O Emigrante / Mundo Português
Email: Password:
 
Primeira vez? Registe-se gratuitamente aqui.
Esqueceu-se da sua password? clique aqui.


Quarta-Feira, 08 Setembro 2010 - 11:55 (Açores 10:55)
Homepage
SECÇÕES

Lisboa
Clique aqui para saber a hora de outras cidades

newsletter
meteorologia
   

77º DIA - Um Hotel em honra de um ilustre português



O último dia de Punta Arenas, já praticamente sem actividades, permitiu um jantar de Oficiais no restaurante por baixo do Hotel Nogueira, mais um vestígio do riquíssimo português, armador de embarcações de pesca, que aqui viveu e morreu cedo, vítima de uma apendicite. Situado frente à Plaza Mayor, onde se encontra uma estátua de Fernão de Magalhães igual à que está colocada na Praça do Chile, em Lisboa, mas com um pedestal diferente. Esta tem na sua base um índio em cujo pé as pessoas que lhe fazem festas acabam por ali voltar.

Alvorada antecipada para os preparativos de largada e, às 07:45, largámos para a zona de espera para iniciar a formação da coluna para o desfile. A orografia do terreno alterou várias vezes o vento que soprava de terra e forçou-nos a bracear várias vezes. Desfilámos a todo o pano, cerca de 30 milhas até Puerto del Hambre (fortificação local em que todos os colonos espanhóis  morreram, suspeitando-se que de fome) onde carregámos e ferrámos o pano redondo e os latinos altos pois vinha lá vento forte.

Continuámos pelo Estreito de Magalhães, passando às 17:00 o Cabo Forward, extremidade Sul do Continente Americano, e entrámos no Paso com o mesmo nome. O dia, que tinha estado solarengo até aqui, estava agora muito ventoso, frio e com chuviscos. Seguiu-se o Paso Inglês e o Tortuoso à meia-noite.

Entrámos assim no dia 1 de Abril e preparámos a partida que se impunha: Uma mensagem do nosso Comando a anunciar o agravamento de problemas de pirataria e terrorismo no Golfo de Aden e a necessidade de acompanhar eventos importantes em Moçambique e Angola atrasariam a chegada em cerca de dois meses. Discutiu-se a "mensagem" durante todo o dia, houve uma ou outra reacção de regozijo e muitas outras de apreensão e preocupação. Discutia-se a veracidade até ao mais ínfimo pormenor. Mas foi a mensagem "transmitida" ao fim da tarde que veio acalmar as coisas: "Solicito Cancelar Ref. / Informo SL Benfica venceu Liverpool por 2-1 / Votos Boa Páscoa e Boa Missão".

Poderíamos ter saído para o Oceano Pacífico, que se encontra bravo, através dos canais do Estreito. Prosseguimos pelo Canal Smith, passámos o Paso Shoal, uma passagem estreita com vários navios encalhados à vista. Estes testemunhavam as dificuldades da passagem e aconselhavam à cautela máxima. Depois do Paso Summer, entrámos o Estrecho Collingwood e passámos mais alguns Pasos que nos levariam ao Canal Sarmiento, rectilíneo ao longo de 50 milhas e que nos iria dar algum descanso.

Navega agora connosco o fotógrafo Chileno radicado em Portugal há 30 anos, Roberto Santandreu. Co-autor com José Carlos Nascimento das fotos do livro que consideramos ser a bíblia dos Faróis de Portugal: "Onde a terra acaba" (Pandora - 1998), escrito pelo Comandante Teixeira de Aguilar.

