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Haiti/Sismo: O diplomata que encontrou os portugueses…

Mário Gomes chegou a Port-au-Prince com a missão de encontrar os portugueses residentes no Haiti aquando do terramoto. Chegou a dormir ao relento, usando uma caixa de cartão como colchão, um pedaço de esferovite como almofada e abrigando-se do frio com uma folha de alumínio.

Quem passasse no jardim do centro de coordenação da ONU (OSOCC) não imaginaria que aquele «sem-abrigo» era o número dois da embaixada portuguesa em Havana, enviado pelo Governo português com a missão de descobrir onde estavam todos os portugueses e dar auxílio aos necessitados.

Mário Gomes foi o recurso da diplomacia, sem representação permanente no Haiti. "Não conseguíamos encontrar os portugueses e o nosso nível de ansiedade e preocupação foi aumentando", recordou à Agência Lusa o primeiro secretário da embaixada de Portugal em Havana.

A solução era ter um homem rapidamente no terreno e Mário Gomes aceitou o desafio, revelando-se um operacional eficaz. Aterrou às 7h00 da manhã" em Port-au-Prince, à boleia no avião fretado pela cadeia norte-americana CBS News. "Assim também poupei dinheiro ao Governo português", diz, sorrindo.

Para trás deixou a mala de viagem e levou apenas uma mochila às costas com pouca roupa e um documento essencial: a folha de papel A4 com os nomes e dados dos 14 portugueses identificados, até então, como estando a viver no país no momento do sismo.

Na lista havia casos difíceis de deslindar, como o do rapaz de quem se sabia apenas o nome da rua onde morava e que viveria em casa da namorada. "Tinha a informação de que estava na Delmas 38. Andei à procura numa ruela de terra batida, acompanhado por elementos da embaixada espanhola", revelou à Lusa. Foram precisas duas horas, batendo de porta em porta, escoltado por um segurança "devidamente armado", para conseguir encontrar o português.

Ao final do dia orgulhava-se de ter conseguido retirar todos os portugueses que quiseram sair do país. E, ainda na sexta-feira, fez contactos para que o dono da "padaria mais conceituada de Port-au-Prince", que tinha partido a perna, fosse operado no Hospital Militar Argentino.

No meio desta azáfama, a estada acabou por ser tudo menos confortável. Logo no início, valeu-lhe a solidariedade dos espanhóis, que lhe cederam uma lata de ração de combate, e o apoio do Batalhão do Uruguai, que lhe dispensou um colchão e uma manta, "num espaço que tinha um tecto improvisado". Nesse dia, conta, até teve direito a um "luxo": "Permiti-me a tomar um banho de água quente", lembra.

Depois disso, as condições pioraram. Com a chegada da equipa de salvamento do Uruguai, teve de abandonar as instalações. "Mudei-me para o jardim em frente ao OSOCC, organização da ONU responsável pela coordenação dos serviços de apoio local. Montei um acampamento com o mínimo de condições, aproveitando as coisas que ia encontrando", diz.

Espalmou uma caixa de cartão que fez as vezes de colchão, "para não ter de dormir directamente na relva", e os espanhóis emprestaram-lhe uma cobertura que parecia uma folha de alumínio, mas era "óptima porque mantinha a temperatura". "Numa cidade destruída e conhecida pela elevada violência, Mário Gomes não teve qualquer receio de dormir na rua. "O ambiente era de grande irmandade. Todas as pessoas estavam imbuídas com o espírito da missão: ajudar o próximo", relata.

Depois de encontrar os portugueses, seguia-se a segunda parte da missão atribuída pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) ao número dois da embaixada: avaliar no terreno as necessidades e segurança para a equipa de ajuda humanitária portuguesa que estava a caminho do Haiti.

Quis receber a comitiva mas, num país com comunicações muito deficientes, acabou por passar dois dias ao sol na placa do aeroporto. "Tinha de solicitar ajuda para aceder à Internet, para falar com o MNE, e tinha que ser muito rápido para não prejudicar o trabalho dos outros".

Foi assim que soube que o voo tivera um problema a meio da viagem que obrigara ao regresso a Lisboa. No fim-de-semana poderia ter regressado a Havana com o sentimento de missão cumprida, mas acabou por ficar e ser de grande utilidade. Graças também a Mário Gomes, o jornalista português ferido numa das réplicas do sismo foi atendido mais rapidamente e transferido para casa.

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