Quarta-Feira, 08 Fevereiro 2012 - 22:57 (Açores 21:57)
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104º DIA - A grande chegada ao Perú
Os feriados a navegar são dias como os outros mas, como também era Domingo e os trabalhos estavam em dia, não fizemos formatura para serviços. Apenas se cumpriu a normal condução do navio com o desenrolar dos quartos. O 25 de Abril foi comemorado a bordo com um brinde nas várias câmaras onde se desenrolaram discussões alargadas sobre a sua influência no Portugal de hoje. Estas foram interessantes para os mais jovens, maioritariamente nascidos após a revolução dos cravos. Ajustando a velocidade em conformidade, no dia 27, logo pela manhã, ocupámos a nossa posição na formatura do desfile que consistia num percurso junto à costa que terminou ao fim da tarde no exterior do Porto de Callao, onde os navios passaram a noite fundeados oferecendo o espectáculo das suas iluminações de gala. Aproveitando o facto de não haver protocolo a cumprir e de termos as guarnições disponíveis, tivemos um jantar de comandantes no navio brasileiro "Cisne Branco" e um Jantar de Oficiais no Capitán Miranda do Uruguai. Cada vez nos sentimos mais chegados uns dos outros e vive-se um clima de amizade e entreajuda. Em linguagem militar, diz-se que somos camaradas. O Embaixador Nuno de Bessa Lopes, Embaixador de Portugal em Lima, visitou-nos logo quando ainda nos encontrávamos no fundeadouro e estava no cais quando atracámos cerca do meio-dia de 28. Almoçou na Câmara de Oficiais onde recordou o seu período de Oficial da Armada quando cumpriu o Serviço Militar nos anos 70 como Oficial da Reserva Naval. A sua acção permitiu que a nossa estadia fosse um sucesso de representação de Portugal. Às 16:00 iniciámos a maratona dos Comandantes: Cumprimentos ao Presidente da Região de Callao, ao Alcalde de Callao e ao Comandante Geral da Marinha do Peru. Depois seguiram-se três recepções de enfiada, a do "Juan Sebastian de Elcano", a do "Libertad" e a do "Esmeralda". No final, aproveitando o facto de ser tarde e já não haver trânsito, o nosso embaixador, que também tinha estado nas recepções, levou-nos a conhecer algumas das zonas mais emblemáticas. As Plazas San Martin e de Armas, cuja iluminação lhes confere grande beleza. Há algumas semanas, recebemos uma mensagem de correio electrónico com o assunto: "Urgente - Ler antes de chegar a Callao". Vinha do Dr. Ortigão Neves, historiador, Presidente do Grupo de Amigos do Museu de Marinha. Enviava-nos o texto de uma apresentação que fizera na Academia de Marinha sobre uma viagem que fizera há 30 anos ao Peru em que tomou conhecimento de Gonzalo de Reparaz Ruiz, um Português de muitas Nações, figura notável no Mundo e no Perú, como Geógrafo, Historiador, etc. A descrição era tão interessante que a enviámos ao nosso embaixador que convidou a filha de Reparaz para conhecer o navio. Maria del Carmen de Reparaz visitou-nos na manhã do segundo dia e descreveu a vida de seu pai. O nome estrangeiro engana. Reparaz foi um grande Português do século XX que lamentamos ser para nós até agora desconhecido. As funções executivas de Maria del Cármen no Turismo do Peru permitiram agendar para aquela tarde uma visita ao Museu Larco que visitámos após o almoço VIP a bordo. Este contou com a presença do Embaixador de Portugal e de altos quadros da Mota Engil e da Translei, uma empresa daquele grupo em franca expansão no país. A visita ao Museu foi essencial para conhecer o período pré-colombino do Peru em hora e meia. Começámos por saber que quando o explorador espanhol Francisco Pizzarro aqui chegou em 1532 eram os Incas que estavam no poder e ficaram conhecidos como sendo o povo originário do país. Mas não. Os Incas governaram a região do Peru, Equador, Norte do Chile e Bolívia, apenas desde 1400, fruto da sua expansão a partir de uma pequena zona que ocupavam ao Sul. Achados arqueológicos de 1930 demonstraram uma história de 4500 anos de desenvolvimento cultural