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Quinta-Feira, 23 Fevereiro 2012 - 05:25 (Açores 04:25)
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Casal português no Gana leva alegria a 270 crianças

Alunos da comunidade de Chorkor, na região de Acra, no Gana (África), receberam no início de Janeiro, uma prenda de Natal que apesar de ter chegado já no novo ano, foi acolhida com enorme alegria. Para além de bens alimentares, as 270 crianças que frequentam a escola tiveram direito a diverso material escolar reunido em Portugal e enviado para Patrícia Dias e João Pedro Santos. O trabalho voluntário realizado há mais de um ano junto daquelas crianças, contagiou a família e amigos em Portugal e o resultado foi uma surpresa para miúdos entre os dois e os 12 anos para quem uma caixa de lápis de cor é uma prenda inesperada e rara...

A residir há dois anos naquele país da África Ocidental, Patrícia Dias desenvolve um trabalho de voluntariado junto das crianças que frequentam a «Heaven Alpha and Omega Academy», uma escola localizada em Chorkor, comunidade junto ao mar na região de Acra.

"Os bens mais essenciais fazem falta a estas crianças, pelo que cada vez que as visitamos tentamos levar alguma variedade", revelou Patrícia a O Emigrante/Mundo Português.

Patrícia Dias, 30 anos, lisboeta, conheceu a escola há cerca de um no e meio e desde então, ajuda crianças e responsáveis sempre que o seu tempo livre o permite.

Já contagiou o marido que a acompanha no trabalho de voluntariado e garante que não é difícil deixar-se envolver.

"A verdade é que depois de se ver esta escola, é difícil virar costas e não fazer algo para ajudar", diz.

 

Uma falta de tudo

 

Implantada num espaço exíguo, a escola pouco mais é do que a única sala de aulas onde estudam as 270 crianças dos dois aos 12 anos. Uma única sala de aula acolhe as centenas de crianças e as suas actividades de lazer "limitam-se a levantar e sentar dos bancos, a bater palmas, cantar e levantar os braços", explica Patrícia. "Não podem correr, não podem brincar", lamenta, recordando o desabafo que ouviu de Gertrude Quartey, directora e professora da escola: "Não temos espaço, infelizmente".

A escola também não tem casa de banho, "apenas uma sarjeta e alguns bacios", que Gertrude ensinou a lavar muito bem após cada utilização. Não é «apenas» comida e material escolar que a escola necessita. Detergente, sabão e papel higiénico também fazem falta, para além de serem "fundamentais para poder ensinar às crianças a importância da higiene pessoal e do meio que as rodeia", acrescenta Patrícia.

 

Momento "mágico"

 

Já não é nenhuma novidade a recolha de material para distribuir na escola. "Desta vez, optámos por trazer arroz, óleo, bolachas e atum, e não há palavras que possam descrever a alegria daquelas crianças", recorda. Mas foi a primeira vez que a ajuda chegou de Portugal, numa iniciativa da família. A primeira a surpreender-se foi a própria Patrícia. "A minha irmã faz regularmente trabalho de voluntariado em Portugal, ao serviço da Comunidade Vida e Paz, e quis, de iniciativa própria, ajudar também estas crianças de Chorkor", contou a O Emigrante/Mundo Português. E com a «encomenda» prometida chegou uma surpresa adicional que se tornou o motivo de uma verdadeira festa.

Catarina resolveu surpreender a irmã que vive no Gana, enviando de Lisboa uma enorme caixa com material escolar. Eram esferográficas, canetas de feltro, lápis de cor, borrachas, papel crepe e cadernos, suficientes para todas as crianças.

"Foi um momento mágico ver aqueles sorrisos, à medida que as cores saltavam dos sacos", conta Patrícia.

 

Dedicação ao extremo

 

A escola é dirigida por Gertrude Quartey e o projecto começou a ganhar forma na sequência de uma grave doença sofrida há vários anos atrás, explica Patrícia.

Desenganada pelos médicos que lhe deram poucas esperanças de vida, Gertrude acabou por se recuperar. Acreditou que se tratou de um milagre divino e decidiu dedicar a sua vida e a saúde, embora mais debilitada, ao serviço da comunidade.

Fundou então a escola, no início com poucos alunos. Actualmente, já dirige dois estabelecimentos escolares, que acolhem ao todo 360 crianças. "Só em Chorkor estão as 270, com idades entre os dois e os 12 anos, incluindo quatro órfãos e dois surdos-mudos, que não pagam para frequentar a escola", revela Patrícia, acrescentando que Gertrude considera não ser justo cobrar qualquer quantia a essas crianças.

As outras crianças pagam o equivalente a 10 cêntimos de euro por dia, valor que inclui a alimentação. Os três professores - dos quais um deles é filho de Gertrude - ganham 1 Gana Cedi por dia (cerca de 50 cêntimos de euro).

Gertrude não tem mãos a medir com a gestão das pequenas escolas. Para conseguir suportar as despesas, como a compra de material escolar e de comida para as crianças, Gertrude dá aulas nocturnas de costura e cabeleireiro a adultos. Além disso, ainda faz acessórios para o cabelo que vende no mercado, conta Patrícia. O dinheiro que aí recebe, é usado para cobrir o resto das despesas.

Patrícia recorda que depois de entregar os donativos, questionou em que mais poderiam ajudar e o que faz mais falta às crianças. E recebeu a resposta que já esperava. "irmã Pat (como carinhosamente chama a jovem portuguesa), aqui somos uma família. A Pat e o irmão João já fazem parte dela. Quem quer ajudar, que ajude por bem. Toda a ajuda é bem-vinda. Sabe, precisamos de tudo"...

Ana Grácio Pinto
apinto@mundoportugues.org

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