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CulturaBES ART: Uma das maiores colecções de fotografia da Europa está em PortugalSegunda-Feira, 08 Fevereiro de 2010
A BES Art não pode ser analisada apenas como a colecção de fotografias do Banco Espírito Santo. Sediada e em exposição no espaço BES Arte & Finança, em Lisboa, começou em 2004 com quatro obras de renomados artistas estrangeiros que Alexandra Fonseca Pinho, curadora da colecção e directora do BES Art, sublinha terem sido fundamentais para estabelecer a estrutura da colecção que se ia iniciar. Actualmente o espólio reúne mais de 600 obras de cerca de 200 artistas, um terço portugueses, sendo considerada a mais importante da Península Ibérica e uma das mais conceituadas a nível europeu. O BES Arte & Finança, está implantado no centro de Lisboa, na rotunda do Marquês de Pombal, num edifício que reúne vários conceitos - arte, cultura, lazer e finanças. Ex-libris daquele espaço, a galeria BES Art alberga a colecção e o arquivo de fotografias do BES. A entrada é gratuita e quem por lá passa talvez não saiba que está a visitar parte do espólio de uma das mais conceituadas colecções de fotografia contemporânea da Europa. Um espólio que começou a ser constituído em 2004, pela curadora Alexandra Pinho, com a aquisição de uma caixa de luz de Jeff Wall, um auto-retrato de Cindy Sherman, uma vista de Shanghai de Thomas Struth e uma biblioteca de Candida Höffer. Os trabalhos destes quatro renomados artistas estrangeiros, estabeleceram a estrutura de uma colecção contemporânea (as obras adquiridas são sobretudo posteriores a 2000) a que se foram juntando obras de artistas portugueses reconhecidos internacionalmente, e ainda novos valores. Pelo caminho, tem cumprido com sucesso vários objectivos, nomeadamente apresentar a fotografia contemporânea como uma importante forma de expressão artística e divulgar os trabalhos de artistas portugueses, como refere Alexandra Pinho, em entrevista a O Emigrante/Mundo Português. De que forma teve início a colecção? Qual foi o objectivo? A colecção começou em 2004, mas antes disso já o banco tinha começado a apoiar iniciativas ligadas à fotografia. A decisão foi do presidente do Conselho Executivo, Dr. Ricardo Salgado, e a ideia foi apoiada pelo Departamento de Comunicação, porque eles perceberam que era uma óptima forma de comunicar, através da arte, de estar próximo das pessoas e ao mesmo tempo trazê-las a espaços diferentes. E pelo apoio à arte portuguesa, aos artistas, a todo o circuito comercial das galerias e à internacionalização dos artistas portugueses. Por outro lado, não quisemos colocar os artistas nacionais numa colecção portuguesa, mas que, por direito próprio, estivessem numa colecção de nível mundial. E esta colecção tem os maiores nomes da fotografia a nível mundial. E os portugueses que a integram estão cá porque são bons. Queríamos também provar que existem artistas portugueses de nível mundial. Porquê a aposta na fotografia? Já é vista como uma forma de arte? A ideia do banco foi especializa-se, até para poder fazer um trabalho mais profundo e apoiar um determinado género de arte. Mas foi também escolher uma arte que não fosse elitista, em que as pessoas pudessem sentir-se mais próximas daquilo que estivessem a ver. Nem todos nós fazemos esculturas ou pintamos, mas todos tiram fotografias. Há uma proximidade das pessoas à fotografia. Por outro lado, há também um carácter educativo, ou seja, trazer as pessoas da fotografia tradicional para a fotografia mais artística. Não nos ficamos apenas pelo fotojornalismo, procuramos ir mais além e mostrar a fotografia, como arte. Isto permitiu-nos dar a conhecer o trabalho de mais artistas, porque podemos ir buscar artistas de vários géneros, enquanto que se fossemos para a pintura, por exemplo, iríamos só reunir trabalhos de pintores. Começou a colecção com artistas nacionais? Não, iniciamos pelos maiores artistas mundiais, exactamente para