado a história publicamente. Aceitou agora contar a história da sua vida, ao Emigrante/Mundo Português e recordar a sua infância que começou de novo por causa da Guerra Colonial... “Menino de Angola filho da guerra”, poderia ser o título de um livro da sua vida, cujas raízes não esquece, e que procura um dia visitar – as margens do Rio Lukeia- onde foi encontrado. O nosso jornal foi em busca desta história que tem um final feliz, e que é o lado “bom da Guerra Colonial”. Do Cais da Rocha de Conde de Óbidos em Lisboa, sob muitas lágrimas e lenços a acenar, o movimento de embarque era grande de tropas para Angola. “Para Angola já e em força” era a ordem de Oliveira Salazar. Sob o comando do capitão Ricardo Durão embarcou o esquadrão de cavalaria 122, num desses dias do ano. No Norte de Angola em Outubro de 1962, em dia que não se pode precisar, numa operação de três dias do mato, onde o meios aéreos tinham detectado um acampamento inimigo, depois de terem recebido instruções para fazer uma acção de surpresa e aniquilar os meios inimigos, no vale do rio Lukeia, os soldados dos dois pelotões do esquadrão 122 da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, montaram uma base recuada na colina e começam a bater o rio, atentos ao mais pequeno ruído. A aviação continuava a bombardear e de repente, com a G3 pronta a disparar, encontram a criança só com um fio de cabedal à cintura, assustado por causa do tiroteio. A.F.No meio do capim O primeiro cabo Manuel Afonso da Luz, o Aljustrel, foi o primeiro a avistá-lo e logo diz ao furriel Mabé para mandar parar o fogo. O menino, assustado, somente sabia dizer que se chamava Pedro, pouco falava português, teria quatro, cinco anos, ninguém sabia ao certo, nem ele próprio sabia a idade e a sua língua era a língua do seu povo, o quimbundo, misturada com um pouco de português. Assustado foi recolhido e logo os soldados resolveram ficar com a criança. O capitão Ricardo Durão, hoje general, comandante da companhia não tinha saído nesta missão, mas foi informado da decisão unânime, dos soldados em ficar com a criança. A missão da companhia era “bater” o rio Lukeia, por mais dois dias. Andar com o equipamento de combate, no meio da capim alto e com a criança às costas, com as armas em ponto de fogo para disparar sobre o inimigo. Foi pedido um helicóptero para evacuar a criança para o aquartelamento no Dembe. À noite, os aerogramas, ou “bate-estradas”, como se dizia na gíria militar, que ajudavam a matar saudades e eram mandados para as namoradas, famílias e madrinhas de guerra, traziam para Portugal a notícia que “tinham encontrado um menino negro, nas margens do Rio Lukeia, às cinco e meia da manhã” Acabada esta missão, os soldados, ansiavam chegar ao quartel e ver o seu “menino Pedro”. Chegados ao aquartelamento, logo dizem ao capitão Durão que queriam ficar com o menino, já que criá-lo seria uma tarefa fácil distribuída por tantos “pais”. Começa uma vida nova para o Pedro. Deste achado, Pedro, que nos recebe na Câmara do Barreiro, recorda “ eu estava a brincar nas margens do rio Lukeia, onde pescava com minha família, houve aquele tiroteio de repente, vejo os meus a correr de um lado para o outro , tentei fugir, sei que estava no meio do capim, ouvia os silvos das balas e o sol a começar a nascer, aquela bola enorme, que mais parecia fogo e depois aquelas pessoas muito brancas, de pele gelatinosa, todos vestidos de igual. Fiquei paralisado. É isso que me lembro. Nunca tinha visto brancos e estas imagens tem-me acompanhado sempre” Neste ano de 62 as emboscadas, combates e bombardeamentos ganhavam força, os soldados viviam aterrorizados e este “menino” segundo os testemunhos foi o “Deus do Céu” que apareceu aos soldados. No quartel “começou para mim outra infância” diz-nos. O capitão ainda alvitrou entregar o Pedro a uma instituição, mas os soldados logo disseram que a responsabilidade de criar e olhar pelo menino seria deles e refere Manuel Afonso da Luz “qual quê, a gente cria o moço, há algum problema nisso, nós responsabilizamo-nos…. Olhe, foi e melhor coisa que lá caíu, brincadeira com ume outro; festas ao menino, o tempo passou que foi um instante...” O batismo e o ensino da língua Um dos primeiros propósitos desta família foi começar a ensinar-lhe a língua portuguesa, já que os soldados não percebiam nada da língua nativa que ele já soletrava e depois foi-lhe decidido dar-lhe um nome completo, para não se andar para ali sempre