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Sábado, 13 Março 2010 - 18:27 (Açores 17:27)
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Cristiana Miranda: Uma realizadora de quem se fala em Inglaterra

Foi para Londres aos 18 anos por conta da uma vontade constante de procurar coisas novas e por sentir que os seus estudos precisavam de uma componente mais prática. Pensou nos Estados Unidos mas acabou em Londres, onde se formou. Aos 25 anos, com dois documentários para o Canal Discovery e vários filmes publicitários no currículo, entre os quais quatro com o piloto Lewis Hamilton, Cristiana Miranda viu o seu trabalho receber uma projecção internacional ao ser escolhida para realizar o filme para uma das músicas da cantora britânica Dido. «Fisherman» foi inteiramente rodado na Nazaré, retrata o dia-a-dia dos pescadores e é um sucesso de crítica e público.

Cristiana Miranda recorda-se de ter sempre gostado de televisão e cinema e de ser fascinada por vídeos de música. Mas a realização não foi a sua vocação inicial.
Foi para Londres estudar Comunicação Social na Universidade de Westminster, e no fim do primeiro semestre - depois de ter feito um trabalho no qual teve que realizar e editar todo o projecto - já se tinha decidido pela Realização. “Adorei o processo inteiro e fiquei completamente obcecada, tanto que no fim do meu terceiro e último ano de curso decidi ir acabar os estudos na Austrália, aproveitando um intercâmbio que existe entre os dois países”, explicou ao Mundo Português.
Quando regressou a Londres a decisão estava consolidada: “esses seis meses deram-me tudo o que andava à procura para completar os três anos anteriores”.
Estava pronta a iniciar a carreira numa área muito competitiva e com uma hierarquia muito rígida que estava disposta a enfrentar, mas as coisas aconteceram “muito mais rápidas do que calculava”.
Cristiana começou por elaborar uma lista dos dez filmes que estavam na altura a ser produzidos em Londres. No topo colocou um filme do realizador Stephen Fears, o mesmo de «Ligações Perigosas», um filme que confessa adorar. “Liguei para a produção, disse que tinha acabado o curso e só queria poder estar no set, podia fazer café, chá, qualquer coisa. Disseram-me que podia ir por uma semana. Acabei por me dar tão bem com todas as pessoas, que a produtora do filme convidou-me para ficar mais tempo. Ofereceram-me um género de emprego: eu ajudava na contabilidade durante a manhã e à tarde podia estar no set. Ela sentava-me ao lado do Stephen Fears, e passei um mês a observá-lo, vê-lo lidar com os actores e com a produção. Foi uma grande inspiração”, recorda.
Terminado o «estágio», ficou a saber que teria que contratar um agente se quisesse continuar em frente e recebeu a indicação de uma pessoa que passou a representá-la. Começou por trabalhar com Elaine Constatine, uma conceituada fotógrafa de moda de Inglaterra, e com uma produtora que já tinha trabalhado em Hollywood e foi depois contactada produtora de anúncios publicitários que se interessou pelo seu currículo e pelo facto de falar várias línguas. “Estavam a abrir uma nova produtora perguntaram-me se não estaria interessada em trabalhar com eles. Era um grupo muito pequeno, com uma selecção bem definida dos realizadores”, explica Cristiana que apesar de não estar muito interessada na área da publicidade, levou em conta o facto daquele ser um trabalho a tempo inteiro.
Entrou como recepcionista e secretária, mas por ser aquele um grupo pequeno, viu-se logo a colabora intensamente com os realizadores e a trabalhar na produção. “O primeiro ano foi muito intenso e apaixonei-me tanto pelo processo de pesquisa, de criação de um filme, que passei esse entusiasmo aos realizadores com quem trabalhava e eles aperceberam-se dessa minha vontade de querer andar para a frente muito rapidamente”, sublinha a realizadora que, seis meses depois de ter começado a trabalhar, aceitou o desafio de realizar um pequeno documentário de três minutos para o canal Discovery.
Decidiu contar a história de uma mulher que a fascinava e que na altura ainda não era muito conhecida: Dita von Teese, uma stripper burlesca. O projecto foi aprovado pelo canal televisivo. “Queria que as pessoas vissem que ela não tem nada a ver com as strippers que nós vemos, que havia ali qualquer coisa de extraordinário”, conta. O documentário tornou-se um sucesso e abriu-lhe as portas a novos projectos. Além de ter participado num festival no Japão, o documentário foi visionado em cinco programas de televisão no Reino Unido.
Continuou a trabalhar na mesma produtora, pela afinidade que já tinha com o resto da equipa e por não ser uma pessoa que goste de tomar decisões muito rápidas numa mudança de carreira. Fez outro filme para o Discovery Channel, sobre um pintor alemão, e começou a ser procurada pela indústria publicitária. Começou a realizar filmes publicitários e no seu currículo, constam, entre outros, anúncios para a marca Johhny Walker, com os pilotos de Fórmula Um, Alonso e Lewis Hamilton.