nesta região. Em 3000 AC, só havia seis povos desenvolvidos no nosso planeta, ou seja que se constituíam como civilizações: no Egipto, na Mesopotâmia (Iraque), China, Índia, México e Peru. O Museu é riquíssimo em cerâmicas, tecidos e ornamentos com mais de 3000 anos. Os povos anteriores, os Mochica, Lima, Nazca e Tiahuanaco deixaram vestígios interessantíssimos de onde se destacam as Linhas de Nazca que são valas no terreno desértico que produzem desenhos enormes que se vêm do céu. Não se sabe o seu significado mas pensa-se que se tratava de uma forma de adoração aos seus Deuses, valas de irrigação ou, para alguns, um contacto com extra-terrestres. O Império Inca foi fundado por Pachacutec que criou a capital em Cuzco. Incorporando as tradições dos povos anteriores, mandou construir palácios e residências tais como Pisac, Ollantayambo e Machu Pichu, uma das maravilhas do mundo, que foi palácio e mausoléu dedicado ao culto funerário deste povo. O Peru é um país com uma faixa costeira de deserto, uma faixa intermédia de terras altas e, no interior, a selva amazónica. É rico em minerais e o seu clima permite uma agricultura com várias colheitas por ano. São o maior produtor mundial de espargos, têm centenas de tipos de batatas e dezenas de tipos de orquídeas. O seu nome não tem nada a ver com a ave que se serve à mesa pelo Natal. Diz-se que quando Pizzarro estava no Panamá e perguntou onde é que havia ouro e prata, lhe responderam que lá para o Virú as havia. O Virú é uma das suas regiões e os tradutores trataram do resto. As costas são ricas em peixe, e aqui sim, o peixe é muito apreciado. Têm o que dizem ser os verdadeiros Cebiche e o Pisco Sour. É devido à corrente de Humbolt que corre ao longo da costa, de SE para NW, produzindo um efeito de upwelling semelhante ao que se passa na nossa costa. Devido ao efeito de curiolis, as águas frias e ricas em nutrientes do fundo substituem as da superfície, atraindo e alimentando o peixe. O crescimento económico de cerca de 10% que manteve até há dois anos permitiu tirar uma boa parte dos seus 28 milhões de habitantes da pobreza, embora ainda tenha cerca de 10 milhões de pobres. Lima, com cerca de 8 milhões de habitantes, é uma cidade enorme com um conjunto de edifícios coloniais que são do melhor que temos visto na América latina, quer em beleza quer em qualidade arquitectónica e estado de conservação. Mas existem também muitas zonas degradadas e feias. A Plaza de Armas e a Plaza San Martin são espectaculares e cheias de vida. A zona em redor da Base Naval de Callao é perigosíssima e a zona mais rica e onde há melhores restaurantes e diversões, é a de Miraflores. Procurámos um adjectivo para qualificar o trânsito e achámos que caótico seria lisonjeiro. Quem, como nós, tentou cumprir as regras de trânsito e de cortesia e utilizar o bom senso, foi apupado e apitado, e nunca conseguia tomar as ruas que pretendia nos cruzamentos e rotundas. Só conduzindo como eles é que começámos a ter sucesso. Mas foi sempre um risco disputar os espaços disponíveis com os outros carros cujo aspecto expunha um longo curriculum de batidas. O trânsito é controlado por um sem-número de polícias-sinaleiro, todos mulheres, muito pragmáticas e eficazes. Há milhares de táxis e de uma espécie de transportes públicos ligeiros. Automóveis que vão enchendo com pessoas que se dirijam para a mesma zona. O dia 29 começou com a reunião de preparação da largada e o ponto alto das comemorações. Um almoço na Escola Naval com a presença do Primeiro Vice-Presidente do Peru, e as autoridades locais e militares, que contou com a actuação de uma conceituada cantora peruana, com um bom reportório que depois foi complementado com uma musica por cada país do grupo de navios. A Portugal calhou "A Canção do Mar" de Dulce Pontes, cantada com a delegação portuguesa no palco. Nessa noite, o Comandante e o Imediato jantaram no Clube la Unión, o mais distinto clube social de Lima, a convite do Embaixador e