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Quarta-Feira, 08 Fevereiro 2012 - 23:24 (Açores 22:24)
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90º DIA - O grande desfile de Valparaíso no Chile




O dia da chegada a Valparaiso começou com uma madrugadora alvorada para começar a navegar e ocupar a posição na formatura do desfile. Os preparativos para o porto já estavam adiantados desde o fundeadouro. Já tínhamos a iluminação de gala instalada e por isso, e também porque o desfile seria contra o vento predominante de Sul, só caçámos pano latino.

Entrámos por Norte e percorremos toda a baía desde a famosa praia de Reñaca até ao porto, situado bem ao Sul. Navegámos lentamente, em coluna, a curta distância da marginal, ficando parados frente ao Farol Condell a aguardar a atracação dos navios à nossa proa já que éramos o penúltimo navio. Cruzámo-nos com uma coluna de fragatas chilenas, encabeçadas pela Williams com o Comandante-chefe da Armada (CCA) embarcado e a quem foram prestadas honras. Terminámos a manobra de atracação às 13:00 após rodar o navio dentro do porto com a ajuda das velas. Primeiro as mezenas para aproar ao vento e depois o estai e bujarrona aquartelados para afastar a proa do vento e continuar a rotação.

Às 14:30 já estávamos no nosso primeiro acto protocolar: apresentação de cumprimentos ao CCA, ao Comité Organizador, ao Governador da Província, ao Intendente e aos Alcaldes de Valparaiso, Viña del Mar, Concón e Quintero. Seguiu-se a "Foto de Família" com os Comandantes e o CCA e uma Conferência de Imprensa colectiva. Ao final da tarde realizou-se uma reunião de Comandantes com o Júri da Regata e com a Organização Chilena do evento. Fomos informados de que não iria haver atribuição de posições e que todos estávamos de parabéns pela qualidade das manobras e espectáculo proporcionado. Afinal esta era a Regata da Solidariedade. Esta reunião realizou-se na Sala Histórica do Centro de Abastecimento da Marinha, um espaço museológico numa cave que recria paióis do século XIX, com um ambiente muito agradável. Seguiu-se uma cerimónia cheia de emoção em que alguns navios entregaram os apoios recolhidos à Blanca Estela, uma organização humanitária de voluntários compostos por militares, civis e familiares da Marinha Chilena. A Sagres entregou os apoios recolhidos pela Comunidade Portuguesa da Argentina e a bordo.

À noite participámos na Recepção de Entrega de Prémios no Clube Naval. Um edifício antigo com vários pisos e uma sala que despertou a atenção de todos. A sala em que não era permitida a entrada de senhoras. Algumas senhoras estrangeiras fizeram o teste mas a regra não teve excepção. Naquela sala fuma-se e conversa-se sem restrições, dizia um camarada chileno. Alguns discursos, entrega de uma salva aos Comandantes e um jantar volante muito agradável em que não faltaram como aperitivos o já nosso conhecido Pisco Sour e as Empanadas de carne, queijo ou camarão. Mistura de clara de ovo, sumo de limão, açúcar e o pisco, que é uma aguardente de bagaço, com gelo, este cocktail é muito fresco e agradável.

O segundo dia, quarta-feira 14, começou com a cerimónia de deposição de uma coroa de flores no monumento aos Heróis de Iquique. Perante grupos formados representando cada guarnição, os Comandantes prestaram homenagem ao Comandante Arturo Prat que, ao comando do Esmeralda, em madeira, perante a desvantagem de estar em combate contra o navio peruano Huáscar, em ferro e com couraça, manobrou para o abalroar e permitir assim a sua abordagem. Foi no porto de Iquique, outrora peruano e actualmente chileno, a 21 de Maio de 1879. O Esmeralda foi derrotado e Prat morreu na abordagem juntamente com 130 homens mas o seu exemplo criou uma mística e inspirou a sociedade chilena a fazer grandes sacrifícios pela sua pátria que se envolveu na guerra de que o Chile viria a sair vitorioso. Prat está nos selos, nas notas e tem um monumento em cada cidade. É o herói nacional do Chile. Foi curioso o facto de em um dos dias, com o navio aberto a visitas, o navegador, Oficial de Dia, ser interpelado várias vezes por, supostamente, ser o sósia do herói chileno. O facto rendeu-lhe diversas fotografias e motivo de conversa. O Huáscar foi mais tarde capturado e constitui um troféu que ainda hoje se encontra preservado na Base Naval de Talcahuano. Após a homenagem, os grupos de militares de cada veleiro desfilaram pelas ruas da cidade e regressaram a bordo de troley.

