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Invisual esteve ligado ao mundo apenas pela internet

Terça-Feira, 19 Junho de 2007

Entre 5 e 15 de Junho, Fernando Santos instalou-se durante o dia num apartamento no centro de Lisboa com um computador portátil, uma câmara para a Internet, uma impressora e dois equipamentos especiais: um software com sintetizador de voz e uma Linha Braille.

Técnico de informática, 35 anos, cego, Fernando foi o elemento chave do Integra 21, um projecto de uma empresa portuguesa de tecnologias da informação que pretendeu com a experiência obter respostas para uma questão: até que ponto a Internet em Portugal é acessível a pessoas com necessidades especiais?
O resultado acabou por surpreender...

No decorrer do Integra21, Fernando Santos analisou cerca de 200 sites na internet, públicos e privados. Também realizou uma série de operações nas mais diversas áreas para realizar um universo alargado de tarefas, umas rotineiras, outras pontuais, que fazem parte da vida de qualquer cidadão. A questão é que para tal, Fernando teve como único recurso a Internet: ela foi o seu contacto com o mundo exterior ao apartamento onde estava instalado.
Entre as muitas actividades que realizou, este técnico de informático da ACAPO (Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal) comprou comida e produtos de higiene para a sua casa através do site de um hipermercado conhecido, encomendou o almoço (que chegou apenas no dia seguinte) e flores para a filha de três anos, comprou um dvd, consultou preços de telemóveis, electrodomésticos e material informático, comprou um bilhete através do site dos Caminhos-de-Ferro e consultou horários de voos em companhias aéreas.
«Navegou» em sites de alguns Ministérios e chegou a simular a entrega de uma declaração electrónica de IRS. Percorreu também vários sites de câmaras municipais e juntas de freguesia e de uma entidade bancária, a CGD, parceira do projecto Integra21, tendo realizado operações bancárias, como consultas de saldo, carregamento de cartões, pagamento de serviços, entre outras. "Penso que consegui concluir praticamente tudo", afirmou ao Emigrante/Mundo Português, explicando que aceitou o convite para participar na iniciativa por considerá-la "uma experiência muito diversificada em relação ao que iria fazer, aos sites que iria visitar". "Havia muita coisa não conhecia", diz.

A ideia do projecto surgiu na noite de 10 de Maio de 2006, no decorrer de um jantar de responsáveis da Vector21 - a empresa responsável pela iniciativa - com o ministro da Ciência. Na altura, Mariano Gago teria referido que o «choque tecnológico» deveria ter em atenção a inclusão de cidadãos com necessidades especiais. Foi o mote para o surgimento do Integra21, como revelou Teresa Marto. Elaborado o projecto, foi necessário contactar os possíveis parceiros, o primeiro dos quais, a ACAPO, que abraçou a ideia. A Caixa Geral de Depósitos, a UMIC (Agência para a Sociedade do Conhecimento), a UNICRE, a ACEP (Associação do Comércio Electrónico em Portugal) e o Ligar Portugal (Programa Nacional para a Sociedade de Informação), um programa de acção integrado no Plano Tecnológico do Governo, foram os outros parceiros da iniciativa que contou ainda com o alto patrocínio do Presidente da República.
Foi a direcção da ACAPO que indicou o nome de Fernando Santos, uma escolha que se iria revelar crucial, como destacou Luis Novais, na conferência de encerramento do projecto. Para o presidente da Vector 21, Fernando foi "o herói" do projecto, pelas "horas de trabalho" e pela dedicação"de corpo e alma". "O sucesso desta iniciativa passou também pelo conhecimento informático que ele tem", destaca.


Actividades diárias


Ao longo do período da experiência, as actividades foram diferentes, todos os dias. A cada manhã, Fernando recebia via e-mail, as tarefas a realizar. "Tive uma série de actividades a concluir, desde aquisições e consultas em sites de comércio e sites governamentais". Para além dos sites de empresas e instituições do Governo escolhidos pela empresa responsável pelo projecto, ouve algumas empresas que se inscreveram para serem analisadas. "Obviamente não foi uma analisa profunda, atendendo ao tempo que tínhamos e ao número de sites que foram analisados", diz Fernando, sublinhando porém, que todos foram verificados. "A ideia era analisar sites das mais diversas áreas. À parte esses, analisava também os que se tinham inscrito. Havia uma grelha que preenchia diariamente com os resultados obtidos em cada site e com comentários que, eventualmente, merecesse a pena referir", revela.
Para aceder aos cerca de 200 sites que analisou, Fernando teve a «ajuda« de um software com síntese de voz e uma Linha Braille, equipamentos utilizados pelo invisuais para trabalharem com computadores.


