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Sábado, 13 Março 2010 - 18:31 (Açores 17:31)
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Aventura em África: Dois portugueses e uma velha Kombi vão até à Gâmbia...

Gonçalo Marques estudou Gestão, Jorge Seada licenciou-se em Economia. Não percebem nada de mecânica de carros, nomeadamente dos segredos de uma Volkswagen Kombi de 1974 na qual pretendem iniciar a 26 de Dezembro, a ligação entre Lisboa e Banjou, na Gâmbia. São a equipa portuguesa do Banjul Challenge, um rali diferente, que dizem ser o oposto do Dakar, não apenas pela ausência de uma estrutura de apoio, mas principalmente, pelo cariz humanitário a que está associado. Vão pela aventura, e pelo prazer de fazer algo de bom pelos outros. E pretendem levar a velhinha Kombi até ao destino final… nem que a tenham que empurrar.

E qual é o plano?
Gonçalo e Jorge vão viajar para Banjul, na Gâmbia, numa velhinha Volkswagen Kombi, também conhecida como «Pão de Forma», com uns carismáticos 35 anos de idade. A viagem terá início em Lisboa, passará por seis países e terá a chegada prevista à Gâmbia a 16 de Janeiro de 2010.
Os dois amigos formam a Uga Tuga Survivors, a equipa portuguesa do Banjul Challenge, uma espécie de rali ao contrário - sem vencedores, nem vencidos - lançado em 2002 pelo inglês Julian Nowwill com o objectivo de provar que pessoas com espírito de aventura, um orçamento limitado, sem equipas de apoio nem tecnologia de topo, podem completar um percurso semelhante ao Lisboa-Dakar.
É um conceito com poucas regras, mas as que foram criadas, têm que ser seguidas à risca: os carros participantes não podem ter um valor comercial acima das 100 libras, e a cada equipa não é permitido gastar mais de 20 libras na sua reparação. No final da viagem, o veículo tem que ser oferecido à organização para ser leiloado e o dinheiro obtido será entregue a duas ONG’s (Organizações Não Governamentais) da Gâmbia – a Associação das Empresas de Turismo de Pequena Dimensão e o Comité Olímpico Nacional da Gâmbia (GNOC). A Kombi portuguesa, assim como o demais carros participantes, ficará a pertencer a quem a adquirir no leilão.

Solidariedade em português

Gonçalo Marques e Jorge Seada conhecem-se há pouco mais de dois anos, uma amizade que nasceu na Thomsom Reuters, empresa onde trabalham. Foi também no escritório que teve início a ideia de participarem no Banjul Challenge. “O Gonçalo, que está destacado no escritório de Madrid, recebeu em Maio um e-mail a referir o projecto e a abertura das inscrições. Por acaso, estava em Lisboa nesse dia, sentado à minha frente, e perguntou-me se queria participar no rali”, explica Jorge Seada a O Emigrante/Mundo Português.
Gonçalo diz que o amigo demorou “pouco mais de um segundo” a responder. Em finais de Junho receberam a resposta e souberam que a inscrição tinha sido aceite. Tanto quanto a perspectiva da aventura, a causa que está associada à viagem foi um factor determinante na decisão de participarem. Tão importante, que resolveram «acrescentar» um outro objectivo, uma «causa» só deles.
“Em Portugal, o nosso objectivo é o de ajudar a «Terra dos Sonhos», uma ONG que realiza os sonhos de crianças com doenças crónicas ou em estado terminal”, explica Gonçalo Marques acrescentando que ambicionam reunir cinco mil euros em fundos. Uma tarefa que se apresentou mais difícil do que estavam à espera, já que a divulgação não tem sido grande e o apoio do meio empresarial não tem correspondido às expectativas.
Gonçalo e Jorge começaram por divulgar a aventura no Banjul Challenge e apoio à «Terra dos Sonhos», na página que criaram na internet (www.ugatuga.com). Ali, explicam como será o percurso, as etapas que vão percorrer e também o que os motivou a participar.
A O Emigrante/Mundo Português, Gonçalo confessa que o que a primeira motivação foi a perspectiva da aventura proporcionada por um rali que “não tem nada a ver com as viagens organizadas” e onde “tudo pode acontecer”.
Mas depois, a componente solidária começou a ganhar mais força. “Sabemos que o carro vai ser leiloado a favor daquelas ONG’s. Nós resolvemos lançar uma campanha em Portugal à volta deste Uga Tuga, para apoiar uma ONG portuguesa e estamos a realizar algumas acções para angariar verbas”, explica.
Jorge acrescenta que a ideia inicial era angariar cinco mil euros, “não só com donativos de amigos e conhecidos, mas também de patrocínios que conseguíssemos junto de empresas”. Entretanto, acabaram por perceber que os amigos ajudam mais facilmente, e que as empresas “envolvem-se mais com projectos como o Dakar”.
Para já, conseguiram angariar donativos junto da Thomson Reuters, através da Thomson que atribuiu mil dólares (cerca de 700 euros) à Terra dos Sonhos, uma verba que os dois amigos já entregaram. Organizaram ainda dois almoços, um no escritório de Madrid e outro em Lisboa. Os colegas almoçaram na empresa e doaram o dinheiro que gastariam. A ideia valeu-lhes 500 euros, valor entregue na totalidade à instituição. “Reunimos 1200 euros, só com estas pequenas iniciativas. Já dará, pelo menos, para a realização do sonho de uma criança”, sublinha Gonçalo.
Jorge diz que também têm realizado acções no sentido de reunirem fundos para a viagem, e, mais uma vez, o apoio de amigos e colegas tem sido fundamental. A ideia mais recente foi a venda de rifas, cerca de cem; cujo prémio é uma máquina Bimbi. O dinheiro angariado vai directamente para ajudar a cobrir os custos da viagem.
 “Nós queremos passar uma imagem de transparência acima de tudo e de que o nosso objectivo não é ganhar dinheiro. Pelo contrário, estamos a oferecer o carro, e queremos apoiar estas instituições. Mas obviamente temos custos, com seguros, vacinas, combustível, os voos de regresso da Gâmbia, etc”, sublinha Gonçalo. Está tudo explicado no site. Ali, e também no Facebook, pode-se acompanhar todos os passos que têm dado, desde o momento em que se tornaram oficialmente participantes do Banjou Challenge. No site, referem a decisão de apoiar a Terra dos Sonhos e deixam o número para quem quiser fazer um donativo directamente para a conta bancária da instituição. E explicam claramente que também estão abertos a apoios ao seu projecto.

