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Quarta-Feira, 08 Fevereiro 2012 - 22:09 (Açores 21:09)
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União Europeia premeia Aurora de Freitas por ajudar portugueses a permanecer em França

Aos 68 anos, Aurora de Freitas viu reconhecido o trabalho voluntário que realiza há mais de 35 anos. Um trabalho que se tornou mais visível a partir do final de 2004, quando iniciou, sozinha, uma campanha junto dos poderes públicos franceses, para facilitarem a concessão de autorizações de residência a cidadãos portugueses. O reconhecimento chegou com a atribuição do Prémio Mercado Único 2009, instituído pela primeira vez este ano, pela presidência sueca da União Europeia e pela Comissão Europeia, com o objectivo de realçar a importância da livre circulação no mercado interno da UE. O galardão foi entregue no dia 14 de Outubro a esta portuguesa natural de Mujães, Viana do Castelo, residente em França há 41 anos. Aurora de Freitas recebeu o prémio das mãos da ministra do Comércio da Suécia, Ewa Björling, e ouviu daquela governante um elogio que sintetiza todo o trabalho de voluntariado que desenvolve há 35 anos: "O Prémio Mercado Único é concedido a uma cidadã que compreendeu que vale a pena lutar pelos direitos das pessoas no mercado interno"...
Aurora de Freitas revelou a O Emigrante/Mundo Português, o que a leva a ajudar os outros sem esperar nada em troca...


Aurora de Freitas chegou a França a 18 de Maio, o primeiro dia da greve dos transportes de 1968, que parou o país. Não sabia na altura, mas seguiu no último comboio. O marido já teve que pedir ajuda para a ir buscar e ao filho de cinco anos, a Paris. Natural da freguesia de Mujães, concelho de Viana do Castelo, não foram as dificuldades da vida que a levaram a emigrar, mas sim, e espírito de aventura do marido e um pedido do pai.
"O meu pai estava já cá, queria que viéssemos e o meu marido teve sempre a ideia de emigrar. Nessa altura vivíamos em Lisboa. O meu marido veio então para França e eu regressei a Mujães onde estive três anos, até vir ter com ele. Mas sempre com a vontade de irmos para o Canadá", explicou. Acabaram por não poder seguir para o continente americano, e decidiram então rumar à Austrália, juntamente com um primo e dois vizinhos.
"Preparamos toda a documentação, mas quando fomos à embaixada vi uma imagem de uma paisagem onde se via pasto e ovelhas, sem casas. Depois comecei a ver que era muito longe, levaríamos cerca de um mês de barco. Vi que afinal era muito longe. Sou filha única, se os meus pais tivessem um problema, não conseguiria vir a correr. Disse ao meu marido e aos outros que, se quisessem ir para a Austrália, podiam ir todos, mas eu ficava. Não queria ir para longe do meus pais nem ir viver para o meio das ovelhas", recorda com humor.
Decidiram por fim, ficar em França, e ainda residem todos em Vitry sur Seine, vizinhos há 41 anos. Ali nasceu o filho mais novo, actualmente com 38 anos. São ambos engenheiros, assim como a neta mais velha. Um segundo neto, de 23 anos está também a estudar engenharia. O casal tem outro neto, a concluir o 12º ano.