Um vídeo na Nazaré

Em Outubro do ano passado, um convite fez com que a jovem realizadora portuguesa entrasse noutra área de direcção. Um projecto “muito especial” que lhe foi parar às mãos e a desviou da publicidade. Os trabalhos publicitários levaram-na a deixar de ser apenas uma funcionária da produtora londrina para passar a ser uma realizadora profissional, representada por essa empresa. Como consequência, foi-lhe atribuída uma agente que a representa para a área de vídeos de música.
Por ter já no seu jovem currículo dois filmes documentários, a agente da cantora britânica Dido contactou-a para convidá-la a envolver-se no projecto «Safe Trip Home», ligado ao mais recente álbum da cantora (lançado em 2008).
“A ideia era fazer para cada faixa musical, um filme sobre um sítio à volta do mundo. Já tinham indicado os países ou regiões para cada música, mas ainda não estava totalmente definido”, explica Cristiana, acrescentando que lhe foi atribuída uma música associada a Inglaterra. Não chegou sequer a ouvi-la e decidiu telefonar a perguntar se não haveria uma faixa “mais mediterrânica”.
Soube então que havia um tema que poderia ser associado a Itália ou Grécia e pediu que lhe fosse enviado. Assim que ouviu a música telefonou à equipa da cantora para dizer que aquela música nada tinha a ver com Itália ou Grécia. “Disse-lhes que isto era Portugal, a melancolia da música lembrou-me muito o fado”, recorda.
«The Day Before the Day» é uma das faixas mais «intensas» do álbum e Cristiana associou-a instantaneamente à Nazaré e à vida dos pescadores, por ser uma canção que fala sobre a perda de alguém e que faz lembrar o fado e o sentimento de saudade.
“A letra e a música, lembraram-me imediatamente os pescadores. É uma história de mar, de morte mas da aceitação da morte e da capacidade de viver com a morte. É uma história de saudade, daquela nostalgia que não se consegue definir”, explicou. Diz que tinha “todo o sentido” que o vídeo fosse feito com e sobre pescadores e a Nazaré foi o primeiro lugar em que pensou. Cristiana queria que, associadas à música, as imagens transmitissem o peso da tradição piscatória visível nos rostos das pessoas.
“Quando enviei a proposta, as fotografias eram antigas, mas eles adoraram e aprovaram a ideia”, recorda a realizadora que começou logo a trabalhar no seu projecto.
Contou com a ajuda de uma produtora portuguesa que elaborou a pesquisa inicial e integrou depois a pequena equipa de quatro elementos que levou à Nazaré e ali esteve quatro dias num ritmo intenso de gravações de «Fisherman» («Pescador»), título que deu ao filme. Um trabalho que define como “perfeito”. Conta que se no primeiro contacto as pessoas não revelavam a postura que queria, assim “que virava as costas”, a expressão natural era triste.
“Mas um triste belo, melancólico e tão poético que vi que a minha escolha tinha feito todo o sentido”, acrescenta Cristiana que também não teve dificuldades em escolher um «elenco», onde todos os actores são personagens reais do universo que quis retratar.

