Terça-Feira, 07 Fevereiro 2012 - 08:52 (Açores 07:52)
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Sofia Nobre: “Não me imagino a trabalhar noutro país”Sofia Nobre nasceu no ex-Zaire e, ainda criança, rumou com a família para Portugal para fugir da guerra. Sentindo desde cedo a necessidade de ajudar os outros, Sofia esteve em Moçambique, onde fez voluntariado, e hoje em dia trabalha na associação Helpo, uma Organização não Governamental que desenvolve projectos humanitários em Portugal e em África. Conta-me o teu percurso profissional desde que saíste da faculdade até ao teu trabalho actual. Bem, quando terminei a faculdade estava em paralelo a fazer a preparação para partir num projecto de voluntariado missionário para Moçambique nas minhas férias de Verão. Quando voltasse, começaria a enviar currículos para agências de publicidade, que era onde eu gostaria de trabalhar, idealizei eu. Entretanto, a experiência de voluntariado em Moçambique mudou de tal modo a minha vida que decidi que quando voltasse queria trabalhar na área social, mas estava triste pois achei que a minha área de formação não era compatível com um emprego na área social. Quando regressei soube, através de uma amiga, que a Associação onde ela apadrinhava uma criança à distância estava à procura de uma pessoa para o departamento de comunicação. Achei que aquela era a oportunidade certa para mim e fui à entrevista. Destino ou sorte, fui admitida. Depois de ter entrado na Helpo e conhecer o trabalho que esperavam de mim apercebi-me que, de facto, não só era possível com a minha formação trabalhar na área social, como era necessário, pois como todos sabem uma Oganização não Governamental (ONG) precisa de apostar fortemente na comunicação para poder levar a cabo os seus projectos. E assim comecei um estágio curricular que me abriu as portas para onde estou e o que sou hoje. Já tinhas tido outras experiências profissionais? Não, esta foi a primeira. Tinha acabado de me licenciar nesse ano, e até aí apenas tinha feito alguns trabalhos como promotora e hospedeira para ganhar algum dinheiro. O que te motivou para trabalhar nesta organização? Motivou-me, como já referi, o facto de a Helpo trabalhar com Moçambique, terra onde tinha estado recentemente e que tanto me fascinou. Começou por aí, antes de ir à entrevista. Depois da entrevista motivou-me o programa em si, que move esta Organização. A Helpo promove o apadrinhamento de crianças à distância, de que até à altura pouco ou nada tinha ouvido falar. Foi um programa inovador, que me cativou assim que ouvi falar dele. E ainda, com a minha formação, ter a possibilidade de poder ajudar de alguma forma a crescer este projecto e a contribuir, de alguma forma, para um mundo melhor, era tudo o que eu podia desejar. O facto de ter nascido em África (Sofia Nobre nasceu no antigo Zaire, actual República Democrática do Congo) e, desde pequena, fazer voluntariado, também facilitou no entusiasmo pelo projecto, confesso. Foi difícil para ti entrar no mercado de trabalho? Felizmente não foi. Eu acabei o curso em Fevereiro de 2007 - com o processo de Bolonha -, depois estive a tirar uns cursos profissionais de curta duração, dinamizados pela minha faculdade, e em simultâneo a fazer a preparação para partir para Moçambique. Estive em Moçambique durante o mês de Agosto e três semanas de Setembro, e em Outubro (de 2007) estava a começar a trabalhar na Helpo. Foi uma sorte mesmo, pois sabia através dos meus colegas que o mercado de trabalho estava complicado, principalmente na área da publicidade, que é a minha especialização. E a verdade é que a maior parte deles só começou a trabalhar muito mais tarde, e a maioria com estágios não remunerados. Quais são as tuas funções na Associação? Faço parte do Departamento de Comunicação e, como tal, ocupo-me de tudo o que seja divulgação, pedido de patrocínios, contacto com os meios de comunicação social. Agarrei num projecto que a Helpo já desenvolvia, que é a revista - temos uma revista de distribuição gratuita trimestral, o ‘Mundo h'. Ocupo-me também das campanhas, eventos e dou uma "mãozinha" nos projectos e outros departamentos que necessitem do meu apoio. Qual a actividade da Helpo? A Helpo é uma Organização não Governamental para o Desenvolvimento, que leva a cabo programas de apoio, projectos de assistência a crianças e suas famílias, ajuda humanitária, desenvolvimento comunitário, educação para o desenvolvimento e desenvolvimento humano em Portugal, Moçambique e São Tomé e Príncipe. A espinha dorsal da Organização é o Programa de Apadrinhamento de Crianças à Distância, onde, por uma módica quantia de entre 13 e 21 euros mensais, pode-se ajudar uma criança a frequentar a escola, ter acesso a alimentação e apoio médico. As necessidades das crianças condicionam o tipo de projectos que se desenvolve nas suas comunidades, para além da assistência que o apadrinhamento