Sem medo

Aurora de Freitas é uma mulher a quem os problemas não metem medo. Provavelmente, porque desde muito cedo teve que aprender a lidar com as dificuldades.
"Eu tenho apenas a quarta classe. Fiz o exame de admissão ao quinto ano, mas o meu pai que estava no Brasil, adoeceu. A minha mãe era comerciante, mas o dinheiro não chegava para continuar a estudar e tive que fazer outra coisa. Fui aprender costura", afirmou. Ensinaram-lhe o básico, e aprendeu o resto da «arte» sozinha. Aos 16 anos comprou uma máquina de costura e começou a trabalhar como modista, a profissão quer a acompanhou durante toda a vida, até à reforma.
"Há dificuldades, mas temos que saber lidar com elas. Temos que pensar em arranjar soluções porque pensar apenas nas dificuldades, trava-nos. E temos é que ir para a frente", sentencia.
Aurora de Freitas vai «para a frente» já há 35 anos, desde que começou o trabalho voluntário, a ajudar mulheres e homens que, como ela, chegavam ao país sem saber uma palavra de francês. "Nos primeiros tempos não consegui fazer nada porque não sabia falar a língua. Quando cheguei cá, não havia senhoras perto de mim. Teve que aprender sozinha a ultrapassar as dificuldades" recorda.
Não pode contar com a ajuda de ninguém, nem mesmo naquele dia em que, no mercado apontava para os produtos que queria, na tentativa de se fazer entender, quando uma portuguesa passou à sua frente, por já saber falar francês. Eram vizinhas em França, como já tinham sido em Portugal, e marcou-a o facto da sua conterrânea não a ter ajudado, preferindo ignorá-la. "Aquilo fez-me muito mal. Não se faz a um compatriota, passar à sua frente, ignorá-lo. Não poderia fazer isso nem a um português nem a outro estrangeiro, e já tenho ido bater à porta de outros estrangeiros a avisá-los sobre compatriotas deles que estão a passar necessidades e a pedir que os ajudem".
Por isso, quando começaram a chegar as mulheres com os filhos para se reunirem aos maridos, Aurora soube que tinha de ajudar os outros.
"Como eu já tinha os meus filhos na escola e compreendia a língua, apoiava os que chegavam. Ajudava a encontrarem casa, às senhoras a arranjarem trabalho, ia inscrever os miúdos às escolas, no abono de família, tratava dos direitos aos subsídios para as rendas de casa. Ia com eles a consultas ao médico e ao consulado para se registarem. Porque as pessoas que não trabalhavam em contacto permanente com os franceses, tinham mais dificuldades em aprender a língua. Ajudei mulheres e homens, portugueses e de outras nacionalidades, muita gente de outros países da Europa", revelou ao Emigrante/Mundo Português.
Escolheu trabalhar como modista em casa, para ficar com os filhos e porque assim podia também gerir o seu tempo para ajudar os outros. "Levantava-me às quatro da manhã e adiantava o trabalho de costura à mão, para não os acordar. Às sete e meia já estava à porta da Caixa (Segurança Social), que só abria às oito e meia, para ser a primeira e voltar cedo para casa, para trabalhar".

"Muito positiva"

Aurora considera-se uma pessoa "muito positiva", uma característica que não sabe bem se é "um defeito ou uma qualidade". "Se um dia tiver o azar de não conseguir aquilo que quero, tenho a impressão de que sentirei um choque maior do que as outras pessoas. Mas vou sempre com a ideia de conseguir", afirma, sublinhando que, acima de tudo, gostava e gosta do que faz.
É com esse espírito que tem ajudado quem lhe aparece à frente, há mais de três décadas. Como uma vizinha portuguesa, que vivia no mesmo prédio. "Um dia passou por mim e disse-me um «bom dia» muito esquisito. Achei aquilo estranho perguntei-lhe se a podia ajudar e respondeu-me que naquele dia, ninguém a podia ajudar", recorda. Acabou por saber que a vizinha tinha recebido uma ordem e despejo e teria que deixar o apartamento naquele mesmo dia. Com a permissão da mulher, telefonou ao proprietário, conseguiu uma reunião e ajudou-a a chegar a um acordo com o dono do apartamento para o pagamento dos alugueres em atraso.
Aurora recorda ainda com especial carinho um caso que lhe apareceu há vários anos, em Dezembro. Através do presidente da Câmara de Vitry sur Seine, teve conhecimento de uma portuguesa a quem o marido morreu tendo ficado, sozinha, a criar os cinco filhos. Com o Natal à porta decidiu movimentar os membros da Associação Cultural, Social e Folclórica Os Minhotos de Viana do Castelo onde é responsável pelo apoio social.
 "Disse-lhes que as pessoas estavam com muitas dificuldades e oferecemos-lhes uma cesta com produtos portugueses, desde bacalhau, vinho, couves, chouriço, etc. Contei esta história a algumas das minhas clientes e as pessoas de imediato contribuíram com dinheiro. Levei-lhe a cesta de Natal e o dinheiro e disse-lhe que com cinco filhos para criar não seria fácil comprar aqueles produtos e não teria tempo para comprar outras coisas. Nunca se deve dizer à pessoa que ela não pode, porque se sente humilhada", contou.
A acção repetiu-se no ano seguinte, mas no terceiro ano, Aurora teve uma surpresa. "Antes de chegar ao Natal, a senhora veio ter comigo e disse-me que já não precisava de nada, mas que estava pronta a ajudar aqueles que eu visse que estivessem em dificuldades, porque nunca se iria esquecer daquilo que fiz. Para mim, a recompensa é essa".
Até hoje mantém contacto com alguns daqueles que ajudou e a sua «rede» de voluntariado ultrapassou à muito a fronteira do município onde reside. E os contactos já não se fazer apenas pessoalmente, porque a acção de Aurora de Freitas acabou por ser conhecida por quem vive mais longe. "Há muita gente que não mora aqui e com quem mantenho contacto, há pessoas que tenho ajudado e moram perto de mim, mas, de há uns anos para cá, tenho dossiers de pessoas que vivem longe. Há muita gente a quem tenho resolvido problemas e que contacto por telefone, via internet e pelo correio", sublinha.
Pessoas que lhe enviam os documentos, a quem ajuda e com quem até hoje não esteve frente-a-frente. "Há muita, muita gente que ajudo e não conheço. Uns falam de mim aos outros, perguntam-me se podem dar o meu número e eu digo que sim, porque se a pessoa está aflita, tem que se lhe valer. Se tivesse problemas, também gostaria que «me deitassem a mão»", acrescenta.
Ainda hoje, as suas viagens a Portugal não são apenas de lazer. Chega sempre "carregada de dossiers sobre várias questões, como as reformas, por exemplo".

