Sexta-Feira, 30 Julho 2010 - 07:45 (Açores 06:45)
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Raul Costa: De Lisboa a Lourenço Marques num velho Buick há 56 anos...
Raul da Cunha Costa tinha 27 anos quando viveu a sua grande aventura. A decisão de sair da empresa da família, a ruptura com o pai e a perda do único irmão, foram o ponto de partida para a decisão de deixar a calma da capital e lançar-se na ligação entre Lisboa e Lourenço Marques, actual Maputo, capital de Moçambique. “Tive que vender praticamente tudo o que tinha para juntar algum dinheiro, fiquei apenas com um barco à vela. Foi com uma boa parte desse dinheiro que comprei em 1952, o carro da viagem, um Buick de 1937, que custou na altura, 12 contos”, recorda na entrevista a O Emigrante/Mundo Português. A preparação A compra realizou-se numa oficina de automóveis de um amigo. Raul conta que já tinha em mente fazer a viagem quando adquiriu o carro, apesar de aquele não ser o veículo que pretendia. Mas o dinheiro que tinha, não lhe permitia comprar num carro melhor. “Pensei «já está feito, o carro está comprado, agora é seguir em frente», recorda. Na garagem-oficina do amigo, o velho Buick foi meticulosamente preparado para uma viagem de mais de 16 mil quilómetros. O inusitado da ideia gerou à volta de Raul Costa, uma rede de apoios que o lisboeta iria sentir durante todo o percurso, mas que não esperava encontrar. “A oficina todas as condições para a uma revisão geral que o carro precisava. Como conhecia todas as pessoas, falei sobre a viagem com cada um dos responsáveis, disse que o carro precisava de uma revisão mas expliquei que não tinha dinheiro para pagar o trabalho”, conta. Recorda-se das expressões incrédulas de quem achou a ideia “um pouco maluca” mas recebeu logo o apoio dos mecânicos, que não cobraram o trabalho. Raul Costa tinha apenas que se preocupar com as peças. “A empresa do meu pai trabalhava exactamente de peças para automóveis, mas punha-se o problema da ruptura, que foi contornado com uma conversa com um tio, seu sócio. Ele assumiu que me autorizava a levar da empresa as peças de que precisasse e disse que depois veria como iria pagar a despesa”. Raul só teve conhecimento do custo alto das peças, muito mais tarde, quando também soube que afinal, tinha sido o pai a custeá-las. E assim, o velho Buick passou na oficina, os meses que antecederam a viagem, desde fins de 1952 até 22 de Fevereiro de 1953, dia da largada. Mas já se sabia que dois aventureiros estavam a preparar-se para atravessar África em direcção a Moçambique. Ainda durante o tempo de preparação, o Diário Popular, um dos principais jornais portugueses da altura, começou a publicar o que viria a ser uma série de textos sobre a aventura. “Fizeram a cobertura da partida e publicaram depois várias notícias, uma espécie de diário de bordo, com o relato escrito que eu ia fazendo do percurso e que enviava para Lisboa”, explica Raul Costa que, para além do carro tinha ainda que resolver a questão dos custos do combustível. Apesar de ter recebido da Shell a garantia de apoio, a empresa cumpriu-o apenas até Argel, capital de Marrocos. E até esse apoio, lhe foi tirado. “Quando lá cheguei, os responsáveis locais da gasolineira disseram que não acreditavam no sucesso da viagem e pediram inclusive o pagamento da gasolina gasta até ali. Eu assumi o pagamento, pedi-lhes para me prepararem a factura e fui tratar de arranjar o dinheiro”, conta. Valeu-lhe o barco que ainda possuía e que estava já a vender com a ajuda de um amigo. Ficou em Argel o tempo necessário para receber o valor da venda e pagar não apenas o combustível que devia, mas também os talões da gasolina que iria precisar para trocar durante a viagem. O companheiro de viagem À semelhança de Raul Costa, António Neca também tinha raízes em Serpa. Quando ouviu o amigo falar sobre a viagem, António mostrou-se disponível para o acompanhar mas apresentou-lhe apenas um problema: não tinha dinheiro para repartir as despesas. “Ficou