Embaixatriz de Portugal. Um edifício imponente na Plaza San Martin, muito bem frequentado e com um serviço óptimo. A escolha foi o Cebiche, que aqui é confeccionado com limas em vez do limão com que se confecciona o Ceviche no Chile. O dia 1 de Maio começou com uma foto de Comandantes a bordo do Cuahutemoc Uniformizados com espada e condecorações, para ficar para a posteridade. Seguiu-se o pequeno-almoço com todos os presentes na Camarinha do navio mexicano. A manhã terminaria com uma cerimónia militar em honra do Almirante Miguel Grau, um herói nacional de que já tínhamos tomado conhecimento na nossa passagem pelo Chile. Grau era o Comandante do navio de guerra blindado Huáscar que furou por 3 vezes o cerco chileno a Callao, capturando navios de transporte e cortando as linhas de comunicação do Chile. Nestas disputas morreu o Comandante Arturo Prat, herói chileno. Recolhida a espada e insígnias do derrotado, como era costume, ao invés de os guardar como troféus de guerra, Grau enviou-os à mulher de Prat acompanhados de uma carta de condolências em que lhe dizia que o seu marido se tinha batido com honra e heroicidade. Para além disso recolheu os náufragos e feridos e tratou-os, ao contrário de um outro navio peruano que encalhara na mesma batalha e cujos náufragos foram metralhados pelo inimigo. Grau seria abatido cinco meses mais tarde na Batalha de Angamos em que o Huáscar foi apresado e constitui ainda hoje um troféu de guerra no porto militar de Talcahuano. O almirante ganhou o título de "Cavalheiro dos Mares" e no seu mausoléu está escrito que venceu sem ódio e foi derrotado com honra. Tudo isto se passou na Guerra do Pacífico (1879-83) em que a Bolívia foi atacada pelo Chile depois de tentar aumentar as taxas aplicadas às empresas chilenas de capitais ingleses que exploravam o guano e o salitre descoberto no deserto do Atacama em meados do século XIX. O Peru envolveu-se na guerra em virtude de um tratado de apoio mútuo com a Bolívia e ficou só quando esta se retirou ao perder a província de Antofagasta e o acesso ao mar. O Peru perdeu Arica e Iquique. Após a cerimónia, aproveitámos para ir almoçar a Lima e passear um pouco pela cidade até à hora da nossa recepção. Não dispusemos de muito tempo em virtude dos demorados trajectos mas revisitámos as praças principais e os seus arredores. Ainda durante a tarde, recebemos a bordo a nossa convidada que ganhou o prémio da viagem a bordo da Sagres entre o Peru e o Equador. Tratou-se de um concurso da Santa Casa, um dos apoiantes desta nossa viagem à volta do Mundo. Já está integrada e preparámos um programa para que esta sua experiência seja inesquecível. A recepção da Sagres foi agendada para as 18:30, antes das do "Gloria" e "Guayas". Tratou-se de um Porto de Honra ao Pôr-do-sol até à saída dos convidados que passariam para as outras recepções. Seguiu-se o serviço do nosso tradicional Bacalhau à Braz. Graças ao esforço da nossa Embaixada, contámos com a presença do Primeiro Vice-Presidente do país, dos Ministros da Defesa e das Minas, de Presidentes de Municípios da Região, do Corpo Diplomático, do Comandante Geral da Marinha, de várias autoridades militares e de alguns dos cerca de 200 portugueses que vivem no país. Lamentavelmente, além destes portugueses, há ainda a registar mais 70 nas prisões locais, condenados por crimes relacionados com o tráfico de drogas. O navio abriu a visitas no segundo dia apenas para convidados da organização e escolas. Os últimos dois dias, dedicados ao público em geral, foram muito concorridos, tendo-se passado os 23000 visitantes no dia de ontem que, se atendermos a que se realizou a recepção a bordo, foi um dia muito atarefado. A Marinha apenas permitiu a presença de visitas na Base Naval até às 17:00 de cada dia. Às 15:30 fechavam o acesso e iniciavam a evacuação. Os cuidados com a segurança pareceram-nos exagerados até que nos disseram que estava prisioneiro naquela base, a cumprir pena perpétua desde 1992, Aniamel