Quinta-Feira, 18 Março 2010 - 02:56 (Açores 01:56)
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Projecto criado por Maria da Conceição mudou a vida a 600 crianças no Bangladesh
“O projecto começou em 2005 com 39 crianças que vivem nos «slums», as favelas dos arredores de Daca. Hoje em dia, estou a tentar mudar a vida das 600 crianças que já tenho a meu cargo”, contou Maria da Conceição a O Emigrante/Mundo Português. As crianças, que trata por «filhos», nasceram no Bangladesh, país com uma das maiores taxas de desnutrição infantil do mundo e mudaram radicalmente a vida desta portuguesa natural de Vila Franca de Xira. Em Novembro, viu o trabalho que desenvolve através do Projecto Daca, ser mais uma vez reconhecido: Maria, de 32 anos, foi a vencedora do prémio Mulher do Ano, atribuído nos Emirados Árabes Unidos…
O Dhaka Project (Projecto Daca) nasceu com o objectivo de ajudar a quebrar o ciclo de pobreza nos bairros de lata da capital de Bangladesh, através do desenvolvimento social e educacional da comunidade, nomeadamente das crianças. Foca-se em transmitir aptidões aos adultos, homens e mulheres, enquanto tira as suas crianças das ruas e das fábricas de têxteis para lhes dar educação escolar a tempo inteiro. Assistente de bordo da Emirates Airlines, Maria, que reside há seis anos no Dubai, tomou conhecimento da dura realidade dos moradores dos bairros pobres em Abril de 2005, durante uma escala de 24 horas que fez em Daca. Para passar o tempo, resolveu sair do hotel para conhecer a cidade. “Perguntei na recepção quais os pontos turísticos que poderia visitar e ficaram espantados a olhar para mim. Disseram-me que era perigoso sair sozinha”, recorda a O Emigrante/Mundo Português. Decidiu arriscar, estendeu o passeio às redondezas da cidade e descobriu que os subúrbios de Daca eram constituídos por bairros de lata. O que viu, impressionou-a a ponto de mudar a sua vida. “Fiquei muito chocada com a pobreza que vi em Daca e revolvi que tinha que ajudar os mais pobres”, conta, lembrando que o Bangladesh tem uma das maiores taxas de desnutrição infantil do mundo. Voltou um mês depois para distribuir roupas e cobertores que recolheu no Dubai e ficar durante os dias de férias que tinha tirado. Procurou os orfanatos para oferecer ajuda, mas percebeu que ali a crianças eram amparadas e voltou a atenção para aquelas que andavam pelas ruas a pedir ou a vender pequenas coisas. Seguiu-as até ao bairro de lata onde moravam e decidiu tentar convencer os pais a colocá-las numa escola. “Havia muita desconfiança, foi difícil convencer pessoas que não estão acostumadas a ser alvo de atenção nem a receber ajuda”, recorda. Mas acabou por conseguir, com a ajuda de quatro voluntários, que viviam perto do bairro. Foi o início do Projecto Daca. Começou por apoiar 39 crianças, que foram inscritas numa escola privada. Mas algum tempo depois, Maria descobriu que, por serem pobres, recebiam um tratamento diferente dos outros alunos e que “a educação não era melhor”. “Chateei-me, até porque o director da escola queria receber mais dinheiro para aceitá-las no ano lectivo seguinte. Decidi tirá-las de lá e abrir a minha própria escola”, conta. A escola abriu apenas com duas salas no coração de Gawair, um dos bairros de lata dos arredores da cidade. O projecto que se iniciou com cerca de quatro dezenas de crianças, oferece hoje acolhimento, comida, roupa e educação a 600 meninos e meninas da região. “Muita persistência” Maria confessa que no início, chegou a pensar desistir, por causa das dificuldades enfrentadas pelo projecto - registado como uma organização sem fins lucrativos. O Governo do Bangladesh ainda cria alguns entraves ao trabalho desenvolvido e até hoje, apesar de trabalhar no país há quase cinco anos, ainda tem dificuldades em obter o visto. “O Governo do país está habituado à pobreza, ela não é uma prioridade”, lamenta. “Muitas vezes pensei em desistir, mas quando olhava nos olhos daquelas crianças e via a vida tão dura que elas e as famílias levavam, não conseguia”, sublinha. E diz que “com muita persistência” e a ajuda dos funcionários, voluntários e patrocinadores, tem conseguido superar as dificuldades. Quando não está a trabalhar, Maria vai para Daca. Não se pode ainda permitir ao «luxo» de deixar o emprego, mas como a capital do Bangladesh dista apenas quatro horas do Dubai, pode ir e vir no mesmo dia. “Há quatro voos diários, por isso posso ir de manhã e voltar à noite. Pelo meio, estou lá quase 12 horas e há muito trabalho que se pode fazer durante esse tempo”, explica. Não é raro levar donativos quando viaja, já que a maior parte é recolhida no Dubai. Mas orgulha-se de receber também apoios, seja em géneros ou em dinheiro, de muitos portugueses. Os compatriotas não se ficam pelo apoio material e oferecem-se como voluntários por um período de tempo. “Neste momento estão cá dois a fazer voluntariado e no Verão estiveram outros dois”, acrescenta. O Projecto Daca já recebeu a ajuda de voluntário de vários países, muitos dos quais ocupam o seu tempo de férias a ajudar a organização. A realidade que