O Emigrante / Mundo Português
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PEDRO CUDELL: "Remessas da comunidade cabo-verdiana valem 100 mihões de euros"

Nascido no Porto a 28 de Dezembro de 1950, Pedro Menéres Cudell, Licenciado em economia e Gestão de Empresas tem uma vida profissional inteiramente dedicada à banca. Assumindo-se desde logo como um “emigrante” tem feito uma carreira internacional invejável neste sector, tenda já passado por Angola, Brasil, Luxemburgo e França, onde desempenhou diversos cargos nos mais variados bancos, o que lhe deu uma experiência ímpar em muitas latitudes e geografias. Por isso mesmo o BES reconheceu-lhe a capacidade para vir a liderar o novo e ambicioso projecto de abrir um banco em Cabo Verde para ali aplicar tudo o que aprendeu na diáspora portuguesa. PEDRO MENÉRES CUDELL é assim  novo Presidente do Conselho de Administração do Banco Espírito Santo Cabo Verde S.A.

Tem um grande percurso feito na banca no estrangeiro junto dos portugueses. Qual é a grande experiência humana que tira destes anos todos?
A grande experiência humana é indiscutivelmente o saber que os portugueses estão aptos a tudo. E a sensação que me dá é que quanto maiores são as dificuldades perante as quais os portugueses são confrontados mais dinâmica e mais energia eles criam para resolver esses mesmos problemas. Acho que é uma característica muito portuguesa a nossa capacidade de saber resolver problemas intrincados, problemas difíceis, com alguma complexidade e que principalmente nos obriguem a ser muito criativos e muito imaginativos. Creio que a alma portuguesa tem muito a ver com a inovação, com a criatividade, com a capacidade de adaptação do homem à realidade onde está integrado.

Essa é também a maneira do BES estar no mundo dos negócios? Com imaginação e criatividade?
O BES é por natureza um banco inovador. E quanto mais eu conheço este banco mais ele inova, porque é da inovação que nós temos hoje em dia que depender. Se não tivermos capacidade de criação acabamos por criar uma carapaça da qual não temos capacidade de sair. Não tenho dúvidas de que hoje em dia o BES para além de ter essa capacidade de inovação também tem de criar condições propícias a que os seus clientes usufruam dessa realidade. E hoje em dia, face à situação em que vivemos, num mundo Europeu mais envelhecido, temos que ir à procura de novas oportunidades, e nada melhor do que o BES com a sua capacidade criativa e da sua presença internacional para ajudar as empresas portuguesas e também os seus clientes em outras geografias a descobrir novas oportunidades e fazer com que esses clientes se desenvolvam e contribuam para o processo de internacionalização da economia portuguesa.

O BES tem a percepção de que actualmente a emigração não só não acabou como estão a sair de Portugal cerca de 100 mil pessoas por ano?
Não só temos a percepção como temos a certeza. Quantas pessoas, quantos profissionais não foram para Angola, agora que Angola despertou para uma nova realidade e para um novo desenvolvimento económico. Creio que em Cabo Verde deve haver qualquer coisa como 12 mil portugueses. Para uma economia pequena, um mercado pequeno e um país pequeno como Cabo Verde 12 mil é um número muito significativo. Veja-se quantos jovens estão à procura de novas oportunidades no Brasil, em Moçambique. Veja-se quantos jovens não foram estudar lá para fora e acabaram por ficar e dar o seu contributo em outras áreas geográficas. Lembro-me de França, de Inglaterra, e os próprios Estados Unidos. Há muitos jovens que estão a caminho dos Estados Unidos para aí se valorizarem. O que se espera é que essas pessoas que vão sejam capazes um dia, se não voltarem, pelo menos de por o seu conhecimento ao serviço da economia de Portugal.

Estas pessoas que estão a sair agora são uma mais-valia para a banca tal como a geração anterior?
Claro que são sempre uma mais-valia. Um português no estrangeiro é sempre uma bandeira que lá está. Quando andei por esse mundo – vivi em 8 países ao longo de 27 anos – não há dúvida nenhuma que quando o hino toca há qualquer coisa que treme cá dentro e há sempre uma lágrima que corre. Isto mostra que nós nunca deixamos as nossas raízes.