prevê. Neste momento, a Helpo já chega a 18 comunidades moçambicanas, a 4 em São Tomé, contabilizando mais de 3.100 crianças apoiadas. Mas todos os dias chegam-nos dados e fotografias de novas crianças que se inscrevem no programa e se encontram a aguardar apoio, e, neste momento, temos cerca de 500 crianças à espera do apoio que os padrinhos portugueses lhes podem proporcionar. Que outros projectos desenvolve a Helpo? A Helpo tem vários projectos. Aliás, é engraçada esta questão porque a Helpo desenvolveu recentemente um portfolio de projectos - que se pode consultar em http://issuu.com/onghelpo/docs/portfolio_pt-mz - onde damos a conhecer os projectos que desenvolvemos e pretendemos desenvolver durante este ano. Em Moçambique, prevemos a construção de 5 poços, 3 escolas, 3 escolinhas, 2 bibliotecas e 5 machambas (propriedade agrícola), além de programas de assistência médica e educação para o desenvolvimento. Em Portugal temos dois projectos, que são o "Veki" - educação para o desenvolvimento nas escolas do concelho de Cascais, onde através da educação pelo jogo sensibilizamos as crianças para as problemáticas dos países do Sul do mundo e questões relacionadas com os Direitos Humanos, a Interculturalidade e a Globalização e disparidades mundiais - e o "Sótão" - uma oficina de desenvolvimento humano que visa a capacitação do indivíduo e desenvolvimento das suas capacidades individuais, através da promoção do auto e hetero-conhecimento e confrontação dos seus medos, expectativas e sonhos, com outros, dos restantes elementos do grupo da oficina. Depois temos alguns eventos e campanhas que se podem conhecer através do nosso portfolio. Convido os leitores a ver, pois são projectos muito interessantes nos quais todos podem participar. Que tipo de apoios têm? A Helpo serve-se, para a concretização das suas actividades, da colaboração dos seus parceiros, associados, funcionários, padrinhos e voluntários. A maior parte das receitas é proveniente dos padrinhos. Depois temos alguns parceiros e associados que nos vão apoiando em situações específicas. Como ONG, dependemos dos apoios e patrocínios de terceiros. Como vês a tua situação profissional na Helpo? Faço parte de um projecto que está em crescimento. A Helpo ainda é pequena, tem 4 anos, mas tem todas as condições para crescer e dar resposta à também crescente necessidade de ajudar os países mais desfavorecidos. E com a actual "crise" parece que o fosso é cada vez maior e cada vez mais existe esta necessidade de dar resposta ao crescente número de casos de pobreza extrema que surgem. Se continuarmos a ter apoios e cada vez mais padrinhos a querer abraçar esta causa penso que a Helpo poderá chegar a mais destinos e aumentar a abrangência da sua ajuda. Que condições de trabalho te oferece a organização? Excelentes condições de trabalho, tanto a nível físico como pedagógico. Já cresci e aprendi muito com esta organização. Comecei como estagiária curricular, depois profissional, e agora encontro-me efectivamente a trabalhar na Helpo e sinto que houve um grande crescimento tanto pessoal como do departamento. Em grande parte devido à autonomia e confiança que depositaram em mim. O clima é bastante agradável e sou muito bem tratada. Sinto-me parte integrante da equipa, completamente enquadrada, como é raro em muitos trabalhos, principalmente para um membro tão recente. Quais são as tuas ambições? Crescer ainda mais com a Helpo. Ainda há muito para crescer, fazer a Organização chegar mais longe e uma coisa é certa: seja nesta ou noutra Organização, o meu futuro passará pelo trabalho em Associações sem fins lucrativos se assim for possível. Se a oportunidade surgisse, consideravas trabalhar noutro país? Nunca me imaginei a trabalhar noutro país, sou muito caseira e agarrada à família, mas se fosse nesta área e por um curto período de tempo ia. Talvez 6 meses, 9 meses, um ano. Não sei, se calhar até gostava e ficava mais tempo. Na tua opinião, que dificuldades encontram os jovens licenciados para entrar no mercado de trabalho? Bem, se antes já encontravam, agora a meu ver ainda mais. O mercado do trabalho está muito complicado. Poucas vagas e as vagas que existem são mal pagas. A maior dificuldade dum licenciado é que se depara com anúncios onde exigem experiência de no mínimo 2 a 3 anos. Então tem de se contentar com estágios profissionais não remunerados. Ganham experiência, é verdade, mas para quem tem contas para pagar ou quer começar a fazer vida própria torna-se difícil. E agora com o processo de Bolonha ou os alunos saem da faculdade com o mestrado integrado ou com 3 anos de licenciatura não vão muito longe, infelizmente. Não que não estejam preparados, até se pode dar o caso, mas porque entre um licenciado e um mestre dá-se obviamente preferência ao mestre, contudo a ganhar o mesmo que ganharia um licenciado. |
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