encontram é algo a que se têm que adaptar e alguns ficam profundamente chocados com o cenário que encontram. “Há voluntários que quando iam aos bairros de lata choravam, mas eu não. Há muita pobreza, muitos problemas, mas temos que concentrar as força na resolução desses problemas”, sublinha Maria, que acreditar que, na zona onde se desenvolve o projecto “vai-se quebrar o ciclo da pobreza”. Ao longo de quatro anos, o projecto desenvolveu-se. A pequena escola inicial cresceu e alberga também uma creche, uma pré-escola, e uma escola primária. Além da sua educação, oferece às crianças refeições diárias, cuidados médicos e dentários, uniformes escolares incluindo sapatos, material escolar, lanternas eléctricas (para as crianças poderem estudar em casa já que os cortes de energia que são muito frequentes em Daca). Distribui também camas e lençóis, utensílios de cozinha, redes mosquiteiras, cobertores, almofadas, entre muitos outros bens necessários. Já foram vacinadas centenas de crianças contra a Hepatite B, Febre Tifóide, Sarampo e Poliomielite. O projecto também dá alojamento a famílias de crianças oriundas dos bairros de lata, quando estas se tornam a fonte de rendimento familiar, por os pais estarem doentes. Maria gostaria ainda de abrir novas escolas, pois são muitas as crianças na lista de espera. Para tal, o Projecto Daca precisa de adquirir um terreno e construir escolas de raiz, para deixar de depender de rendas e das constantes flutuações de preço. Mas este é um passo que ainda não conseguiu dar, já que o projecto vive de patrocínios e donativos e estes, não chegam para tudo. Projecto Catalyst No final de 2008, com o Daca já bem estruturado, um patrocínio da Emirates Foundation para os próximos cinco anos e um importante apoio negociado com a Dubai Cares, Maria entregou a gestão do projecto à Rural Services Foundation, uma organização local, que o administra desde então, mas sempre sob a sua supervisão. E partiu para outra «aventura» humanitária. Chama-se Projecto Catalyst e funciona em Gawair desde o final de Julho. A educação é também a palavra-chave, mas os destinatários são os adultos. Maria sabe que para ajudar as crianças não pode esquecer os pais, por isso este novo projecto centra-se no apoio aos adultos através da formação profissional, nomeadamente no ensino da língua inglesa. Já apoia cerca de 60 pais que, ao ganharem novos conhecimentos, podem vir a conseguir melhores empregos. No âmbito do projecto há ainda uma escola de condução e para além de aprenderem a dirigir, recebem formação em várias áreas, já que Maria pretende que funcione como uma fonte de recrutamento de pessoal no Bangladesh. O prémio Mulher do Ano, que recebeu no passado dia 17 de Novembro, nos Emirados Árabes Unidos, foi uma grande surpresa, apesar de não ser o primeiro. Em 2007, Maria venceu a categoria de «Mulheres Excepcionalmente Inovadoras e Criativas» dos prémios da Rede de Mulheres Inovadoras e Inventoras, concedidos pela União Europeia. Acredita que este galardão vai trazer “mais visibilidade, mais voluntários e mais patrocínios” aos seus dois projectos. Enquanto isso, não pára. No dia 18 de Novembro, apanhou o primeiro avião para Daca. Na bagagem, levava mais de uma centena de quilos de donativos, entre roupas, brinquedos, sapatos, toalhas, lençóis, fraldas descartáveis e leite em pó, recolhidos através de um movimento iniciado por uma colega da Emirates Airlines. Mas Maria não quer ficar pelo Bangladesh. Gostaria que a sua próxima «aventura» passasse pelo Rio de Janeiro, Brasil, onde pretende via a “abrir um orfanato” para trabalhar com as crianças das favelas. Quanto a Portugal, diz que gostaria de desenvolver por cá algum projecto. Mas engana-se quem pensar que seriam as crianças o seu público-alvo. No país que a viu nascer e onde regressa sempre que pode para matar as saudades e estar com a família, Maria gostaria de dinamizar um projecto direccionado aos idosos. “Penso naqueles idosos que recebem reformas tão pequenas e passam dificuldades. Gostaria de desenvolver um trabalho que viesse a dar-lhes mais qualidade de vida”, revela. PROJECTOS PRECISAM DE DONATIVOS E PATROCÍNIOS Para mantê-los em funcionamento e alcançar as metas a que se propõem, os projectos têm uma necessidade constante de donativos e patrocínios. “Os donativos ajudam-nos realmente a impulsionar o projecto para a frente, mas é essencial para nós termos patrocínios para assegurar entradas mensais que cubram as despesas”, explica Maria da Conceição na página do Projecto Daca na internet. Maria sublinha que cada doação será “muito apreciada”, principalmente com a proximidade da quadra natalícia, um momento “de dar e de pensar nas pessoas menos afortunadas neste mundo”. O blog http://catalystorg.blogspot.com/ disponibiliza as informações necessárias para quem quiser fazer uma doação ao Projecto Catalyst. Quanto ao Projecto Daca, as informações podem ser obtidas em http://thedhakaprojectpt.blogspot.com/ e http://www.thedhakaproject.org Ana Grácio Pinto apinto@mundoportugues.org |
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