O dia amanheceu limpo e a revelar a paisagem espectacular das montanhas à nossa volta, verdes cá em baixo e brancas da neve nos cumes. O Roberto Santandreu gostava de visitar Puerto Edén, uma aldeia piscatória apenas com acesso por mar e a mais de 500 km da civilização, tida como ultimo reduto dos Alacalufes, o povo original desta região. Como se situava na zona de espera para a passagem da Angostura Inglesa, estava em aberto a possibilidade de se dar lá um salto enquanto se aguardava a maré. Uma Angostura é uma zona estreita e mais sinuosa que um Paso e esta tinha que ser passada durante o dia e no estofo da preia-mar. A velocidade que estávamos a fazer não permitia folgas pelo que destacámos o bote semi-rígido com um grupo para ir visitar o Puerto Edén e regressar a bordo à passagem do navio. Fez-se uma visita rápida a uma aldeola com menos de 200 habitantes mas com polícia, escola, capitania e centro de saúde. Numa lojinha fizeram-se trocas comerciais com o dinheiro disponível reforçado com maços de tabaco. Uma grande quantidade de mexilhão fresco e 10 kg de congelado. Um poster para os Carabineros, outro para a Escola e outro para a Delegación Municipal. Luz eléctrica, internet e parabólicas eram indício de que aqui não havia nenhuma comunidade em estado puro. Mas estas foram as primeiras pessoas que avistámos desde Punta Arenas, além de um pequeno veleiro que lutava numa bolina cerrada contra um vento de 25 nós que se fazia sentir alinhado com o Canal Sarmiento. Os Alacalufes eram caçadores colectores nómadas marítimos que se deslocavam em canoas pelo labirinto dos canais e se alimentavam de mamíferos marinhos e moluscos. Há teorias que defendem que são os antepassados dos japoneses - os olhos ligeiramente rasgados poderão ser um indício disso.

Os outros povos nativos da região por onde passámos são os Yámanas, que viviam entre o Estreito e o Cabo Horn, com um estilo de vida semelhante a estes, e os Onas, caçadores nómadas terrestres que ocupavam toda a extensão da ilha da Tierra del Fuego, sustentando-se de vegetais, moluscos e Guanacos ou Lamas que caçavam. Mas os Tehuelches  é que impressionaram Magalhães e as suas tripulações: caçadores nómadas de grande estatura, vestiam capas feitas com treze peles de Guanaco e usavam peles para proteger os pés que lhes davam um ar sobredimensionado. Chamaram-lhes os Gigantes Patagões e à sua terra, a Patagónia. Caçavam Guanacos e Emas.

De regresso a bordo, rapidamente se organizou uma faina de limpeza do petisco que seria a entrada para o jantar de toda a guarnição, com tomate e cebolada. É sexta-feira Santa e, depois do bacalhau do almoço, comemos peixe assado no forno ao jantar. Muitos comentaram o costume de neste dia, tal como foi a bordo, comerem percebes ou mexilhões. A Páscoa é uma festa móvel precisamente para que coincida com o Domingo após a primeira Lua Cheia após o Equinócio da Primavera, o que dá sempre maré viva e proporciona a apanha destes mariscos.

Já na madrugada de sábado, saímos o Canal Messier para entrar no Golfo de Penas e fazer uma travessia de 160 milhas até entrar de novo nos canais Chilenos e prosseguir abrigado da ondulação oceânica. Foi o nosso primeiro contacto com o Oceano Pacífico onde apanhámos ondulação de través com 3 metros. Esta era uma travessia aguardada, sem o stress de navegar em águas tão restringidas, mas o descanso foi estragado pelo balanço forte.

O sábado já amanheceu menos gélido, o vento era fraco e o balanço continuava. Sem vento não podemos utilizar as velas latinas como estabilizadores. Na verdade, desde o desfile de Punta Arenas que não caçamos pano pois o vento ou é muito fraco devido ao abrigo das montanhas ou vem forte de proa, alinhado com os canais. A variação muito rápida dos ventos que tem ocorrido também nos tem aconselhado a não arriscar a ter pano.

À tarde já havia pessoal a conviver no poço. Agasalhados, mas já com algum conforto. Foi também dia de mudança de hora para nos ajustarmos à hora Chilena que também mudou agora. Ficámos com menos cinco horas que em Lisboa. Navegamos nos 75º de longitude Oeste, 66º a Oeste da nossa capital, distância que o Sol leva cerca de quatro horas e meia a percorrer.