a dizer o (Pedro o preto). Pedro Santarém recorda que “ Pedro, era o nome que eu dizia. Sou Pedro… sou Pedro, meu pai era Miguel e minha mãe Mayete”. A este nome foi acrescentado por decisão de todos, Lukeia, o nome do rio onde o acharam e Santarém de onde era o pelotão. É este o seu nome, um nome de que tem grande orgulho, como nos diz. Um nome escolhido por “cento e cinquenta padrinhos” e que todos aprovaram e nunca mais esqueceram. O pelotão passou a ter mais um elemento e os soldados logo lhe arranjaram uma farda, que eles mesmos talharam. Emocionado refere “ andei sempre com eles, aprendi tudo, acarinhavam-me e em vez de um pai e mãe, passei a ter cento e cinquenta pais, por vezes todos queriam me lavar a roupa, fizeram-me uma cama, na camarata, e fui “promovido” a segundo cabo, depois 1º cabo e a furriel quando me trouxeram com eles para o continente”. O comandante Ricardo Durão quando questionado sobre este caso, refere, que passou a ter uma grande admiração por todos estes homens que comandava, e da maneira como se dedicaram ao menino, como o educaram. Dá o exemplo do papagaio dos soldados que só dizia asneiras, “a linguagem muito comum no meio militar, mas o menino nunca disse asneira ou palavrão algum”. Aprendeu a marchar, o manejo de armas, a “bater a pala”. Sempre foi um “militar” acarinhado e bem alimentado, por vezes com excessos, que só o doutor Noronha o médico do Batalhão conseguia valer, já que a sua meninice não tinha sido criado com estas feijoadas e outras comidas dos militares. “Nunca passei fome quando estive com os meus pais no mato, comia o que estava à mão de semear, ainda me lembro da minha mãe a bater no pilão e a mudança de alimentação foi difícil” conta Pedro Santarém. “A adaptação foi muito boa, eles foram para mim, os pais as mães, os irmãos e depressa me esqueci da minha família, algures no Rio Lukeia. Deixei de ter cor e fui de tal forma apoiado que deixei de ter necessidade dos meus pais. Ensinaram-me a fazer ratoeiras para os pássaros, ensinaram-me a língua, a ser um homem. Brincava com o saguim, montava nos jeeps. Aquilo para mim foi uma maravilha, recorda-nos. Comecei outra infância, com o mesmo grau de felicidade, ia à caçadas, foi uma infância maravilhosa” Um dia foi três vezes com a marmita à fila receber o rancho e comeu tanto grão com bacalhau que “ia batendo a bota e só o Dr. Noronha me salvou”. Os soldados tinham pressa em ver o Pedro crescer, fazer-se um homem e “atacavam com comida” A “nova vida” no continente O tempo de rendição deste pelotão aproximava-se e o capitão Durão, pensava seriamente como seria com o futuro do menino. Ponderava entregá-lo em Luanda a uma instituição religiosa, ou outra que se encarregasse de órfãos, já que o Pedro foi encontrado perdido dos pais e encontrá-los, ou à família, seria quase impossível. Os soldados teimavam em trazê-lo e, para eles era tudo fácil. Uma das soluções passaria por trazer o menino, levá-lo para o quartel de Santarém, ir para as escolas militares, para as oficinas e fazer-se homem. Porém a prudência e a experiência deste oficial, dizia-lhe que mal chegassem a Lisboa, cada um ia para seu lado e a criança por ali ficava, outra vez órfão, num quartel esquecido, sem saber-se bem como ali foi parar e o que andaria ali a fazer. Por isso a condição para o embarque no navio do “militarzinho” era de que o Pedro poderia vir, mas alguém teria que ficar legalmente encarregue pela sua educação e criação, ou mesmo adopção. Depressa a boa nova chegou. Certamente já andaria a ser preparada. O alferes Sá, de Vila Nova de Paiva, já tinha falado com sua mãe, já tinha contado como os seus companheiros soldados, tinham um amor fortíssimo pelo petiz. Os quatro filhos de Dª Angelina Sá, sua mãe, já estavam criados e depois tomar conta de crianças era a sua vida. Era professora primária em Alhais, uma freguesia, bem perto da vila e a senhora não se importava de ficar com a criança. Ricardo Durão o capitão, posto ao corrente, aprovou esta decisão e logo começou a tratar da burocracia e das devidas autorizações para trazer a criança. Os “bate-estradas” depressa chegavam aos lares, de norte a sul de Portugal, anunciando “o menino negro, a nossa mascote, o Pedro vai embarcar com o pessoal”. Registe-se gratuitamente na nossa área reservada onde pode ter acesso à totalidade da entrevista e à edição em PDF do jornal O Emigrante/ Mundo Português. |
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