estabelecer a estrutura da colecção. E depois fomos juntando os artistas portugueses que achamos interessante termos na colecção. Qual é o espólio da colecção? A colecção reúne cerca de 200 artistas, sendo um terço portugueses e dois terços estrangeiros, e mais de 600 obras. São obras baseadas na fotografia, mas que podem muitas vezes não ser apenas uma fotografia e ter fotografia e desenho, ou fotografia e pintura, podem ser instalações, esculturas, mas que tenham sempre uma base fotográfica. Tendo em conta o pouco tempo desta colecção, ela é já vastíssima. Em termos de fotografia contemporânea, é uma colecção conhecida a nível mundial. E com esta especificidade, é a única em Portugal. Há fotografias nesta colecção que considera «especiais»? Para mim, as obras são um pouco como filhos, fui eu que as escolhi e tenho por todas o mesmo afecto. São obras completamente diferentes, mas tenho com todas uma relação muito directa. No processo de escolha vejo muitas obras de um artista. E quando opto por uma determinada obra, é a pensar por um lado que é suficientemente específica do trabalho daquele artista para poder exemplificar o que ele faz, mas que ao mesmo tempo tem algo de especial. A colecção tem que ter uma alma e acaba por ter a sua própria estrutura. Às tantas, já é a própria colecção que determina quais as obras que vão entrar. Nesta colecção tentamos cobrir o máximo de artistas e por isso, não temos grandes séries de um determinado artista. Temos uma ou duas obras por artista, exactamente para apresentarmos um olhar mais diversificado. Quem quiser aprofundar o conhecimento do trabalho de um determinado artistas, terá a ocasião depois de o fazer por si próprio. Além disso, a ideia foi trazer para Portugal obras de um nível mundial que o público português não teria oportunidade de ver. A colecção divulga apenas a fotografia contemporânea. Porquê? Estamos no século XXI e se tentássemos fazer uma colecção histórica, nunca mais teríamos uma colecção contemporânea, porque estaríamos sempre a andar para traz. E temos que assumir que em Portugal, nem em todos os anos se fizeram colecções. E o melhor é andar daqui para a frente em vez de estarmos a trabalhar sobre o passado. Mas também existem aspectos práticos: enquanto as obras recentes estão disponíveis, as mais antigas, só em leilões a preços muito superiores. E se o artista já morreu e acontece alguma coisa à obra, não há como a arranjar. Os artistas estrangeiros mostraram-se sempre acessíveis quanto à perspectiva de terem uma obra sua em Portugal? Hoje em dia os artistas têm grande interesse em estar na colecção. No princípio foi mais difícil. Convencer artistas mundialmente conhecidos, acerca da importância de estarem presentes numa colecção em Portugal, não era óbvio. Mas agora acham tanta graça… Se calhar até o facto de sermos um país mais periférico, desperta mais neles maior interesse, do que se fôssemos a décima colecção inglesa ou americana. Em relação aos artistas nacionais, há a preocupação de dar a conhecer os novos valores da fotografia portuguesa? Ana Grácio PintoHá, mas não apenas isso. Temos artistas consagrados como Helena Almeida, Jorge Molder, Pedro Cabrita Reis e simultaneamente, temos artistas muito jovens, com 20 e poucos anos. Mas tentamos não ser paternalistas, se forem bons queremos que estejam na colecção. Porque é um incentivo para eles e para o seu curriculum estarem nesta colecção. Os prémios BES Photo e BES Revelação e o concurso «Um certo Olhar» são outra forma do BES Art apoiar esta forma de expressão artística? «Um certo Olhar» era voltado para fotógrafos amadores. Os outros dois têm a ver com a fotografia artística. O BES Photo dirige-se a artistas já conhecidos, residentes no país, e é baseado nas exposições feitas em Portugal no ano anterior. Um júri nacional escolhe no máximo quatro artistas, que considera terem sido aqueles que fizeram as melhores exposições. Esses artistas são convidados a fazer uma exposição