Também se sente um emigrante com essa experiência de vida?
Eu sou um emigrante. Digo sou porque por razões diversas voltei a Portugal em determinada altura, para ser mais exacto em 2001, e ao fim de 7 ou 8 anos como vê, já estou à procura de novos horizontes, de novas geografias e de novos desafios, sendo que o desafio maior foi a criação deste banco em Cabo Verde, que eu gostava que não ficasse por aqui. Espero que este banco em Cabo Verde seja uma verdadeira plataforma para descobrir novas oportunidades, principalmente na costa central e ocidental africana

O BES é um banco de família, que enfatiza muito a honra. Reconhece isso no BES?
Creio que isso é um elemento indiscutivelmente diferenciador. O BES é um banco que tem 140 anos, e 140 anos não são 140 dias. Portanto há toda uma cultura, toda uma tradição que nós herdámos do passado. E o facto de haver um comando nesta organização por alguém que é da família que deu nome ao banco, faz com que nós também possamos herdar essa tradição, essa cultura, essa maneira de saber fazer as coisas. E depois temos também uma organização que é muito humana. Há uma grande preocupação com os recursos humanos, há uma grande preocupação com a formação das pessoas e há uma grande preocupação em retribuir por mérito aquilo que é feito de bem. É uma casa de bem que é comandada por gente de bem.

O BES já tinha uma presença em Cabo Verde, agora decidiu abrir mesmo um banco. Há um mercado assim tão importante em Cabo Verde?
O BES está presente em Cabo Verde há bastante tempo. E foi pelo facto de nós termos tido conhecimento da realidade cabo-verdiana que em 2006 abrimos aquilo que se chama na gíria bancária uma sucursal financeira exterior. Ou seja, com as mesmas características que o estatuto da Madeira. E durante esses quatro anos nós tivemos uma experiência realmente muito positiva em Cabo Verde. Tivemos oportunidade de conhecer o país, mas melhor do que conhecer o país conhecemos muito bem as estruturas locais e tivemos oportunidade de conhecer e partilhar com membros do governo e com gestores do tecido público cabo-verdiano que nos animou não só em relação ao que estão a fazer mas principalmente ao potencial em relação ao futuro. É essa a razão talvez mais importante que nos levou a financiar durante estes quatro anos o maior projecto turístico imobiliário de Cabo Verde, que comporta hoje mais de 1.200 fogos, e que é um projecto que no seu conjunto representa qualquer coisa como 14 ou 15 por cento do PIB de Cabo Verde. É um projecto que está na sua fase final e muito próximo de poder ser inaugurado. Independentemente dessa operação tivemos sempre oportunidade de financiar também obras de infra-estrutura, das quais tenho que mencionar muito em especial as estruturas aeroportuárias. Fomos companheiros de caminho com o governo de Cabo Verde e principalmente com a ASA, que é a empresa que gere os aeroportos de Cabo Verde, para financiar não só os aumentos das pistas e das placas e dos terminais, mas especificamente ajudámos a construir, praticamente de raiz, o aeroporto internacional da Boavista. Como sabe Cabo Verde é um país que depende essencialmente do turismo e também da diáspora cabo-verdiana. Portanto é nesses dois segmentos que vamos continuar a nossa caminhada cabo-verdiana.

Como espera o BES aplicar a experiência da diáspora portuguesa na diáspora cabo-verdiana?
Queremos levar para Cabo Verde todo o conhecimento que adquirimos com a diáspora portuguesa espalhada pelo mundo e fazer com que a diáspora cabo-verdiana venha a usufruir de toda essa máquina e de todas essas vantagens e de todos os produtos que nós criamos e disponibilizamos para a diáspora portuguesa. Como sabe, a diáspora cabo-verdiana tem uma certa tendência em estar próxima da diáspora portuguesa. Estou a falar dos Estados Unidos, na região de Nova Iorque e mais especificamente de Boston, estou a falar do Luxemburgo, onde a diáspora cabo-verdiana é muito importante juntamente com a portuguesa, que representa hoje quase 17 ou 18 por cento da força viva luxemburguesa. Em França, e com especial relevância para Paris, mas também em outras geografias onde estamos presentes é onde vamos querer colaborar com essa diáspora. Com mecanismos modernos, com produtos mais agressivos e inovadores, no sentido de responderem melhor às necessidades dos cabo-verdianos e da necessidade de remeter as suas poupanças para o seu país.