O jantar já foi sem balanço, com protecção da entrada do apertado Canal Darwin e da sinuosa ligação ao Canal Moraleda que nos conduziu durante a noite ao grande Golfo Corcovado, entre a Isla Chiloé e o Continente. De novo a navegar em canais, pairámos na Bahía de Chaitén para se proceder à mudança do óleo do motor. Oportunidade para as duas semi-rígidas darem um salto à localidade com um grupo que incluía os dois Oficiais da Marinha do Chile que nos guiam desde Punta Arenas pelos Canais Chilenos. Chaitén é quase uma cidade fantasma desde que o Vulcão com o mesmo nome entrou em actividade em 02MAI2008. O Rio Blanco, que ali desagua foi interrompido com as cinzas e depois entrou pela localidade de 3000 habitantes com uma enxurrada de água e cinzas. Parcialmente destruída, com cinzas até mais de um metro de altura, sem água, esgotos ou electricidade, Chaitén foi evacuada, mas persistem cerca de 150 pessoas que a querem reactivar embora as ordens sejam para extinguir. Fomos muito bem recebidos. Vieram logo ao cais várias viaturas que nos levaram a um passeio pelas ruínas. De facto o turismo da desgraça desenvolveu-se muito nos últimos tempos por cá.

Após o jantar seguimos viagem para Quemchi onde chegámos esta manhã para fundear e fazer alguns trabalhos de manutenção do navio que o frio do último mês não permitiu. Os mergulhadores foram limpar as aspirações de água e trouxeram uma boa notícia. O casco está limpíssimo. Foram as variações de temperatura e variação de águas salgadas para doces. Ainda bem porque vem aí uma regata. Visitámos o pueblo, com cerca de 2000 habitantes, cumprimentámos o Capitán de Puerto e comprámos alguns peixes rei para o Roberto Santandreu nos preparar um prato já prometido, o Ceviche, que são cubos de peixe marinado e cozido em limão. Com empadas típicas do país, teremos um autêntico jantar chileno.

Já navegamos, desde o almoço, para ir fundear no local de encontro com os outros grandes veleiros e desembarcar os nossos novos amigos. O Comandante Juan Ternicien e o Capitán Francisco Palma foram uma preciosa ajuda e um descanso para a difícil navegação nos canais interiores. Excelente companhia, permitiram-nos ir conhecendo, ao longo destas duas semanas, o Chile, os Chilenos e a sua Marinha. Muito obrigado!

Pelo caminho temos lido alguns livros de Francisco Coloane com contos que relatam estórias passadas precisamente nestes locais, e um livro que um seguidor destas crónicas nos enviou: "Na Rota de Diogo Cão", de Joaquim de Lisboa, que relata a atribulada viagem de Angola para Portugal numa traineira por ocasião da descolonização e que muito nos recorda a nossa vida.

Fundearemos na Bahía de Ancud pela hora de jantar, após passar o Canal de Chacao, com amplitudes de maré de 7 metros e correntes que chegam aos 9 nós. Continuarão os preparativos do navio para o próximo porto e da regata que não parece ir correr bem pois a zona onde decorrerá estará sobre a influência de um anti-ciclone que provoca calmarias.

A nossa linha continua a perder amostras e anzóis! Ontem em Chaitén pescaram-se alguns peixes com cana: robalos, cações, pescadas e outros que não conseguimos identificar. A vida marinha também tem vindo a aumentar: já vimos baleias, leões-marinhos, focas, golfinhos, toninhas e muitas culturas de salmão, especialmente agora em Quemchi.

A temperatura já está mais amena: ar a 15º e água a 12ºC! Já dormimos sem ceroulas!

Até breve!


EDIÇÃO IMPRESSA

Sondagem
HOJE FAZEM ANOS
Abel Pires - Franca
Agostinho Silva - Alemanha
Albina Costa - Brasil
Alcino Matos - Luxemburgo
Alfredo Pereira - Franca
Almeida Manuel - U.S.A.
Amancio Conde - Brasil
Anibal Marreiros - Franca
Antonio Domingues - Australia
Carlos Matos - Franca
Elvira Fidalgo - Franca
Fernando Amado - Canada
Fernando Cardoso - Alemanha
Gomes - Alemanha
Joao Castanheira - Franca
Joao Figueiredo - Suica
Jose Borges - Brasil
Jose Dias - Franca
Manuel Marinho - Franca
Maria Almeida - Franca
Maria Clemente - Franca
Maria Marques - Alemanha
Maria Silva - Brasil
Paulo Pinto - Franca
DOSSIERS
destaque
destaque
destaque
destaque

PUBLICIDADE
destaque
destaque
destaque
destaque
 
O Emigrante / Mundo Português
Av. Elias Garcia 57 S/L 1049-017 Lisboa - Portugal
Tel: +351 21 7957670 | Fax: +351 7957665 | Email: redaccao@mundoportugues.org
Webdesign por