Quarta-Feira, 08 Fevereiro 2012 - 23:35 (Açores 22:35)
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meteorologia
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40º DIA - Um porto que não será esquecido tão cedo
Uma curta estadia em Mar del Plata (Argentina) mas que ficará por certo muito tempo na memória Esta muito curta estadia ficará registada nas nossas memórias por muito tempo. O facto de se tratar de uma média cidade, balnear mas sem temperaturas para ir à praia e no final do Verão, fez com que as atenções de residentes e turistas recaíssem sobre o porto onde se encontravam tantos grandes veleiros. Por outro lado, a Marinha Argentina e as Autoridades Locais e Nacionais esforçaram-se ao máximo para que nada falhasse e os navios fossem recebidos ao mais alto nível! Não havia margem para errar porque a Presidente do país viria assistir ao desfile dos navios com a sua congénere do Chile, país co-organizador deste Encontro e Regata de Grandes Veleiros - Velas Sudamérica 2010. Dia 23 à noite estava mais virado para a cama do que para outra coisa e, sob pressão... muita pressão dos meus oficiais, fomos ali perto, tomar uma Quilmes, a cerveja local. Pouco depois já estávamos a bordo. No dia seguinte comecei as visitas mais formais pois já tinha cumprimentado todas as entidades na recepção que estava a decorrer no Libertad quando atracámos. Fui sempre muito bem recebido, com elogios e apreciação por Portugal estar presente neste evento. O Almirante Comandante da Região Atlântica foi muito simpático e fez questão de retribuir de imediato a visita para conhecer o navio. Admirou-se por eu ser tão jovem e, mais ainda por estar no meu terceiro ano de Comando. Por cá não é assim: comanda-se o navio-escola um só ano e muito mais tarde que nós. Às vezes até é caricato. Recebo as pessoas à prancha e perguntam pelo Comandante, desfazendo-se em desculpas quando se apercebem da gafe. Responsabilidade extra para que tudo corra bem, digo eu! Ainda de manhã, recebemos a bordo mais um convidado para as próximas três semanas. O fotógrafo holandês de grandes veleiros Monno Rienks. Já não é a primeira vez que navega connosco sendo que a primeira foi em 1994. É autor de algumas fotografias emblemáticas do navio e a sua presença já se faz sentir nesta crónica pois algumas das fotos que junto são da sua autoria. A organização oferece alojamento num hotel aqui perto e perguntaram-me se aceitava o convite. Hesitei até me confirmarem que tinha internet sem fios e de banda larga! Queria estar mais à-vontade para estas crónicas, para procurar sites de meteorologia e para os contactos de planeamento para os portos seguintes. Uma bela suite com vista de mar e sem o ruído dos geradores e da ventilação. Saí de bordo após o almoço e quando já estava a descansar chegou uma solicitação extra: convite para uma Conferência de Imprensa que começaria em 15 minutos. Oportunidade a não perder pois, se não aparecer nos jornais ou na televisão,... então é porque não aconteceu! Estava só eu e os Comandantes dos navios dos países organizadores. Muitos jornalistas, muitas perguntas a que respondi no meu castelhano que é apenas mais uma versão das várias que os meus colegas comandantes falam. Esta versão é só minha mas serve para não perder a oportunidade mediática. E assim foi pois no dia seguinte lá vinha nos jornais e já tinha muita gente a reconhecer-me. À noite fui, com Cte Fonte Domingues (imediato), o Ten Sousa Luis (Navegador) e o Ten Stuart Borges (Médico) assistir à actuação do Coro de Câmara de Estugarda com cerca de 40 elementos que se encontra em digressão pela América do Sul e que actuou no Hotel Sheraton, integrado nos nossos eventos. Terminou muito tarde e seguiu-se um jantar recepção uns pisos acima, com vista para os navios iluminados de gala e cheios de visitantes que pareciam formiguinhas. Recebi muitos pedidos de visitas exta horário e a manhã de quinta-feira foi passada a receber convidados dignos de tal honra. Foram vários militares, dirigentes associativos, autarcas, metade dos elementos do Coro de Estugarda, membros da Comunidade Portuguesa local e o Embaixador de Portugal. Autografei