Os navios foram abrindo durante as manhãs para visitas escolares e de outras organizações e das 14:00 às 23:00 para o público em geral. O cais de atracação, por ser relativamente estreito, dificultou sobremaneira o acesso do público que encheu todos os acessos e que mesmo assim, passou as 15 000 visitas diárias à Sagres. Nestes dias não há mãos a medir, no final do dia o pessoal do Grupo de Serviço está exausto. Sem cadetes embarcados, todos os elementos são poucos para receber, encaminhar e corresponder às solicitações das pessoas que devotamente nos visitam, em busca do imaginário dos grandes veleiros. O nosso "plantel" está desfalcado em número quando comparado com os nossos congéneres que para além de terem alunos embarcados tem guarnições substancialmente maiores. Há navios com mais do triplo dos nossos oficias o que lhe permite ter dois oficiais de dia. Há uma certa competição entre os grupos de serviço para "facturar" visitantes. O facto de a esmagadora maioria dos visitantes saírem de bordo maravilhados é o tónico para compensar tanto esforço. No Sábado a grossa fila estendeu-se mais de 2 KM do porto até ao centro da cidade. A espera média era superior a 4 horas. Milhares de pessoas acabaram por não visitar os navios apesar do nosso esforço em abrir ininterruptamente sem pausas para as refeições e obrigando a guarnição a restringir-se ao seu diminuto espaço nos interiores.

A liga Marítima do Chile, o Serviço Nacional de Turismo e o fabricante de velas chilenas Wienecke ofereceram os almoços seguintes. O Município de Valparaíso, fez uma cerimónia de homenagem aos Comandantes e a Confraria de Capitães do Cabo Horn, "Cap Horniers" homenageou os Comandantes com o seu certificado e aceitou-os como novos membros. A agência marítima Ultramar, patrocinadora do evento, criou um cenário fascinante num dos seus armazéns, com uma tenda gigante no terraço de um enorme armazém sobranceiro aos navios e com um acesso através de elevadores industriais e túneis com um ambiente de vídeo e som que nos recordou a passagem pelo Horn.

Tinha-nos sido atribuída uma escola para apoiarmos com pequenas reparações de mazelas do sismo, mas não havia vidros no mercado para instalar e a nossa visita foi apenas de cortesia com o convite para visitarem o navio. Uma alegria para os alunos.

Todos os navios ofereceram Recepções oficiais e a nossa foi na sexta-feira. O ambiente estava muito bom e os convidados eram muito agradáveis. Nela tivemos uma actuação de Guitarra Portuguesa com temas de Carlos Paredes, Fernando Lopes-Graça e da chilena Violeta Parra, e distribuição de versos com temas de mar de Camões, Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner. Esta foi uma parceria com o Instituto Camões que envolveu alunos do Curso de Cultura Portuguesa da Universidade de Santiago. E falam muito bem o Português padrão.

A presença da Sagres foi também aproveitada por um dos nossos pequenos patrocinadores para um almoço de clientes com cerca de 30 pessoas que saíram de cá maravilhadas e, esperamos, venham a adquirir mais produtos nacionais. Nestes eventos temos sempre oportunidade de saber mais sobre a nossa comunidade e sobre o país que visitamos. Dizem-nos que vivem cá cerca de 2000 distintos portugueses, e que anualmente cerca de 5000 visitam este esguio país. As nossas exportações têm vindo a aumentar, sendo lideradas pelas rolhas de cortiça para o precioso néctar Chileno que já tem boa cota de mercado mundial. Contudo, é com o cobre que o Chile equilibra a sua balança comercial. É líder mundial, produz cerca de 40% de todo o cobre do mundo.

Vários canais de televisão e jornais deram cobertura ao festival tendo sido realizadas várias entrevistas a bordo para noticiários, documentários e programas infantis.

Nos poucos intervalos de tempo disponíveis, subimos alguns dos 15 ascensores de Valparaiso, aos cerros Concepción, Alegre e Santo Domingo Visitámos "La Sebastiana", uma das três casas museu do poeta e diplomata Chileno Pablo Neruda distinguido com o prémio Nobel da Literatura em 1971. Jantámos no Turri e no Puerto Fino, autênticos restaurantes miradouros sobre a baía. Os preços da restauração são acessíveis e os vinhos bons e baratos. Visitámos o Museu Naval onde entregámos um kit do nosso Museu de Marinha que lhe permitirá ter uma pequena representação da nossa história e cultura marítima.

