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Segunda-Feira, 15 Março 2010 - 03:07 (Açores 02:07)
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ANTÓNIO PIRES EUSÉBIO: “É um grande prazer saber que diariamente satisfazemos milhões de consumidores”...

Economista formado pela Universidade Católica Portuguesa, António Pires Eusébio é o herdeiro de uma das mais míticas empresas portuguesas, a Sumol que ao longo de gerações soube criar uma variedade imensa de produtos que souberam sempre seduzir o consumidor. Com a aquisição da Compal juntou dois colossos das bebidas de fruta em Portugal e lança para o futuro as bases de uma empresa que aposta e quer vencer a internacionalização.

A SUMOL empresa histórica em Portugal, herdeira de um dos maiores capitais de simpatia junto dos consumidores, acaba de dar mais um passo ao assumir uma fusão com a COMPAL, também ela reconhecida pela qualidade tanto a nível nacional como internacional. Desta forma a SUMOL+COMPAL sendo uma organização que acaba de nascer, é também uma entidade com mais de 100 anos de história. E isto porque cada uma das empresas que lhe deram origem actuam no mercado há mais de 50 anos. Recorde-se a propósito que a Sumolis nasceu em 1945, a partir de uma  pequena empresa denominada Refrigor, tendo a Compal iniciado a produção em 1952.

E/MP: Qual a responsabilidade que sente por ser o senhor SUMOL, herdeiro de uma tradição tão importante na preferência dos consumidores?
É evidente que há uma responsabilidade grande mas tenho de confessar que é também um motivo de satisfação no dia-a-dia, no fundo é estar à frente de uma empresa que ao longo de décadas tem disponibilizado um conjunto de produtos, começando obviamente pela marca Sumol e mais recentemente também como responsável pela marca Compal. É uma satisfação saber que diariamente milhões de consumidores, têm uma plena satisfação com as nossas marcas na sua alimentação.

Qual é a sua primeira memória da empresa e da sua importância do ponto de vista social?
Tanto no meu caso como dos meus irmãos, desde bastante jovens que começámos a ter uma ligação intensa com a empresa. O meu pai era uma pessoa de grande dinamismo e de grande entusiasmo pela empresa que tinha ajudado a desenvolver, e considerava que podia dar um contributo para o bem-estar e desenvolvimento do país.
Recordo-me de que com os meus nove ou dez anos numas férias de Natal ter estado uns dias na empresa a ajudar na preparação de uma lembranças que na altura se davam aos clientes.
Foi um momento que me marcou bastante, essa primeira presença nas instalações da empresa
Ainda na escola primária recordo a minha professora que sabendo que o meu pai tinha esta relação com a Sumol pediu se seria possível organizar uma visita às instalações. Foi obviamente com bastante orgulho que estabeleci esse contacto e lembro que todos os meus colegas e a própria professora ficaram bastante satisfeitos. Ainda hoje com grande frequência há pessoas que me dizem que quando eram crianças visitaram a Sumol e que guardam uma memória muito positiva dessa visita. Hoje em dia continuamos a promover visitas às nossas instalações e entendo que devemos continuar a faze-lo promovendo o contacto dos jovens com aquilo que é a nossa realidade, desde a transformação de fruta até ao processo de engarrafamento das nossas bebidas.

Formou-se na Católica em economia, onde começou a leccionar, mas rapidamente se dedicou à Refrigor. Foi vocação pessoal ou apelo da família?
Foi uma breve passagem em termos de ensino depois de me licenciar, embora já nessa altura trabalhasse na Refrigor que foi a empresa que deu origem à Sumolis e que mais recentemente originou a Sumol+Compal.
Mas acima de tudo foi sentir que tinha uma formação em economia que fui completando mais na área da gestão, por isso entendi que a minha colaboração podia ser claramente útil no seio daquilo que na altura era o Grupo Sumol.

