Quinta-Feira, 23 Fevereiro 2012 - 05:34 (Açores 04:34)
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Dois luso-descendentes ao encontro de Portugal XI - Despedidas Finais
A expressão «o tempo voa» pode soar como um cliché, mas a questão é que não é mentira. Mal posso acreditar que estive longe de casa por seis meses e que já passamos dois desses meses em Portugal. A pequena mas impressionante «van», cedida pelo Emigrante/Mundo Português, serviu-nos à medida e nela viajamos uns espantosos e cansativos 6.500 quilómetros. A julgar pela quantidade de quilómetros que fizemos, ficou claro que Portugal tem uma quantidade infinita de lugares para ver e descobrir. Portugal uma combinação perfeitamente equilibrada de praias de areia branca, deslumbrantes paisagens a perder de vista, pequenas aldeias, cada um com sua própria história, belas cidades repletas de igrejas, museus e milhões de outras atracções para passarmos o tempo. E como se não fosse suficiente, há ainda a possibilidade de partilhar pequenos prazeres, como entregar-se uma refeição típica portuguesa, ou encontrar voluntários no Convento de Mafra, que dedicam o seu tempo aos outros, contando-lhes a história do lugar. É o enorme contraste entre as cidades modernas e as aldeias onde ainda se vê homens a «conduzir» burros, que faz esta cultura ser diversificada e fantástica. Houve momentos incríveis e houve tempos difíceis. Quando se está com uma pessoa que nos é muito próxima - durante longos períodos de tempo e debaixo de um calor sufocante - num espaço reduzido, sem ar-condicionado e com um rádio que é tão temperamental como uma criança de dois anos de idade, não é fácil manter a ténue linha entre ser paciente ou perder o totalmente o controle. Mas conseguimos sempre entender-nos. Danny e eu tornamo-nos grandes parceiros de viagem, e continuamos os melhores amigos. E antes de dizermos adeus à nossa estadia em Portugal - Danny voltaria para a África do Sul e eu seguiria para a próxima etapa de minha viagem - tínhamos ainda de fazer uma última paragem. Era altura de nos despedirmos dos nossos amigos e da família e assim traçamos o nosso caminho de volta a Vila Nova da Tazem. Quando lá chegamos, a nossa avó estava à porta de casa. No ar sentia-mos o cheiro do almoço. Apesar dos seus mais de 80 anos, reuniu energia suficiente para nos preparar pastéis de bacalhau com arroz de tomate e uma bonita salada fresca, colhida na horta de que ela ainda trata. Ao sentarmo-nos para almoçar, não pude deixar de me levar pelos meus pensamentos. Como já referi noutra crónica, eu adoro esta casa. É pequena e humilde, os quartos podem por vezes parecer um pouco escuros e o cheiro de humidade na madeira com mais de 100 anos, contam a mais bonita das histórias. A casa foi construída pelo meu bisavô. Cada um dos blocos de granito que compõem a fachada desta casa - assim como os muitos outros das casas da pequena vila - foram meticulosamente colocado à mão. A minha mãe e os seus irmãos nasceram nesta casa, a minha avó lutou aqui arduamente, todos os dias, para criar os filhos, enquanto o meu avô trabalhava em Angola, na esperança de que pudesse dar uma vida melhor à sua família. Mas não é só a casa que eu adoro. Sempre que ando pelas ruas desta vila, imagino a minha mãe, ainda menina, a brincar com os amigos ou a carregar o balde de leite nas noites frias de inverno - e a beber pequenos goles esperando que ao chegar a casa, a minha avó não notasse que faltava quase metade do leite. Ou como na época do Natal a mesa ficava posta durante dias com a melhor comida que preparavam e o padre vinha abençoar. Eu adoro essas histórias e estar aqui faz-me sentir nostálgica, como essas se fossem as histórias da minha própria infância. É também nesta pequena vila que o meu avô está enterrado, ao lado de irmão e do pai. Infelizmente, ele faleceu antes de eu nascer e nunca tive a oportunidade de estar com o homem que era conhecido como um dos melhores alfaiates de Angola. Para mim é sempre obrigatório visitar o túmulo do meu avô e imaginar que tipo de homem teria sido. Gosto de ver fotografias suas: faz-se sempre lembrar o Richard Gere, e é muito fácil perceber como a minha avó foi facilmente «apanhada» pela sua boa aparência. Continuar a manter esta casa na nossa família significa que a memória do meu avô e do seu pai vive através dela. E enquanto a preservarmos e mantermos na nossa família, nunca nos esqueceremos da nossa história. Não consigo sequer descrever o quanto isso é importante para mim. Desta vez, porém, o ambiente ao almoço seria um pouco mais sombrio: dizer adeus é sempre mais difícil e dali a poucas horas estaríamos a dizer adeus aos nossos avós. Essa é uma das piores consequências de viver noutro país: é extremamente difícil estar longe de família. Antes desta viagem, eu podia apenas imaginar como se deve ter sentido a minha mãe, estando tão longe de sua mãe. Mas depois de estar «afastada» de casa por um período tão longo de tempo, vivi essa experiência em primeira-mão. É, no mínimo, absolutamente terrível. O melhor da vida é ter as pessoas que você ama próximas de si, mas infelizmente, para nós a distância é inevitável. Apesar de Portugal ser o país onde os meus pais nasceram, a casa deles, e a minha, está agora na África do Sul. Também percebi, depois de ter passado esses dois meses em Portugal, que apesar de adorar o país, a sua história, a gastronomia, a verdade é que a minha é onde está o meu «coração», e este está na África do Sul, com os meus pais, a minha irmã, os meus dois sobrinhos lindos e meus amigos. Suponho que é a mesma sensação para a maioria dos emigrantes portugueses: estarem quase divididos entre dois lugares, o país do seu nascimento e o país onde vivem as suas vidas. No entanto, nem tudo é tristeza. Temos a vantagem de ter o melhor dos dois mundos, não pertencemos apenas a uma cidade e um país, mas conseguimos coexistir entre dois lugares. Eu, por exemplo, tenho a alegria de ser sul-africana, o que significa ser abençoada com toda a beleza natural, as vastas extensões e de todo o mistério da magia e da diversidade cultural que aquele país tem para oferecer. E por outro lado tenho a história, o património, o orgulho (e não posso esquecer a gastronomia incrível) de também ser portuguesa. Esta jornada foi para ambos, Danny e eu, uma alegria e um prazer. Deixamos o maior agradecimento à equipa do Emigrante/ Mundo Português, e ao Dr. Carlos Morais a quem devemos esta honra. Sem a sua total confiança e apoio à nossa ânsia de explorar, esta viagem não teria sido possível. |
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