Este é o principal porto da Marinha do Chile cujas instalações são visíveis ao longo de toda a cidade. É aqui que os navios prontos se encontram. Existe ainda uma pequena "cidade naval" com alojamentos, escolas, hospital, etc. A Marinha, em processo de renovação desde 2003, apresenta um conjunto de condições ímpares para o seu pessoal e meios navais adequados para a sua extensa costa marítima.

A cidade, construída nas encostas dos Cerros Costeros, apresenta uma construção em madeira do tipo palafita e chapa zincada, antiga e degradada mas muito colorida que denotam um glorioso passado e que lhe valeu a inclusão pela UNESCO na sua Lista do Património Mundial. O seu estilo de vida boémio e o ambiente cosmopolita com uma grande actividade cultural e artística foram inspiradores de grandes poetas chilenos. É aqui que se situa o Congresso Nacional. Mas as colinas parecem votadas ao abandono, sendo que outra cidade, nova e moderna, se ergue contiguamente à antiga, Viña del Mar, embora sem a mesma identidade e tipicidade. Viña del Mar com 13 praias, hotéis, jardins, centros comerciais, casino e mais segurança é outra realidade, que se pode dizer diametralmente oposta. Vários bares e discotecas permitem uma vida nocturna agradável mas, não se sabe como nem porquê, houve algumas lamentáveis altercações entre marinheiros e locais. Segundo um taxista, um grupo de marinheiros foi atacado por um gang de um zona perigosa de Valparaiso, sendo que dai resultou uma grande zaragata, tendo os marinheiros da casa intercedido pelos seus camaradas estrangeiros. Contudo, resultaram alguns ferimentos graves. Para nosso descanso passámos safos de tudo isto, e na última noite, os mais concorridos locais só aceitavam portugueses, brasileiros e holandeses.

Houve oportunidade de visitar a Isla Negra onde se situa a principal casa de Pablo Neruda baptizada com o nome do local. Adquirida por Neruda quando regressou do exílio em 1937. Foi sendo ampliada sempre com a ideia de se parecer com um navio. É lá que está a maior parte da sua colecção de figuras de proa de navios (Carrancas), parte das suas conchas, livros, quadros e objectos que foi adquirindo e coleccionando ao longo da sua vida. A uma hora e meia de Valparaiso, viajando ao longo de vales vinhateiros, esta casa justifica plenamente a deslocação. Lugar calmo e com uma vista espectacular, foi o escolhido pelo poeta para o seu descanso final (em 1973) e que Matilde, a sua terceira e ultima mulher também escolheu para sepultura a seu lado.

Santiago, a capital, com os seus cinco milhões de habitantes também constituiu uma imperdível visita. A viagem começa com a travessia dos Cerros Costeros aproveitando-se para apreciar a baía a partir dos vários miradouros. Depois vem Curauma, conhecida por Puerto Seco ou Antepuerto por ser aqui, a 15 km de Valparaiso, que se situam os parques de contentores em transito de e para o seu porto que devido ao espaço reduzido não os pode albergar a todos. Há toda uma nova construção habitacional e o parque industrial de Curauma junto à enorme Laguna la Luz onde há muita prática de canoagem e remo. Segue-se o Lago Penuelos, ainda maior que a laguna, uma reserva florestal, mais lagoas, pueblos, santuários e o vale vinhateiro de Casablanca. Após a Cordillera de la Costa, que atravessámos por um longo túnel, entrámos no vale Curacavi, onde se produzem legumes, cereais, frutas e vinha. É aqui que se produz a Chicha, semelhante à nossa água-pé e que está aí a aparecer pois as vindimas terminaram há pouco. Santiago fica entre as cordilheiras da Costa e dos Andes.