A Sumol+Compal reportou nos primeiros nove meses deste ano um prejuízo de 1,28 milhões de euros. No ano passado no mesmo período apresentou lucros de 1,71 milhões. A que se devem estes resultados?
A questão é pertinente, mas temos de ter em atenção que não estamos a comparar duas realidades semelhantes.
Os números de 2008 referem-se a um número apurado antes da integração da Sumol com a Compal. É público que a operação de concentração da Sumol+Compal foi feita sem recurso significativo a capitais alheios. Esta passagem de um lucro para um prejuízo traduz apenas um aumento muito grande nos custos financeiros. O que faz sentido é olharmos em primeiro lugar para a evolução em termos de resultados operacionais que tem de ver directamente com aquilo que é o negócio e os resultados operacionais se compararmos os da Sumolis com os da Sumol+Compal mais que duplicaram neste período. Os resultados operacionais da Sumol+Compal foram quase de 15 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, resultado um pouco acima do dobro do resultado apenas da Sumolis em igual período do ano anterior. Toda esta operação, como se calcula implicou um recurso extraordinário a empréstimo bancários que implicam obviamente gastos com juros bastante significativos, e são estes custos financeiros que levaram a que a empresa apresentasse uma situação de prejuízo nos primeiros nove meses do ano. Por outro lado diga-se também que neste mesmo período de tempo a empresa teve custos de diversa natureza relacionados com uma série de reestruturações e que ascenderam a mais de cinco milhões de euros. Ora se nós ajustássemos os resultados divulgados tendo em atenção estes custos não recorrentes, os resultados operacionais passariam dos 15 para os vinte milhões de euros o que faria com que o resultado líquido fosse positivo.

Depois da fusão Sumol e Compal a nova empresa tornou-se um gigante na sua área. Ainda falta alguma coisa ao seu portfólio?
Nós consideramos que a empresa hoje tem um portfólio que corresponde bastante bem às necessidades e expectativas dos consumidores. Preenchemos os vários segmentos destes mercados, desde  dos sumos de fruta, dos refrigerantes com e sem gás, dos sumos aos néctares, às monodoses de fruta como o «Essencial» etc. Estamos também presentes nas colas, nas águas com a “Frize” e com a “Serra da Estrela” e com a “Tagus” no mercado cervejeiro.
Claro que uma empresa como a Sumol+Compal terá sempre de estar atenta às necessidade do mercado, mas de facto a nossa maior preocupação vai agora para a consolidação daquilo que temos, sobretudo de implantar no mercado português esta nova realidade Sumol+Compal e depois a internacionalização que muito embora seja um caminho que temos seguido ao longo dos últimos anos, pretendemos que venha a ter na facturação da empresa um peso ainda maior.

A Sumol+Compal tem como aposta forte no curto prazo o desenvolvimento da área internacional do seu negócio. Os países de forte presença portuguesa vão ser um dos pilares dessa estratégia?
Os países onde há fortes comunidades portuguesas têm sido desde sempre uma componente muito importante da estratégia de internacionalização da Sumol+Compal, tanto na Europa onde naturalmente se destacam a França, a Suíça, o Luxemburgo, assim como também nos Estados Unidos e Canadá. A prova de aposta continuada neste mercado é o facto de muito em breve virmos a ter um colaborador em França para acompanhamento dos nossos distribuidores e dos nossos consumidores.

Em percentagem qual é a paridade das vendas entre Portugal e Estrangeiro?

Os mercados internacionais representam 17 por cento do volume de negócio da Sumol+Compal. Se fizermos as mesmas contas mas para as marcas trabalhadas no estrangeiro, nomeadamente as marcas Sumol e Compal aí a facturação no estrangeiro é claramente superior situando-se acima dos trinta por cento para a Sumol, e acima dos quarenta para a Compal, o que em termos de produtos de grande consumo na área das bebidas é bastante bom.

Confirma-se o início da produção local em Angola já para 2011?

Temos o projecto em curso e é já do domínio público que aponta para o segundo semestre de 2011 para começar a ter produção local. No entanto tanto a marca Sumol como Compal (na área dos sumos e néctares  é líder de mercado em Angola) têm já uma presença significativa no mercado angolano.
Ao começar a produzir localmente a operação passa a ser mais competitiva nomeadamente na área dos refrigerantes onde os nossos maiores concorrentes têm produção local e também na área dos sumos e néctares onde alguns também já produzem localmente.

Já existe produção local noutros países?
A marca Sumol já vem fazendo alguma coisa em França, com a subcontratação do embalamento das garrafas “pet” de litro e meio, não é  uma unidade fabril da Sumol+Compal mas é uma unidade onde se produz Sumol. Os concentrados saem de Portugal e depois localmente faz-se  a adição de água e o respectivo embalamento.