Guzmán, o fundador e líder dos Sendero Luminoso, uma organização terrorista de inspiração maoista fundada nos anos 60's por professores e alunos de universidades do Peru, com o objectivo de chegar ao poder. Responsável pela morte de cerca de 69000 pessoas, foi considerada extinta no inicio dos anos 90's com a captura dos seus dirigentes. As suas acções foram retomadas no inicio deste século, ocupando agora uma zona de selva muito pouco acessível e onde é difícil exercer a autoridade do Estado. Dedicam-se a actividades ilícitas relacionadas com a produção e tráfico de droga, que os financiam. Com estes recursos, alimentam actividades terroristas e apoiam algumas populações que os aceitam e protegem. Foi também bastante conhecida a acção do movimento marxista MRTA que, 17 de Dezembro em 1996, durante a presidência de Alberto Fujimori, invadiu a residência do Embaixador do Japão em Lima durante a recepção do Dia de Aniversário do Imperador em que estavam presentes 800 convidados que incluíam membros do Governo e do Corpo Diplomático, e o próprio irmão de Fujimori. Dos convidados, 452 ficaram reféns, ao longo dos meses que se seguiram vários foram libertados, sendo que a 22 de Abril de 97, após 125 dias de cativeiro, um raide subterrâneo feito pelos comandos peruanos, permitiu a libertação dos últimos 72 reféns. Morreram nesta operação 14 rebeldes, um refém e dois soldados. Hoje é dia 2 de Maio, Dia da Mãe, o que tem mantido os telefones de bordo constantemente ocupados. Está também a desenrolar-se o jogo grande do campeonato, entre o Porto e o Benfica e pelo que se vai sabendo dos telefonemas para as mães, ainda não é hoje que sai o veredicto final da competição. O Dia da Mãe no Peru comemora-se no próximo Domingo sendo que hoje se comemora a Batalha de Callao que ocorreu em 1866 entre uma Armada do Peru apoiada pelo Chile, e uma de Espanha que constituía uma "Expedição Naval e Cientifica" de estudo das costas entre o Rio de Janeiro e São Francisco. Tudo começou com desaguisados entre colonos espanhóis e trabalhadores de uma fazenda, que os diplomatas empolaram e aproveitaram a passagem da Armada espanhola no seu regresso de São Francisco. A Armada espanhola ocupa as Ilhas Chincha, ricas em guano, e exigem uma indemnização pela morte de dois cidadãos espanhóis. Humilhação após humilhação, o Chile, que se recusou a abastecer os espanhóis, foi envolvido e declara guerra a Espanha contando com os apoios do Peru, Bolívia e Equador. Em Callao, com um forte apoio do povo que ajudou a reforçar as defesas da cidade quando se soube que os espanhóis se aproximavam após o bombardeamento de Valparaiso, deu-se uma demorada batalha com bombardeamentos a partir da costa que obrigaram à sua retirada. O Peru foi o último estado a América do Sul a ganhar a sua independência, o que ocorreu em 1821. Apesar de termos tido alguns elementos que foram vitimas de pequenos furtos e de o porto ter um acesso difícil à cidade, este foi um porto que nos permitiu enriquecer a nossa cultura e espairecer dos já mais de 100 dias de viagem com 1500 horas navegadas e 12000 milhas percorridas. Estamos também certos de que a boa imagem do nosso Portugal ficou reforçada. Largámos às 09:00 e caçámos todo o pano latino para cumprimentar as centenas de embarcações que assistiam à nossa saída do porto. Navegamos em direcção a Guayaquil, no Equador onde nos espera um novo porto e um novo país para nós e para a Sagres. Temos a companhia de golfinhos e navegamos sob uma neblina relativamente fresca. É a corrente fresca de Humbolt que provoca este tempo mais fresco do que seria de esperar a apenas 700 milhas do equador. Ocasionalmente, esta corrente é vencida por uma corrente quente que vem de NW e que provoca grandes chuvas, secas e abaixamento da produtividade do mar - é o fenómeno El Niño! Surge a cada 20 anos mas as alterações climáticas têm aumentado a sua frequência. Até breve! |
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