Aulas de mecânica

Uma das preocupações da dupla portuguesa, prende-se com a mecânica da velhinha Kombi, algo que praticamente desconhecem. Para a superar, contam com a ajuda preciosa do amigo «Pardal», o mecânico que tem estado a trabalhar gratuitamente no carro e que já lhe prometeu um curso intensivo de mecânica durante um longo dia.
Além disso, têm já muito bem planeada a estratégia de andarem próximos da dupla dinamarquesa que vai fazer o rali e que conheceram em Julho, quando se deslocaram a Plymouth, local da partida oficial do Banjul Challenge. “Estivemos a falar com os dinamarqueses e vimos que as preocupações são as mesmas. A vantagem é que eles são engenheiros mecânicos e um disse que já tinha trabalhado com motores do tipo da Kombi”, sublinha Gonçalo Marques. Uma notícia muito bem recebida pela dupla portuguesa, que está a pensar seriamente «eleger» a equipa dinamarquesa como os companheiro privilegiados de viagem. “Sabemos que o nosso grupo de viagem é muito «internacional», para além dos dinamarqueses, há noruegueses, canadianos, uma dupla de Singapura, uma da Alemanha, entre outros”, revela ainda.
De resto, dizem estar preparados para um percurso que deverá apresentar mais dificuldades no deserto, na Mauritânia onde recomendam que os carros sigam todos juntos, por questões de segurança.
“Cada equipa que assume participar neste desafio, está por sua conta e risco. Fora isso, fazemos um seguro de viagem mais reforçado e teremos atenção ao percurso. Temos também pontos de encontro marcados, o primeiro em Tarifa e depois na Mauritânia. Nestes dois locais, devemos estar todos juntos. Depois, é normal que uns sigam mais rápido que outros”, explica Jorge Seada.
Além disso, dizem-se preparados para empurrar “uma ou outra vez” o carro, que tem já um espaço preparado no tecto para levar os bidões com gasolina. E sublinham que “é preciso ter boa disposição”. Certo é que a velhinha Kombi vai ser a atracção da viagem, até porque será a única no seu género.
Difícil será para Gonçalo dizer adeus ao seu carro.
“Vai ser complicado, é um adeus quase a uma parte da família. Tenho-a desde 1999, já vivi com ela experiências giríssimas, já fiz viagens fantásticas. Mas precisamente por ser parte da família, é que eu não consigo vendê-la. E esta é a situação ideal, porque ao garantir que vai para África, sei que vão ficar com ela, aproveita-la nos próximos anos. Alguém vai estar a usufruir dela”.

Gonçalo Marques
Tem 32 anos, casado, três filhos. Vive em Madrid desde 2007, onde trabalha na Thomson Reuters, visitando regularmente Portugal. É um fã de desportos ao ar livre (snowboard no Invemo e windsurf no Verão) e diz adorar viajar pelo mundo. Gosta de passar o tempo com a família “e de beber umas cervejas com os amigos”.
Afirma que está sempre à procura de um novo desafio e um dos seus sonhos é viver num monte alentejano.

Jorge Seada
Apesar de ter completado recentemente 35 anos, diz que ainda se sente um miúdo.
Trabalha também na Thomson Reuters em Portugal e quando não está a vender serviços financeiros, ouve música brasileira e pensa na sua próxima viagem (escolha difícil para alguém que já visitou mais de 50 países, atravessou a América do Sul de camião, percorreu a maior parte do Sudeste Asiático com uma mochila às costas e escalou o Kilimanjaro).

A «estrela» da equipa
A Volkswagen Kombi desta aventura tem um motor de 1.600 c.c. Tem matrícula de 1974 e tornou-se parte da família de Gonçalo Marques em 1999. Estava preparada para campismo (água, gás, cama e um frigorifico) mas apenas ficou com a cama, para estar o mais leve possível ao atravessar o deserto. Entre outras viagens consideradas “memoráveis”, atravessou a Europa - “chegou mesmo a Itália”, brinca o dono -  viajou para a neve da Serra Nevada, fez algumas caminhadas nos Picos da Europa (Astúrias) e visitou várias vezes a Costa Alentejana. • Em 2004, foi escolhida como o carro oficial do casamento e transportou dignamente a noiva. Está quase preparada para a sua última aventura.


Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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