Uma campanha vitoriosa

Foi no final de 2004 que iniciou algo que viria a ser fundamental na atribuição do Prémio Mercado Único. A quadra natalícia estava próxima e as pessoas preparavam-se para as compras de Natal, como recordou. "Na altura vi pessoas que tiveram que deixar tudo mais para trás porque a carte de séjour (autorização de residência) tinha caducado. Aquilo fez-me tão mal, que achei que não podia continuar".
Começou então uma campanha para que os portugueses não encontrassem tantas dificuldades na obtenção da autorização de residência. Pediu ajuda ao autarca do seu município, escreveu a presidentes de Câmara e a deputados franceses que fizeram chegar o seu pedido a ministros franceses. E escreveu ainda ao presidente da Comissão Europeia (CE). De Durão Barroso recebeu uma resposta a apoiá-la e a referir que a autorização de residência não era obrigatória.
Aurora de Freitas diz que a resposta do presidente da CE deu-lhe ânimo para levar avante a sua «luta». Documentou-se e resolveu escrever aos jornais a alertar para a situação que estava a afectar os portugueses. "Publiquei a carta em mais de 20 jornais, falei para várias rádios francesas e portuguesas e no dia 28 de Fevereiro de 2005, o jornal «Parisien» veio cá a casa entrevistar-me", recorda.
O artigo foi publicado a 3 de Março, e além das declarações de Aurora divulgou testemunhos de duas portuguesas. "A 6 de Março, o então prefeito do departamento de Val de Marne, Patrice Bergougnoux, informava a todos os portugueses que quisessem renovar a carta de residência, para se apresentarem no edifício da Câmara porque ele iria dar as autorizações necessárias" recorda.
Resolvido o problema na região onde residia, Aurora decidiu apresentá-lo aos demais prefeitos (os coordenadores de cada um dos cem departamentos de França são denominados «prefeitos»), uma tarefa que sabia ser difícil. "Eu batia à porta de quem fosse, não faz sentido ter vergonha de pedir para que outros vivam melhor".
Foi nessa altura que teve conhecimento da existência do SOLVIT França. Criados em 2002 em todos os estados-membros, sob a alçada dos respectivos Ministérios dos Negócios Estrangeiros, os centros SOLVIT funcionam como uma rede que procura resolver os problemas existentes nos países da União Europeia (UE), decorrentes de uma aplicação incorrecta da legislação comunitária por parte das autoridades públicas.
"Tive o SOLVIT de França e o de Portugal do meu lado, e ajudaram-me a resolver o problemas das autorizações de residência", explica. Uma colaboração que se mantém até hoje. A campanha lançada por esta minhota conseguiu finalmente obter o resultado que se pretendia. Com o apoio jurídico do SOLVIT, descobriram o artigo da Lei francesa - o decreto nº 94-211, de 11/03/1994 - o qual estipula que os cidadãos da União Europeia não são obrigados a possuir uma autorização de residência, o que, na prática, implica que podem permanecer em França.
A «recompensa» que nunca pediu, chegou no dia 14 deste mês, quando recebeu, na Suécia, o Prémio Mercado Único 2009. O seu nome tinha sido indicado pelo SOLVIT Portugal, mas Aurora diz que nunca pensou vir a ganhar, até porque, na «recta final», além da portuguesa, concorriam ao galardão, o ministro da Saúde da Eslováquia e o Coordenados da Câmara de Comércio da Áustria. No discurso de atribuição do prémio, disse que aceitava com prazer uma recompensa que nunca pensou que lhe fosse atribuída. Entre as várias mensagens que lhe chegaram destaca a do Presidente da República. Cavaco Silva felicitou-a em seu nome pessoal e dos portugueses, "pela sua acção em prol dos direitos dos cidadãos no mercado interno em geral e, em particular, pela concessão de autorização de residência a portugueses em França", sublinhando que Aurora de Freitas "constitui uma justa vencedora deste prémio, que pela primeira vez é atribuído".
Aurora diz-se sensibilizada com as homenagens e felicitações que recebeu, mas considera mais importante o prazer que sente ao trabalhar como voluntária. "Só peço a Deus que me dê saúde para continuar a fazer aquilo que realmente gosto"...

Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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