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Quarta-Feira, 08 Fevereiro 2012 - 22:52 (Açores 21:52)
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meteorologia
   

54º DIA - Mau tempo no caminho





54º DIA - À procura de um porto de abrigo

Desembarcámos os pilotos à saída do Rio de la Plata no dia 10 às 05:00 após 15 horas de águas restritas e canais estreitos em que passámos, fomos passados e nos cruzámos com vários navios. O de menor calado tinha que sair sempre do canal que era sinalizado por um par de bóias a cada quilómetro.

O encalhe do Esmeralda no dia da entrada, poucas milhas à nossa proa, que se deu por facilitismo do piloto, trazia-nos mais atentos e menos condescendentes. De tal forma que, quando num dos cruzamentos saímos do canal e o piloto nos quis levar para uma zona fora da linha limite de águas navegáveis que tínhamos definido, entrámos em conflito. Tínhamos combinado aquele plano de navegação à largada e não havia justificação para deixar de o cumprir. Nem os 30 anos de experiência do canal que apregoava!

Navegámos a motor e vela em direcção a Mar del Plata onde faríamos uma passagem próxima por solicitação da Marinha Argentina. Mas ao fim do dia o vento rodou para a proa e passámos de 7 para 2 nós. Bordejámos para ganhar velocidade e na tarde seguinte, com vento e mar mais calmos, fizemos a nossa passagem, aproveitando para descarregar o máximo de informação meteorológica da WEB e carregar algumas fotos no Blog através da placa 3G local - muito mais em conta que o satélite.

Aproxima-se uma depressão muito cavada e seria insensato apanhá-la em mar aberto. Temos que passar o dia 14 abrigados do mar e ventos fortes que ai vêm. Nas cartas e roteiros localizámos três possibilidades:

- Baía Blanca, muito perto de nós, oferecendo boa protecção mas demasiado longe do nosso próximo compromisso que é o desfile na Isla de los Estados antes de rumar a Ushuaia;

- Golfo San Matías, muito espaçoso e com protecção razoável;

- Golfo Nuevo, com espaço e protecção suficientes, muito longe de nós mas mais próximo do destino, facilitando o cumprimento do ETA (estimated time of arrival) à Isla de los Estados.

A primeira opção foi posta de parte por obrigar o embarque de piloto e ser estreita. Apontámos para a Península Valdês que separa os dois golfos, com o objectivo óptimo de chegar ao Golfo Nuevo tendo a alternativa fácil de ficar no de San Matías que oferece menor protecção.

O dia de ontem foi passado com boas condições de navegação e aproveitámos para realizar um importante exercício de Limitação de Avarias (LA): incêndio na cozinha, não controlado, com passagem a postos de emergência. Há que treinar as acções e recordar procedimentos. Se algo do género se passasse a bordo, os bombeiros seríamos nós e não há para onde fugir. Foram três horas com empenhamento total da guarnição e em estilo de treino avaliado para que haja resultados. Começa-se com um alarme de incêndio na cozinha a que ocorre o Ronda LA que verifica haver fogo e não o consegue resolver com o seu extintor. Dá-se o alarme no sino. Corta-se a ventilação e a electricidade! Segue-se uma equipa composta por dois elementos do grupo que está de quarto, já munidos de equipamentos de respiração autónoma e extintores ou mangueiras, são rendidos pela brigada de incêndios, equipada a rigor e composta por 4 elementos. No entanto também não conseguem debelar o sinistro. Fecha-se o compartimento, arrefecem-se as anteparas e pavimentos contíguos e dispara-se o sistema de extinção local que existe na cozinha e espaços de máquinas. Depois é aguardar o arrefecimento do compartimento e preparar a reentrada de um grupo perfeitamente preparado e informado da tarefa a desempenhar. Estes são briefados e motivados para o combate final e entram sem pressas, cerca de duas horas após o sinistro. O almoço foram costeletas de porco e não estava estorricado!

O vento cresceu durante a noite e com ele, o mar! Chegou aos 45 nós embora ainda um pouco aberto de WNW. Tentámos, até às 15:00 de hoje, passar a Punta Delgada para entrar no Golfo Nuevo, ainda com o vento em 60º EB e com apenas 3 metros de mar. Com MQ AV TF e velas fazíamos 8 nós. Mas o vento rodou para a proa e abrandámos para os 2 ou 3. Já não ia dar para prosseguir, o vento estava acima dos 35 nós e o mar continuava a crescer. Guinámos para Oeste e, com o vento mais aberto voltámos a içar pano latino, muito pouco, e navegámos a 8 nós em direcção ao segundo abrigo cuja entrada alcançámos à hora de jantar.

Magalhães também aqui esteve a 24FEV1520 na sua busca da passagem para o Pacífico. Esta entrada parecia-lhe mais provável do que a do Rio de la Plata para ser a entrada do Estreito que tinha visto num Mapa em Lisboa, "porque a água era funda, azul e fria". Mas fundeou ao largo e rapidamente verificou que não era aqui a passagem que procurava há vários meses e que o levaria às ilhas das especiarias reclamando-as para os espanhóis.

Fernão de Magalhães era um nobre navegador português. Nascido em Sabrosa, na margem direita do Douro, navega agora connosco em espírito e sob a forma de um busto que a sua terra natal oferecerá a Punta Arenas, a cidade chilena do Estreito de Magalhães. Será uma cerimónia importante com o Edil de Sabrosa, as várias autoridades e entidades locais e algumas nacionais. Será um ponto importante das comemorações dos 500 anos do grande navegador que não completou a Volta ao Mundo mas que fez um dos grandes feitos da era dos descobrimentos. Magalhães morreria num combate nas Filipinas em 27ABR1521. Apenas um dos cinco navios da esquadra que largou de Sevilha a 10AGO1519 completou a viagem. Com apenas 18 dos 260 homens que tinham partido para a viagem, a Victória regressa a Sevilha em 8SET1522 comandada por Juan Sebatián de Elcano, o Mestre basco da Concepción. Elcano é tão importante para os espanhóis que o seu navio-escola, presente neste festival, foi baptizado com o seu nome.

Estamos, vários elementos da guarnição, a ler ou reler o grande livro de Laurence Bergreen sobre a viagem de Magalhães: "Over the Edge of the World" ou "Para Além do Fim do Mundo". Temos viajado no tempo a identificar os locais que o cronista António Pigafetta identifica e, esta noite, identificámos finalmente no céu as Nuvens de Magalhães.

Entretanto já estamos abrigados dentro do Golfo de San Matías. O mar está calmo mas o vento está de SSW com 35 nós. Para poupar combustível e os ouvidos, colocámos o navio de capa, i.e., com gávea baixa e estai (aquartelado ou caçado a meio) e leme de encontro (para orçar). Esta é uma forma muito antiga que os navios utilizavam para aguentar mau tempo sem perder muito caminho, no tempo em que os navios não tinham motor. E funciona pois em três horas mantivemo-nos dentro de um raio de uma milha.

De acordo com as previsões, a viagem continua dentro de pouco mais de um dia. Tentaremos ainda chegar a tempo à Isla de Los Estados e atracaremos em 20 de Março na cidade mais austral Mundo. 

Até breve!

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