Elenco “perfeito”

Para chegar a um elenco formado por pescadores e familiares, Cristiana contou com a ajuda «preciosa» de Zé Bruno, um nazareno que “conhece toda a gente” e apresentou a realizadora à família do Fábio Salsinha, principal protagonista do filme e o único pescador jovem que encontrou na Nazaré. “Encontrá-lo foi a maior dificuldade, mas eu queria ter um pescador jovem para fazer a «ponte» entre o passado e o presente e para transmitir uma linguagem poética no filme”, conta Cristiana que teve certeza de que aquele rapaz seria o seu protagonista assim que o viu. “Com aqueles olhos e aquela cara, a simpatia e a sua disponibilidade, foi perfeito”, acrescenta.
A colaboração dos moradores deveu-se não apenas à simpatia e o «à vontade» das pessoas, mas também ao facto de que um dia depois da equipa ter começado a filmar, já “toda a gente” saber o que estava ali a fazer.
Para as filmagens, Cristiana decidiu, basicamente, seguir as pessoas sempre que via “qualquer coisa de que gostava”, como a cena filmada dentro de uma igreja onde podia estar por apenas dez minutos. “Fui a correr lá para fora atrás de alguém vestida de preto, peguei numa senhora e disse-lhe que a queria filmar durante um minuto na igreja”. Apercebeu-se ainda de que a estratégia a adoptar tinha que ser o “virar as costas às pessoas”, para obter a espontaneidade que não conseguia sempre que estava a olhar para os seus «actores» de rua. “Quando estava de frente para eles, riam-se, conversavam”, recorda a rir, acrescentando que quando saia do campo de visão dessas pessoas, o natural semblante melancólico e triste, aparecia. “Percebi que só tinha que me afastar, que bastava a essas pessoas, que vêm de gerações e gerações de pescadores, olharem para o mar, para eu perceber que estavam a pensar no marido que morreu, ou no filho, no tio. Estava tudo lá”, recorda.
A estratégia traduziu-se num filme onde todos os gestos são naturais, desde a imagem da viúva na igreja, à lágrima que desponta no rosto de uma mulher de idade ao olhar para cima, ao riso dos pescadores já em terra firme ou à imagem do esforço da faina.
Para Cristiana, a decisão de ir filmar à Nazaré foi um momento de inspiração e o trabalho que ali realizou foi muito gratificante. Mas destaca que tal só foi possível por causa das pessoas que deram naturalmente, pelo seu modo de vida, aquilo que ela procurava para a mensagem que queria fazer passar no vídeo musical. “Eu simplesmente observei e escolhi as caras que achava serem as que iriam transmitir o que procurava”, explica.
Dos três dias e meio de filmagens recorda especialmente as cenas de mar. Cristiana e o director de fotografia acompanharam os pescadores numa ida ao mar. Saíram ao fim do dia e regressaram ao início da manhã. As imagens que viu e captou são inesquecíveis. “Filmamos os homens a pescar, correu muito bem, e quando estávamos a voltar para terra, desligaram todas as luzes da traineira barco. Regressamos a olhar o céu com o peixe espalhado na proa a parecer um mar prateado. É das memórias mais bonitas que guardo e que nunca mais vou esquecer”, recorda.

Eleito o melhor filme

Por tudo o que lhe permitiu vivenciar e transmitir, Cristiana sublinha que este foi “um projecto muito especial”. “Pude filmar em Portugal sobre portugueses que respeito e admiro bastante e tive a possibilidade de dar projecção a essas pessoas com uma música da Dido que é fantástica”, acrescenta, revelando que a cantora britânica - que tinha gostado da ideia do vídeo ser filmado em Portugal - teve uma reacção final que superou as suas expectativas.
“Ela enviou-me um e-mail fantástico, de alguém que interpretou o filme exactamente da maneira que eu gostava que as pessoas interpretassem”, revela a realizadora destacando as observações que a cantora fez sobre a “beleza melancólica” e o “sentido da fatalidade” que quis transmitir. “Referiu que o vídeo realmente enalteceu o valor da música, porque apesar da imagem ser bastante forte, a música conta a história. Foi isso que a fez sentir-se bastante contente com o produto final”, diz Cristiana.
Também para ela, o resultado final, foi o que estava à espera. Fez questão de definir sozinha as cenas que iriam compor o filme por crer que somente uma pessoa portuguesa poderia “ditar os sentimentos” que deveriam tocar às pessoas. Quando acabou, estava “completamente esgotada” e precisou estar alguns dias sem ver o vídeo. Quando voltou a vê-lo, as imagens sensibilizaram-na mais uma vez. Na Nazaré, as reacções dos seus «actores» ao vídeo foram outro motivo de orgulho. “Mostrei-o na casa do Fábio Saldinha e da família e foi muito bom, eles aceitaram muito bem”, revela.
Disponível em www.safetriphome.com/html/, o trabalho da realizadora portuguesa foi eleito o melhor de entre os 11 vídeos filmados com base nas músicas da cantora e valeu-lhe uma entrevista divulgada no mesmo site.
As opiniões publicadas pelas pessoas que um pouco por todo o mundo viram o vídeo, são já uma recompensa ao seu trabalho.

