O Emigrante / Mundo Português
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Quinta-Feira, 17 Maio 2012 - 16:12 (Açores 15:12)
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Dois luso-descendentes ao encontro de Portugal III - de Castelo Branco à Guarda

Bianca e Daniel têm 25 e 18 anos, respectivamente. Nasceram e vivem na África do Sul, mas têm em comum as mesmas raízes: são filhos de portugueses e mantêm uma forte ligação à terra dos pais. Nos próximos dois meses, O Emigrante/Mundo Português vai acompanhá-los e apoiá-los na realização de um «sonho»: percorrer Portugal, ao encontro de uma cultura, de tradições e de um povo que também é o deles. A «aventura» continua: de Castelo Branco a Vila Nova de Tazem, terra dos avós maternos, passando pela Serra da Estrela, Portugal continua a maravilhar os dois jovens luso-descendentes. Com a palavra, Bianca Martins...

A viagem ao encontro das nossas raízes portuguesas levou-nos a Castelo Branco. Ficamos, porém, terrivelmente desapontado ao descobrir que restava muito pouco do castelo. Depois de algum tempo para conhecer a cidade, era hora de pegar a estrada novamente. Após oito dias na estrada, eu já estava finalmente acostumada a dirigir no lado esquerdo da via, enquanto Danny tornou-se versado em navegação do trajecto…
Covilhã foi a paragem seguinte e resultou numa jóia inesperada. A partir da cidade, a Serra da Estrela Serra foi a visão de um cartão-postal, com vistas a partir de todas as ruas sinuosas e dos becos. Eu estava assombrada. A cidade era tão bonita durante o dia, como era de noite. Repleta de belíssimas casas de pedra e tascas tradicionais; um parque tão bem cuidado no centro da cidade era definitivamente o lugar para os namorados. À noite, as pessoas caminhavam pelas ruas da cidade a apreciar a vista. É o tipo de cidade que fez você sentir-se como se estivesse no topo do mundo.
Como não poderia deixar de ser, a etapa seguinte foi a Serra da Estrela: ali, as paisagens mais originais e inesperadas de Portugal. Com o pico mais alto de Portugal continental – 1993 metros - as vistas são deslumbrantes. A paisagem é árida, ainda mais depois de ter sido devastada pelos recentes incêndios florestais que destruíram uma zona considerável da parte superior do parque.

À conversa com um pastor

Nas minhas visitas anteriores à Serra da Estrela nunca tive a sorte de ter encontrado um pastor, mas nesta viagem essa sorte mudou. A cerca de um quilómetro da Torre, fomos forçados a uma travagem: em frente de nós a atravessar a estrada estava um rebanho com cerca de 500 ovelhas e à direita logo atrás, caminhava o pastor e seu fiel cão da Serra da Estrela. É claro que a curiosidade «obrigou-nos» a sair e tentar iniciar uma conversa. Não poderia, de maneira nenhuma, perder a oportunidade de ouvir este pastor contar-me a sua história.
Ele era um homem bom e simpático com as marcas do tempo visíveis na cara e que não teve reservas de me contar a sua história anos passados nas montanhas. Expliquei-lhe que estava a viajar por Portugal ao encontro da cultura e da tradição portuguesas e que, até agora, tinha percebido, infelizmente, que a tradição foi se tornando rapidamente uma coisa do passado, como noutros países do mundo. As particularidades que distinguem um país e sua cultura, de outro, foram aos poucos sendo ofuscadas pela cultura da «aldeia global»: as pessoas vestem-se de forma igual, ouvem a mesma música e através da Internet se tornaram uma parte da comunidade global. Ele concordou, e lamentou que a tradição nesta parte de Portugal foi lentamente sendo perdida. Disse-me que hoje, há apenas cerca de 15 pastores a pastorear as suas ovelhas na região da Serra de Estrela, muito poucos se comparados aos que havia anteriormente por estas terras.
Ele explicou que ser pastor não era mais uma forma viável de ganhar a vida. A industrialização tem feito com que os «magros» 2 litros de leite de ovelha que recolhe por dia, não consigam competir com os rebanhos «industriais» a bombear para fora 9 litros de leite por dia. Os 60 centavos que ele ganha por litro não são o suficiente para sustentar sua família ao longo do mês.
Ele continuou a falar: sobre como o Queijo de Serra e os cães também havia mudado…
Os belos cães de grande porte, que tinham sido o orgulho e a companhia dos pastores, foram nos anos anteriores castrados. Estes cães de grande porte deixaram de ser necessários na Serra desde que os lobos foram extintos e os animais que precisam agora afastar as raposas devem ser menores e mais ágeis: Esta situação levou a que os cães já são quase metade do tamanho do que eram anteriormente com pouco ou nenhum interesse nos cães maiores. Este pastor vive a sua vida da mesma maneira que os seus antepassados. E passou esta tradição ao seu filho que tem apenas 20 anos: o amor pela vida ao ar livre, a dedicação a este estilo de vida que está a morrer e que pode ser aquilo que a região precisa para continuar manter a sua autenticidade.
Mas nem tudo está perdido. Nesta parte de Portugal ainda estão à mostra a tradição e as belezas naturais. As casas de granito despretensiosa dos moradores humildes de montanha, fontes frescas derramando água escorrendo do lado da montanha. É ainda o lugar perfeito para se sentir completamente relaxado e em paz com a natureza. Sempre gostei de lugares como este nas minhas viagens, lugares onde há enormes espaços, onde você encontra o verdadeiro sentido de sua escala na Terra. Onde não há nada ao seu redor, mas há natureza e beleza. Onde tudo está em perfeito equilíbrio…
Serra de Estrela é certamente um dos meus locais favoritos em Portugal e ainda mais agora.

Vila Nova de Tazem

A nossa etapa seguinte foi Villa Nova de Tazem, um lugar emotivo: foi nesta aldeia que a minha mãe e seus irmãos nasceram. Na casa onde os meus avós ainda vivem. A casa foi construída em 1918 pelo meu bisavô, José Amaral Lopes. Com muita coragem, atravessou o Atlântico, e chegou ao Brasil para ganhar algum dinheiro para que pudesse dar uma vida melhor à sua família.
Após o seu regresso a Portugal, voltou para Vila Nova de Tazem e comprometeu-se penosamente a erguer esta casa de granito tradicional, com as suas mãos. Pouco depois de estar pronta, um incêndio destruiu-a. A única coisa que permaneceu intacta foi a grande fachada de pedra de granito, que ainda hoje está de pé: forte, robusta e orgulhosa.
Sempre que venho a Portugal, fico nesta casa. Sinto-me afortunada por ter esta casa como parte da nossa história familiar. E pensar que duas gerações da minha família nasceram e cresceram nesta humilde morada dá-me este sentimento de orgulho e de pertença. Cabe a nós mantê-la como uma relíquia de família. Na velha tradição portuguesa, a nossa avó mimou-nos enquanto ali estivemos. Alimentou-nos, mimou-nos e arranjou um lanche para a viagem. Lá fomos nós, estrada fora ao por do sol…

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