inúmeras fotos do navio que continuam a ser o melhor souvenir para ambas as partes pois há que controlar os custos. Antes destas visitas ainda fui à Reunião de Coordenação da Largada, do Desfile, da Chegada ao Uruguai e a Buenos Aires. Pareceu-me tudo relativamente controlado mas tão calculistas que o primeiro navio teria que sair do porto às 04:00. Sorte da Sagres que "só" teria que sair às 08:00! Fui com o Embaixador Joaquim Ferreira Marques almoçar ao Hotel Provincial, onde estava alojado. O almoço era oferecido pelo Ministro da Economia da Região de Buenos Aires aos Comandantes e Diplomatas dos países representados e incluía todas as autoridades da zona. Éramos cerca de 40 pessoas sentadas e tivemos a honraria de ficar nos lugares de honra. Só um senão: a refeição começou com cerca de uma hora e meia de atraso. O voto do povo legitima estas coisas, dizia-se por cá. Foi uma oportunidade aproveitada pelo nosso Embaixador que terminou o almoço com reuniões e acções agendadas com o anfitrião. De seguida fui procurar roupa de aquecimento para usar por baixo do fato de vela e para protecção da cara e pescoço. Isto porque os meus amigos Comandantes me manifestaram as preocupações deles relativamente ao frio gélido da zona do Cabo Horn. Encontrei uma fábrica local com material a uma boa relação preço/qualidade e comprei calças e camisola, gorro com máscara e protecção para o pescoço. Pedi logo orçamento para 160 e iniciei o processo de autorizações para a aquisição que teve muito boa aceitação. É que quando as coisas piorarem vamos ter que estar a trabalhar no exterior, ao frio! A marca "MULUC - Patagónia", dá algumas garantias pelo nome. Às 17:00 chegaram a bordo um Oficial e 5 alunos da Escola Naval Argentina que vão passar os próximos dias a bordo, por convite endereçado pelo nosso Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada ao seu congénere argentino. Juntam-se assim aos 10 brasileiros, enriquecendo assim esta experiência. Seguiram-se três horas de cerimónia de desfile e apresentação das tripulações, grupos populares, danças, entregas de prémios, agradecimentos, etc., com muitos milhares de assistentes. Recepção com jantar às 20:00 no Hotel Costa Galana, em que me despedi das entidades, agradeci apoios e regressei a bordo para ir re-jantar com o nosso Embaixador e mulher, juntamente com o Imediato e o casal que preside à Comunidade Portuguesa local Check Out às 06:30 e largada do navio para um longo dia de trabalho às 08:00. A guarnição também teve uma estadia frenética. Quem esteve de serviço recebeu os 22000 visitantes que estiveram a bordo! Houve passeios guiados pela cidade e redondezas, visitas a locais mais longínquos, bons restaurantes, bons bares, concertos de rua, fogos de artifício, um custo de vida muito acessível para nós. Razões mais que suficientes para querer voltar cá. Pouco descanso também pois o navio exige muito: até às 22:30 à chegada, das 07:00 às 14:00 na quarta-feira, das 07:00 às 11:00 na quinta-feira, e desde as 06:00 de ontem para tirar a iluminação de gala e preparar a largada para as 08:00! Quem esteve de serviço, esteve as 24 horas do dia. Largámos às 08:00 muito cansados mas satisfeitos pelo impacto da nossa passagem neste belo porto. Grande honra ter àquela hora a Banda da Armada Argentina e várias entidades a despedir-se do navio. Honra máxima, ter o Comandante da Base e o Vice-almirante Comandante da Área Naval Atlântica a fazer questão de largar o último cabo do cais! Fiz um grade elogio à organização, às facilidades concedidas e aos Oficiais de Ligação, um para mim e outro para o navio, que asseguraram o sucesso da estadia. Caçámos estai, bujarrona de dentro e mezenas para aproveitar o vento de terra para afastar suavemente do cais. Depois rodámos com dois rebocadores e ajudámos a rotação com velas, primeiro só à proa, depois só à popa. Alinhámos com a saída do porto e avançámos a todo o gás para evitar balanços excessivos na calema que sentia junto aos molhes. Ao passar junto ao molhe Oeste apitámos às centenas de pessoas e caçámos várias velas latinas em simultâneo. Isto depois de convencer o Piloto que até iria