Qual a importância que dá ao SISAB no contexto do apoio à internacionalização da Sumol+Compal?
O SISAB é um acontecimento único em Portugal. Aí podemos encontrar muitas empresas das comunidades portuguesas, mas também muitas outras de variados mercados mundiais. O SISAB tem um papel muito meritório e do qual têm beneficiado muitas empresas portuguesas ao longo dos muitos anos que o evento já leva. Pela parte da Sumol+Compal temos estado presentes e em 2010 não deixaremos de estar também.

A Sumol tem algum projecto de Responsabilidade Social?
Desde cedo que as empresas do universo Sumol+Compal incorporaram práticas de Responsabilidade Social, tanto em relação aos seus próprios colaboradores, como em relação às comunidades que lhe estão mais próximas.
Logo a partir do inicio dos anos 70 as várias instalações da empresa foram dotadas de refeitórios, numa altura em que essa prática não era habitual, também na área da saúde a criação de postos médicos oferecendo serviços muito para além daquilo que é obrigatório por lei. Recordo que a empresa chegou a ter uma creche para os trabalhadores e há mais de vinte anos que foi criado um fundo de pensões com o objectivo de poder prestar complementos de pensão aos seus colaboradores.
Relativamente à comunidade estamos sempre atentos às necessidades nomeadamente na distribuição de produtos que, muito embora tenham diminuído o seu valor comercial continuam a ter um valor social importante. Hoje em dia as empresas de bebidas têm produtos que já não entram no circuito comercial, porque têm um prazo de validade já baixo, no entanto esse mesmo produto tem ainda um importante valor social, dado que pode ser imediatamente consumido dentro de todas as condições de qualidade em variados eventos de natureza social. No caso da água da Serra da Estrela, já há uns anos que tem vindo a desenvolver uma campanha de reflorestamento através da plantação de novas árvores. É uma forma de preservar a natureza e retribuir socialmente a exploração da água cuja qualidade depende do cuidado posto também no uso de recursos na nossa natureza.

Considera o TGV uma obra prioritária em Portugal?
Não considero que seja uma obra prioritária. O investimento público é importante em determinados períodos da vida de um país na medida em que contribui para a criação de emprego, mas pessoalmente tenho dúvidas que o TGV seja o investimento mais necessário neste momento. Para não sair desta área penso que o país poderia beneficiar mais se se desenvolvesse o transporte de mercadorias por via férrea, que traria implicitamente um aumento de produtividade das empresas e o melhoramento ambiental com a retirada de tráfego das estradas.
Lisboa e Porto carecem de um investimento na melhoria dos transportes públicos, e penso que esse investimento é mais relevante do que o TGV, pelo menos entre Lisboa e Porto.

Em sua opinião que solução para o futuro aeroporto? Portela? Alcochete? Ou Portela+Alcochete?

A manutenção dos dois aeroportos do ponto de vista económico fará pouco sentido. Deverá avaliar-se até que ponto a Portela pode continuar a servir e então sim deverá fazer-se a passagem para Alcochete quando o potencial da Portela estiver de facto esgotado.

Apesar da crise como gestor já vê “luz ao fundo do túnel”?
Considero-me uma pessoa razoavelmente optimista, vivemos tempos difíceis e muito exigentes, e iremos certamente continuar a ter condições para aumentar o nível de riqueza do nosso pais e o nível de vida da nossa população, mas para ultrapassar esta situação há que fazer um esforço intenso no país todo e estarmos preparados para os sacrifícios necessários.

QUEM É...
ANTÓNIO SÉRGIO BRITO PIRES EUSÉBIO, nasceu em 1966, em Lisboa. Casado, tem dois filhos e uma filha. Ingressou no Grupo Sumol em 1989, tendo durante um ano acumulado com a função de Assistente Estagiário da Universidade Católica Portuguesa.
No Grupo Sumol começou por exercer a função de adjunto da Gerência da Refrigor (empresa holding), tendo posteriormente exercido diversos cargos de Administração em empresas do Grupo e assumido o cargo de Presidente do Conselho de Administração da Sumolis em Abril de 2000.
É licenciado em Economia pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) e Mestre em Gestão de Empresas pela Universidade Nova de Lisboa (UNL). Frequentou posteriormente pós-graduações no Instituto para o Desenvolvimento da Gestão Empresarial/Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (INDEG/ISCTE) e na UCP, nas áreas da formação avançada em gestão empresarial, gestão de informação e em fiscalidade.

José Manuel Duarte
jduarte@mundoportugues.org
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