Há ideia de quanto pode valer as remessas dos cabo-verdianos para o seu país?
Cem milhões de euros. E representa cerca de 12 por cento do PIB de Cabo Verde, números de 2009, sendo que a maior parte provém de Portugal, França e Estados Unidos, onde há a maior concentração dos cerca de um milhão de cabo-verdianos que vivem no exterior. Ou seja, a diáspora cabo-verdiana hoje é praticamente o dobro da população residente.

O facto de o BES ter inaugurado o banco com a visita e a presença dos Presidentes português e cabo-verdiano significa que politicamente os ventos estão de feição? Tem sentido a colaboração das autoridades locais?
Sim. Repare que não é frequente poder-se assistir a que o nosso Presidente da República, o professor Cavaco Silva, já vá na sua quinta viagem a Cabo Verde. Não só como Presidente, mas também como primeiro-ministro. Isto mostra o carinho que a Presidência da República tem por Cabo Verde e o entendimento e a simpatia e as sinergias que existem entre cabo-verdianos e portugueses. Cabo Verde tem como principal parceiro Portugal. E o governo português tem vindo a disponibilizar linhas de financiamento para o desenvolvimento não só na habitação social como em infra-estruturas e mesmo para financiamento de energias renováveis em montantes extremamente significativos. Há linhas de crédito de origem portuguesa superiores a 500 milhões de euros para financiar o desenvolvimento de Cabo Verde. Isto mostra o quão próximo Cabo Verde está de Portugal e Portugal de Cabo Verde.

É previsível que outras empresas sigam este caminho até Cabo Verde?
Não só é previsível como é também desejável. Um dos temas mais importantes da nossa missão em Cabo Verde é, além de ajudar e poder colaborar com o desenvolvimento do próprio país, podermos utilizar Cabo Verde como uma plataforma para poder procurar e concretizar novas oportunidades de negócio, principalmente na costa ocidental africana, levando não só empresas nossas clientes, portuguesas ou outras, para essas novas áreas, e porque não inclusivamente promover parcerias entre empresas portuguesas e as cabo-verdianas para atacar esses novos mercados. Dou-lhe um exemplo. Infelizmente Cabo Verde tem uma taxa de desemprego bastante elevada, mas é uma mão-de-obra extremamente qualificada e muito respeitada em África. Portanto na área da construção, principalmente, é muito possível que se possam fazer parcerias num futuro próximo.

Cabo Verde poderá vir a ser uma plataforma para o BES ampliar a sua presença em África, nomeadamente no Gana e Costa do Marfim?
Estamos neste momento a estudar qual o potencial de desenvolvimento nos países da África ocidental e central. Nós queremos ir com o vagar necessário para que aquilo que seja feito seja bem feito. Na minha família costuma dizer-se “se estás com pressa vai devagar”. Portanto, mais vale devagar e seguro do que depressa e mal.
Ao abrir um banco em Cabo Verde o BES vai levar os funcionários de Portugal ou vai recrutar localmente?
No estabelecimento do banco em Cabo Verde vamos privilegiar a contratação de recursos humanos locais e assim contribuir para a formação dos quadros na área do sector bancário e financeiro, podendo contribuir desta forma para a melhoria e para a especialização de quadros locais. Gostaria de referir ainda que o grupo BES tem uma empresa em Cabo Verde que se chama Multipessoal – Cabo Verde, que é uma empresa de recursos humanos e de formação. Portanto iremos criar sinergias entre o banco e a Multipessoal para mais uma vez ajudar no que for possível no desenvolvimento dos profissionais locais.

José Manuel Duarte
jduarte@mundoportugues.org


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