Entrámos na capital por Sul, pela Alameda Bernardo O'Higgins, ajardinada nas placas centrais e com estátuas dos heróis chilenos. Parámos no Palácio la Moneda, residência oficial do Presidente do Chile. Tínhamos ouvido uma curiosa história sobre a origem do seu nome e quisemos confirmar. Dizia a história que este se devia ao facto de o navio que trazia da Europa os planos de construção se ter enganado e entregue os planos do Palácio Presidencial de Santiago no Rio de Janeiro e os da Casa da Moeda da antiga capital do Brasil, em Valparaiso. Perguntámos a várias pessoas, sem sucesso. Apenas um guarda do palácio disse que ali se havia cunhado a moeda do país. Verificámos depois na internet e esta "lenda" existe mesmo mas aparentemente sem fundamento e o guarda tinha mesmo razão. Foi neste palácio que se suicidou o Presidente Salvador Allende, com uma arma que lhe ofereceu Fidel Castro, recusando-se a sair vivo do seu palácio, durante o golpe militar de 1973 que levou ao poder o Augusto Pinochet. O golpe foi tão duro que o palácio presidencial chegou a ser bombardeado por aviação militar. Ainda hoje a sociedade chilena se divide entre estas duas personalidades que marcaram a história do país. Actualmente ainda se notam alguns efeitos da ditadura recente. O nosso pessoal foi interpelado por diversas vezes sobre as nossas barbas de marinheiro. A barba por estas bandas é tabu. Na Marinha só os oficiais superiores, a partir de capitão-de-fragata, é que a podem usar, mediante prévio requerimento é claro. De facto, não vimos nenhum militar chileno ou carabineiro (GNR local) com barba. Algumas "libertinices", como fumar quando se está fardado, também não são bem vistas. Pode-se notar uma forte influência, pelo menos a nível das forças armadas e de segurança, britânica e alemã. Este aspecto parece tornar o Chile no país menos latino da América do Sul.

Visitámos a Plaza de Armas, onde se situa a Câmara Municipal e a Catedral. Repleta de turistas e locais, com artistas plásticos e circenses, a praça mantinha o reboliço do Passeo Ahumada uma rua pedonal, com muito comércio e vendedores ambulantes. A nossa curta visita seguiu-se no Mercado Central onde almoçámos um Congrio a la Pobre (frito com ovo e batatas fritas). Subimos ao cerro San Cristobal para apreciar a extensão da cidade que tem os Andes como fundo. Perde-se de vista! No topo do cerro fica o Santuário da Virgem de Santiago com uma escadaria que deixa recordações nas pernas.

Seguiu-se a visita a mais uma das Casas de Neruda. A Chascona. Casa montada às escondidas da sua segunda mulher para habitação da sua amante Matilde dos cabelos revoltos (este é o significado do nome) que viria a ser a sua última mulher. Aqui conhecemos um pouco mais deste poeta de esquerda com quem o Chile teve uma relação amor/ódio. Um passeio e uma bebida no bairro boémio da Bellavista, em cuja orla se situa a Gascona, completaram a visita.

Do sismo, tanto em Valparaiso como em Santiago, apenas vimos rachas e quebra de revestimentos ou adornamentos de fachadas, muitos vidros partidos que não foram repostos, e os relatos das pessoas sobre a sua intensidade, longa duração e inúmeras réplicas. Chegaram a dizer que parecia estar a bordo de um barco. No entanto, os Chilenos estão preparados para os sismos, sendo que em cada 25 a 30 têm um sismo forte.

Não há falta de bens no mercado mas dizem que a cerveja está mais cara porque colapsaram as principais fábricas das cervejas Escudo e Cristal.

Hoje, para não variar, tivemos mais uma alvorada antecipada. Às 05:30! Largámos antes das 7 e formámos em coluna logo na terceira posição atrás da Esmeralda e da Libertad. Percorremos a baía a todo o pano e no sentido inverso à chegada e prestámos honras à passagem pela Fragata Williams onde se encontrava o Presidente Piñera. O vento começou muito fraco, o que facilitou a reduzida distância de 400 jardas (cerca de 360 m) entre navios. O vento foi crescendo e o espectáculo maior foi para os milhares de assistentes que estavam mais ao Norte da baía de onde saímos já a 12 nós com um vento SW de 25 nós.

A média para cumprir com a chegada a Antofagasta é muito elevada e às 18:00 tivemos que apoiar as velas com "vento do porão" pois o vento caiu para 15 nós e a velocidade para 7. Não temos reserva de velocidade que nos permita continuar a aproveitar este vento que entretanto rodou para Sul. A ondulação está na alheta de BB, com 3 a 4 metros mas muito longa.

A temperatura irá subir bastante e regressaremos ao nosso uniforme de Verão.

Até breve!

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