Projectos em Portugal


Apesar de sublinhar que é uma realizadora muito nova que ainda fez muito pouco, Cristiana tem já um vasto leque de trabalhos realizados. No último ano realizou 11 filmes e, no total, concluiu 16 projectos, numa carreira que ainda não terá completado três anos. Isto numa área e numa cidade muito competitiva e onde ser mulher, às vezes ainda obriga a quebrar barreiras.
A experiência positiva na Nazaré levou-a a repartir os projectos entre Inglaterra e Portugal e passou a ser representada também no seu país, até porque mantém o sonho” de realizar um longa-metragem em Portugal onde, explica, encontra as condições “perfeitas”. “A luz é magnífica, as equipas são fantásticas e sinto que há muita gente disposta a fazer coisas muito boas, apesar dos obstáculos. Com a experiência que tenho tido em Londres achei que seria interessante vir perceber como as coisas são cá”, explica Cristiana.
O primeiro passo foi contactar um produtor inglês que reside em Portugal e trabalha com produtoras estrangeiras e que passou a representá-la. Juntos, criaram em Janeiro a «Big Family», que reúne realizadores portugueses e estrangeiros. Por conta dessa parceria, Cristiana esteve em Portugal recentemente a fazer o seu primeiro filme publicitário. Totalmente filmado em Portugal, com uma equipa quase cem por cento portuguesa, relaciona-se com a divulgação na televisão e no cinema, de um novo jornal português que será lançado este ano. “É o meu primeiro passo em Portugal, a minha primeira experiência no mercado nacional, mas é óptimo estar de volta”, sublinha Cristiana que “não tinha qualquer tipo de problema” em realizar todos os seus trabalhos em Portugal, apesar das dificuldades que ainda existem no seu país.
“Há diferenças, há falta de apoios, mas são coisas que as pessoas, tendo interesse, ultrapassam”, afirma, para sublinhar que o “espírito português”, de “andar para a frente” foi fundamental no seu “salto” na realização.
A exposição mediática adquirida com o filme «Fisherman», fez-lhe chegar às mãos ideias para novos projectos e guiões que considera interessantes, um dos quais anda “a namorar”, revela, sem dizer muito mais com receio de que não se concretize.

Sonho “escondido”

Para já, pretende continuar na publicidade, que considera o melhor meio para quem “ainda está a aprender” e sonha vir concretizar um projecto que domine do início ao fim. “Gostaria de escrever um guião para um filme que eu depois realize, seria o meu filme, porque há muitas coisas que posso contar”, revela, acrescentando que entretanto, ainda não encontrou nenhum tema para um longa-metragem que a fizesse ter vontade de pesquisar.
O mesmo já não acontece quando fala em documentários. Neste caso, sabe exactamente qual seria o tema: toureiros. Uma ideia que surgiu em Portugal, enquanto esteve a realizar o filme publicitário. “O anúncio inclui uma toureira e o meu director de fotografia, que é inglês, começou a fazer-me imensas perguntas sobre a tradição das touradas. De repente questionamo-nos se haveria algum documentário feito em Portugal sobre touradas e achamos que seria um bom tema para explorar”, revela Cristiana.
Mais uma vez, revela a sua vontade de falar de algo “muito português”, onde a emoção e o medo, mas também a coragem estão presentes. Espera agora poder levar avante este projecto…

Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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