surpreso quando eu lhe disse que também não tinha dinheiro”, recordou Raul. Lançaram-se os dois numa viagem que levava à partida alguns alimentos, água e os mil escudos que António Neca tinha economizado a trabalhar como taxista em Lisboa. Para Raul, o facto do amigo ter bons conhecimentos de mecânica e saber conduzir bem, fazia dele o companheiro ideal. Partiram em frente ao Automóvel Club de Portugal, em Lisboa a 22 de Fevereiro para uma viagem que durou três meses e 19 dias e terminou a 13 de Junho, em Lourenço Marques. Atravessaram o Alentejo e o Algarve, passaram a fronteira para Espanha e seguiram até Marrocos. Ali, depois de resolvida questão do combustível, continuaram África a dentro, até ao destino final. A viagem As dificuldades foram ultrapassadas quase sempre com o apoio dos portugueses que, com surpresa, encontraram nos países por onde passaram. “Em todos os lugares onde passamos, estivemos com portugueses. Depois de termos atravessado o deserto do Saara, assim que entramos na Nigéria, começamos a encontrar portugueses. Na então África Equatorial Francesa (federação de possessões coloniais francesas, incluía os territórios que, com a independência, vieram a ser a República do Congo, Gabão, República Centro-Africana e Chade), no Congo Belga (nome da actual República Democrática do Congo), encontramos portugueses naturais de várias regiões”, destaca. Raul revela que ao saberem sobre o propósito da viagem os compatriotas portugueses chegavam a oferecer dinheiro, “um pouco a medo”, com receio de melindrar os dois companheiros. “Diziam que a nossa viagem era muito dura e ficavam espantados quando lhes explicávamos que não tínhamos nenhum patrocínio”, acrescenta, explicando que estes sabiam que se tratava de portugueses assim que viam o carro, onde estava afixada uma faixa a dizer «Lisboa - Lourenço Marques». Além disso, as notícias publicadas no Diário Popular - baseadas no relato feito por Raul das várias etapas - davam a conhecer também aos portugueses em África, a aventura e o percurso da viagem. “Houve portugueses que vinham ter connosco a dizer: vocês são os tais malucos que estão a fazer a viagem”. Nos relatos Raul fazia questão de referiu os nomes desses portugueses e o apoio que prestaram. Nunca lhes faltou dinheiro para a alimentação e acabaram por ser poucas as vezes que dormiram no carro. “A partir do momento em que começamos a encontrar portugueses, deixamos de dormir no carro e às vezes era difícil decidir em casa de quem dormíamos ou comíamos”, recorda, acrescentando que a meio da viagem já sabiam que se encontrassem algum português na cidade onde estivessem a passar, “atrás daquele viriam outros”. Encontros que ficaram registadas em muitas das fotografias tiradas ao longo da viagem. Imagens que mostram os dois amigos, sempre rodeados por conterrâneos à entrada de uma casa, sentados em baixo de uma árvore ou encostados ao velho e já famoso Buick. Além do apoio, Raul e António receberam também, e com surpresa, ofertas de trabalho. Convites para abandonarem a viagem e se fixarem num determinado país a trabalhar no negócio de um ou outro português. “Diziam-me «Raul, fica aqui mesmo, e o teu companheiro também». Mas eu agradecia e respondia sempre que não, que o meu propósito era terminar a viagem e que nada me impedia de chegar a Lourenço Marques, nem que fosse a pé”. As aventuras Além de vários pneus trocados, Raul e António viam-se às voltas com dois semi-eixos partidos. O primeiro quebrou na antiga África Equatorial Francesa a 4 de Abril, e teve uma solução mais demorada. Foi preciso encontrar um igual, uma tarefa nada fácil na África profunda. Mais uma vez, valeu aos dois amigos, a ajuda de um português, que lhes arranjou a peça necessária e ainda uma outra, de reserva. Juntamente com os dois semi-eixos, esquerdo e direito, Manuel Domingues enviou-lhes uma carta onde referia que tinha mandado «desmontar as peças de um carro idêntico, com tanta sorte que me pareceram iguais, com os respectivos rolamentos