ajudar a estabilizar o balanço. Enorme bandeira e muitos apitos de sereia em sinal de despedida e de agrado: três apitos longos e um curto, mais espaçado. O meu pessoal já sabe: a bandeira grande e os apitos são fundamentais para mim! Duas ou três horas em espera (não havia necessidade de sair tão cedo) e avançámos para a linha de desfile. Éramos o sétimo a passar! O vento previa-se muito fraco e a sua direcção não estava a corresponder às previsões. Eu queria uma passagem bem conseguida para ganhar a guerra das primeiras páginas, ainda por cima com duas presidentes na tribuna. Mareámos o pano para o vento do inicio do desfile, cerca de meia hora antes da tribuna, mas as cruzes de Cristo ficavam viradas para fora. Bom para os helicópteros, que desta vez vieram e eram muitos, e para embarcações apanharem o navio com a cidade em fundo, mas muito mau para a tribuna. Com toda a tenção e espírito competitivo em cima, verifiquei que os navios estavam a ficar com o pano às costas a pouca distância da tribuna. Identifiquei a o local onde as bandeiras, grandes como a nossa, se viravam para terra e preparei rapidamente nova mareação para chegar à tribuna já com tudo alinhado e verificado. Sem tempos mortos, passou-se logo a postos de honras militares e no momento certo saíram os três vivós com pujança e bastante altaneiros. Estou certo de que "ganhámos" o desfile! Seguiu-se uma tentativa atabalhoada de realizar uma foto de conjunto dos navios a todo o pano. Estava prevista uma formatura mas escolheu-se mal o rumo, que foi ajustado, mas houve vários navios que não se sentiram confortáveis com a distância de 300 metros entre navios e perdeu-se o efeito desejado e com ele, uma oportunidade única. Hoje, sábado, trabalhou-se de manhã e de tarde para mais pinturas, vernizes e pequenos trabalhos. Um destes pequenos trabalhos foi a instalação de uma imagem da Virgem del Rosário, oferecida ao navio pelo nosso Cônsul em Porto Rico no ano 2000 e que estava guardada no meu paiol. Nunca me atrevi a impor a sua colocação em local nenhum mas, em conversa com os Sargentos Pedro e Gouveia, do Serviço de Máquinas, mostraram-me desejo de ter algo do género e ficaram maravilhados com o tesouro que eu tinha aqui guardado e lhes disponibilizei. O Cabo Martins, grande carpinteiro de bordo, tratou do suporte e já lá está! No mar, há alturas em que uma ajuda divina extra é mais do que bem-vinda! No tempo das carreiras da Índia, era costume realizar Missas ou mesmo Procissões para se pedir o fim de um surto de doença, de uma calmaria ou de uma tempestade. Quando eu era cadete, o navio navegava sempre com um Capelão que dava tanto jeito como o próprio Médico. Futebol, coro, missa, conselhos, apoio, puxões de orelhas, etc. Era pau para toda a obra. Ainda hoje nutrimos uma grande amizade pelo Capelão Costa Amorim que nos acompanhou na Escola Naval e nas viagens da Sagres. Mas as vocações foram diminuindo e hoje existem menos disponibilidades para tal. A meio da tarde apareceu uma das nossas meninas. A Fragata Uruguai, ex-N.R.P. "Cte João Belo" que foi passada para a Marinha do Uruguai em 2008. Estava muito bonita e trocámos palavras de amizade e carinho. Alguns dos meus homens já lá tinham prestado serviço. Soube-se entretanto do sismo no Chile pelos cuidados que houve em Lisboa em virtude do alerta de tsunami. Mas nós estamos no Atlântico e o Chile só tem costa no Pacífico. Os meus pensamentos foram para o Comandante Ignácio Costa do Esmeralda cuja guarnição deverá a estar a viver um pesadelo. Já lhe preparei um cartão de condolências para amanhã ser levado a bordo, isto porque entretanto chegámos a Punta del Este e já estamos fundeados. Hoje convidei para jantar na Camarinha o Imediato, o Ten Alessandro e Asp Marchione da Marinha do Brasil e os Ten Martim e Gmar Emanuel Pereira da Marinha Argentina. Oportunidade para despedida de uns e boas-vindas aos outros. Amanhã tenho que estar às 08:00 numa reunião a bordo do Capitan Miranda, o navio do Uruguai! Continua esta sequência de portos, muito próximos e com programas muito apertados! Depois conto tudo! |
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