As barreiras


Ao longo da experiência, Fernando Santos foi-se apercebendo das barreiras que a Internet ainda coloca aos cidadãos cegos. Como, por exemplo, fotografias que não são legendas. "Encontrei algumas páginas que tinham na sua constituição «banners» (conteúdos animados) ou apresentações em «Flas», que ou impediam totalmente a acessibilidade ou limitavam-na ou ocultavam informação", explicou. Foi o que aconteceu ao aceder a um site de uma Junta de Freguesia para saber o horário de atendimento. "Não foi possível por causa de uma apresentação em flash que lá estava", refere.
Ou ainda um site de comércio onde tentou fazer a aquisição de um telemóvel. Mas, como na página inicial do site havia um «banner», Fernando não conseguiu passar dali.
Ao tentar ouvir a emissão online de uma rádio nacional deparou-se com outra dificuldade: o botão que permite essa opção está inserido numa imagem sem legenda. Para quem não vê, essa é uma barreira intransponível.
"Há ainda sites com «links» (ligações) com legendas que não dizem nada, ou seja, o utilizador que por ali passa tem mesmo que carregar no «link» para ver onde vai dar", explica. São pormenores que parecem ser de menor importância, mas, como refere Fernando Santos, "quando se fala de acessibilidade é o conjunto de todos esses pormenores que faz essa acessibilidade". Por isso, alerta "é bom tê-los em conta".
Muito por conta da sua experiência, houve barreiras que este técnico de informática conseguiu contornar utilizando alguns recursos a nível do software de leitura. Mas, neste caso, a tarefa não é fácil e fez com que a «navegação» fosse mais desagradável e mais morosa.
Já os sites de entidades do Governo que consultou tiveram uma avaliação positiva. Fernando verificou que nesses sites "em havido um esforço no sentido de os tornar acessíveis". No decorrer da iniciativa, foram analisados os sites da Segurança Social, do Ministério do Trabalho, das Finanças. Neste último Fernando Santos quis simular a entrega de uma declaração electrónica de IRS. "Foi possível porque existem no site duas versões do processo de entrega e, na mais antiga, essa entrega é possível". As juntas de freguesia, nomeadamente as de Lisboa, também foram analisadas e, no geral, Fernando considerou que a informação está acessível. Em termos de entidades bancárias, considerou o site de home-banking da CGD, como um dos poucos que está acessível e, dentre esses,o que tem melhor acessibilidade.


Resultado positivo


Numa análise global do trabalho que realizou, Fernando diz que ficou surpreendido. "As coisas não estão tão más como se poderia à partida pensar, a maior parte dos sites é acessível, mas há uma questão: muitos são acessíveis porque calhou serem, não houve um trabalho feito com o objectivo de os tornar acessíveis. São, porque na altura em que os sites foram construídos não foi utilizado determinado tipo de tecnologia que poderá ser um factor de inacessibilidade", alerta.
Luis Novais destaca que "o projecto excedeu as expectativas e deu um contributo importante para que a questão das acessibilidades não saísse da agenda de debates". "Não nos precisamos envergonhar da situação actual em Portugal", disse o presidente da Vector21 na conferência de apresentação do relatório sobre o projecto. O nível geral de acessibilidade de todos os sítios analisados por Fernando Santos foi considerado «Alto» e corresponde a 5, numa escala de 1 a 7. Nenhum sector atingiu 7, mas nenhum ficou abaixo de 5.
Mas para Fernando, a falta de informação é um dos maiores problemas. "O que há a fazer é aplicar as normas que existem de acessibilidade, passá-las do papel à prática. As normas do W3C (definem como tornar o conteúdo da internet acessível a pessoas com deficiências e destinam-se a todos os criadores de conteúdo Web e aos programadores de ferramentas para criação de conteúdo. O principal objectivo destas directivas é promover a acessibilidade)". Normas que são desconhecidas pela maior parte dos programadores que fazem os sites.
Aliada à desinformação, a falta de sensibilidade para as questões de acessibilidade é outro problema. "Quem faz os sites, por não ter que lidar normalmente com esta questão das acessibilidades, nem se apercebe ou nem sabe. Penso que o problema vem mais de trás: nas faculdades que formam programadores e web designers, não há uma disciplina ou um módulo relacionado com acessibilidades. Por isso, as pessoas chegam ao mercado de trabalho, começam a aplicar aquilo que aprenderam e, se ninguém os chamar a atenção para a questão das acessibilidades, estas não são tidas em conta", sublinha Fernando.
É preciso começar a aplicar as normas de acessibilidade existentes, mas é igualmente necessário que se compreenda que os cegos também podem utilizar a Internet, e que ela é uma ferramenta que pode lhes facilitar a vida. Como, aliás, a qualquer cidadão...


AGP



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