e retentores, prontos a serem montados». Raul guarda a carta até hoje. A 30 de Abril, puderam continuar a viagem e a generosidade de Manuel Domingues foi valiosa uma segunda vez, quando, mais tarde partiram o semi-eixo esquerdo. Antes da chegada a Moçambique, ainda teriam outra surpresa. Em Joanesburgo, África do Sul, ficaram sem os documentos, um contratempo que veia atrasar a entrada em Lourenço Marques e do qual Raul Costa só se apercebeu quando chegou à fronteira com Moçambique. “Chegamos a Moçambique no dia 10 de Junho. Mas na fronteira descobrimos que nos haviam roubado todos os documentos em Joanesburgo e tivemos que voltar atrás, para tirar novos passaportes”, recorda. Uma dificuldade que acabou por ser rapidamente ultrapassada graças à ajuda do cônsul português. A chegada Assim, a 13 de Junho de 1953, Raul e António entravam na capital da então colónia de Moçambique. Mas ao contrário do que esperavam, não chegaram sozinhos. Raul recorda o dia da chegada a Lourenço Marques, como “o momento mais surpreendente”, já que os dois amigos não imaginavam que na cidade tivessem tido conhecimento da longa viagem. “Quando atravessamos a fronteira, que fica a cerca de 130 quilómetros de Lourenço Marques, tivemos a primeira surpresa: havia pessoas em carros à nossa espera para nos acompanharem até à capital”, revela, acrescentando que a surpresa aumentou à medida que continuavam o caminho. Porque, afinal, não tinham pessoas à espera apenas na fronteira. Ao longo dos mais de cem quilómetros do percurso, em todos os locais onde passaram, juntavam-se os moradores, à beira da estrada. “Eu já não aguentava mais acenar, doía-me o braço. Além disso, houve carros que vinham de Lourenço Marques e, ao passarem por nós, davam a volta e colocavam-se no final da fila”, conta. Na capital, seguiram até ao campo de futebol para outro «banho» de multidão. “Nós não esperávamos, até porque não tínhamos marcado o dia exacto para a chegada. Acredito que os portugueses que recebiam o jornal terão falado com outros e ficado na expectativa do dia da chegada”. Moçambique marcou os dois amigos, a ponto de decidirem ali viver. Raul tinha amigos na capital, que o acolheram nos primeiros tempos. A noiva, que tinha ficado em Lisboa, acompanhou-o nessa nova «aventura» africana, que acabou por durar pouco tempo. Raul trabalhou com importação de máquinas agrícolas durante dois anos e em 1955 decidiu emigrar para o Brasil. O velho Buick ficou em Moçambique. Raul deu-o ao amigo e companheiro de aventura, porque “tinha bons conhecimentos de mecânica e podia tratar dele”. António permaneceu mais anos em Moçambique, a trabalhar na mesma empresa que Raul. “Mais tarde, escreveu-me a dizer que tinha casado com uma argentina e acabou por também ir viver para o Brasil. Ainda está por lá, mas acabamos por perder o contacto”, lamenta. No Brasil, Raul Costa abriu alguns negócios, viveu nos estados de São Paulo (no sudeste) e Ceará (nordeste do país), antes de se estabelecer com a mulher e os filhos mais a sul, no estado do Paraná. Actualmente, reside num aconchegante hotel à beira de um rio. Mas esta, já foi outra aventura… A PROCURA DE UMA EDITORA Raul Costa quer publicar um livro sobre a viagem... Aos 83 anos, Raul Costa tem ainda um sonho por realizar: a publicação em livro da primeira ligação Lisboa-Lourenço Marques em automóvel. Necessitou de alguns anos para reunir fotos, textos e reavivar memórias. Agora, a história está pronta a publicar. Falta-lhe apenas encontrar um editor que aceite publicar os detalhes de um percurso recheado de aventuras. Raul Costa gostaria de ver o seu livro publicado por uma editora portuguesa e diz que já tem quem faça a distribição da obra no Brasil. Na impossíbilidade de ver o seu livro lançado em Portugal, não põe de parte um convite de alguma editora brasileira. Neste momento, faz contactos e espera poder via a realizar este sonho... Ana Grácio Pinto apinto@mundoportugues.org |
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