no Museu Berardo, na qual cada um apresenta uma série que se pretende seja recente e com bastantes obras inéditas. Depois, um segundo júri, integrado por especialistas nacionais e internacionais, escolhe o que irá ganhar o Prémio BES Photo, um galardão bastante importante a nível monetário. O BES Revelação destina-se aos jovens artistas, numa parceria com o Museu Serralves. Os artistas enviam um portfolio para ser analisado por um júri que vai escolher quem ganha o prémio. Os três ou quatro artistas escolhidos para a exposição, são aqueles que ganharam o prémio. Fazem uma exposição no Museu Serralves e é-lhes paga a promoção do projecto que apresentaram a concurso. Esta é uma outra função do BES, na área da responsabilidade social: o apoio às iniciativas dos jovens artistas e o reconhecimento dos artistas mais velhos. E é muito importante a presença nos júris, de curadores estrangeiros. Porque ficam a conhecer as obras dos artistas e quando estão a organizar exposições, lembram-se dos que viram cá e convidam-nos. A colecção do BES Art é conhecida e conceituada a nível internacional. Há pedidos, fora do circuito das colecções de empresas, para a presença de obras do BES Art em exposições internacionais? Temos bastantes solicitações de museus no estrangeiro para emprestarmos obras e emprestamos muitas. Temos muitas obras únicas, porque muitas vezes os artistas trabalham com provas únicas. E temos sempre a preocupação de que o artista saiba que a obra que adquirimos, está sempre á sua disposição para integrar uma exposição sobre ele. Além disso, organizamos em 2009 uma exposição na Venezuela através do BES Florida e o BES Angola patrocinou naquele país a primeira exposição da fotografia angolana. Depois, em Lisboa, através do World Press Photo, foi feita uma exposição de fotógrafos angolanos. Na Polónia e nos Estados Unidos, as delegações do Banco Espírito Santo Investimentos pediram-nos para ajudarmos a escolher obras, e, aí realizamos parcerias, uma parte das obras eram de artistas portugueses, a outra de artistas desses países. Paralelamente, também já levamos a exposição BES Photo a Madrid. E depois, temos variadíssimos museus que nos pedem obras. Neste momento temos uma obra exposta em Barcelona, que já esteve na Tate Modern, em Londres, vai para o Metropolitan Museum, em Nova Iorque, e depois segue para o Museu de Los Angeles. Volta a Portugal dentro de dois anos. Tivemos outra obra na Tate, que foi depois para Munique, e temos uma que vai agora para Itália. Ultimamente recebido várias solicitações de galerias para emprestarmos obras. Além disso, recebemos muitas visitas grupos internacionais à colecção, em Lisboa. Já estiveram cá os coleccionadores do MoMa (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque), da Fundação Guerlain, do MoMa de São Francisco, entre outros. Vários comissários europeus quando vêm a Portugal pedem para visitar a colecção, para além de muitos artistas e curadores internacionais. Como reage o público em geral à exposição? Sinto que é algo que tem vindo a crescer. O facto de termos este espaço, onde podem vir à agência bancária ou à agência de viagens, e no meio, podem ver uma exposição, deixa-os menos inibidos e mais interessados. Está sempre uma pessoa à entrada que dá informações, fazemos visitas guiadas, de vez em quando organizamos workshops de fotografia contemporânea. Realizamos uma série de actividade para deixarmos as pessoas mais à vontade neste espaço. E quando chega alguém, estamos sempre disponíveis para mostrar o acervo. O que representa para si a fotografia? Sempre gostei de fotografia. Pelo facto de ser uma coisa tão directa, é estranho que se consiga fazer mais do que é expectável. Maravilha-me aquilo que uma pessoa pode fazer através de algo mecânico. O gosto e o olhar de quem tira uma fotografia, treinam-se. E o nosso olhar altera-se perante uma imagem. apinto@mundoportugues.org |
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