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Quinta-Feira, 23 Fevereiro 2012 - 05:46 (Açores 04:46)
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MÁRIO CASTILHO: Associação portuguesa de Pontault Combault "tem 140 alunos de língua portuguesa”

Mário Castilho, nasceu em Viana do Castelo. Aos 17 anos de idade aproximava-se o serviço militar e com ele o espectro da guerra colonial em África. O pai já estava em França há uns anos de forma que a opção não foi difícil e lá partiu assim para o país onde havia de constituir os seus laços familiares e profissionais.
É presidente da Associação Portuguesa Cultural e Social (APCS) de Pontault Combault, que realiza nos dias 11 e 12 de Junho uma grande festa, numa cidade onde cerca de 25 por cento da população tem origem portuguesa.

Acabou por lá encontrar “outra guerra”. Não havia tiros mas “para dizer a verdade a adaptação foi muito dura perdi a minha juventude. Com apenas 17 anos abandonei tudo, amigos e locais e a língua foi o maior de todos os obstáculos”. Mas soube integrar-se. Casou com uma francesa e tem uma filha que casou com um espanhol, e por isso como gosta de dizer “sou um cidadão bastante europeu”. Tem três filhos e dois netos.
Quando chegou a França começou a trabalhar como carpinteiro mas apenas um ano pois logo arranjou colocação numa coisa melhor e foi para uma fábrica de chocolate. “Tive muita sorte fiz formação profissional e cheguei a um posto de responsabilidade. Naquele tempo valia a pena lutar por uma valorização pessoal e profissional, hoje as coisas estão bem pior”...
Actualmente está reformado da Nestlé onde esteve quase 40 anos.

O que foi a França para si?

A França foi para mim o que foi para todos os português dos anos 60, muitos pensavam que o dinheiro nascia nas árvores que “era só subir e apanhar” mas foi preciso trabalhar e lutar muito. Nem tudo foram rosas, a principio os franceses foram muito duros para os portugueses. Muitas vezes em público quando encontrávamos amigos, nomeadamente nas feiras, falávamos em português uns com os outros o que não era bem visto, os franceses não gostavam e faziam-nos sentir isso.

Como nasceu a Associação Portuguesa Cultural e Social de Pontault Combault (APCS)?
Esta associação foi criada logo a seguir ao 25 Abril numa altura de grande movimento associativista e partiu de um grupo de trabalhadores que enfrentavam grandes dificuldades na construção civil. Naquela altura os sindicatos não respondiam às reivindicações nem resolviam os problemas dos nossos compatriotas no que respeitava a acidentes de trabalho.
Naquela altura eu estava bastante atento a estes problemas até porque era membro de um sindicato e logo aconselhei os nossos compatriotas, ou se criava uma secção portuguesa dentro do sindicato ou criávamos uma associação.

Trata-se então de uma associação que nasce com preocupações laborais...
A nossa preocupação principal era mesmo essa. Recordo o problema dos alojamentos, onde os portugueses eram explorados pelos próprios portugueses que os alojavam nas “barracas em fundo de jardim”, e também das pensões sociais porque naquela época havia muitos acidentes de trabalho. Para além desse trabalho demos também uma grande importância desde o início ao ensino da língua portuguesa. Recordo que a associação tem actualmente 140 alunos distribuídos por quatro professores, três dos quais pagos pela associação.
No início como todas as outras associações criámos o movimento habitual com equipas de futebol, ranchos folclóricos mas depois dedicamo-nos mais à língua e divulgação da cultura portuguesa, pondo o desporto um pouquinho de lado. No entanto o desporto também fez parte de uma estratégia inicial para promover a integração, pois um dos caminhos mais eficazes para o fazer era pôr a nossa juventude a jogar com a juventude francesa. Promovemos também colónias de férias em Portugal, porque os jovens das primeiras gerações tinham uma ideia muito errada sobre o país. Vinham com os pais a Portugal e raramente saíam da aldeia da família e para eles o país eram os limites dessa aldeia. As colónias serviam para mudar essa ideia, vinham tanto jovens portugueses como franceses a quem o país era apresentado pelos amigos portugueses.
Criámos também um grupo de teatro na associação que promove espectáculos de qualidade e desde o ano passado que nos orgulhamos de ver a cultura portuguesa integrada na política cultural da câmara aqui em Pontault-Combault. Promovemos diversos espectáculos com os «Deolinda», organizámos uma homenagem ao Zeca Afonso com a «Ronda dos Quatro Caminhos». Trata-se de um trabalho de divulgação da cultura portuguesa, não queremos uma associação só para promover bailes ao fim de semana e campeonatos de sueca.

Como nasceu esta grande festa da associação?
É a grande festa portuguesa que nós fazemos há 36 anos com entrada livre onde as pessoas nada pagam. Contamos com o apoio da Câmara, que nos garante sensivelmente 25 por cento da despesa e o resto fazemo-lo com o apoio de parceiros privados que nos ajudam a realizar esta festa. Depois contamos como apoio dos associados que trabalham voluntariamente para o sucesso da festa, e para que a associação lucre com as vendas de “comes e bebes” o que permite o funcionamento ao longo de todo o ano cobrindo as despesas de diversas actividades, nomeadamente do ensino da língua portuguesa.

Quantas pessoas esperam para este ano em que vão receber o Tony Carreira?
O sucesso da nossa festa deve-se ao S. Pedro (risos). Desde 2005 que temos tido bastante sucesso e no ano passado batemos o recorde de 30.000 pessoas durante os dois dias. Para este ano de 2011 com este programa esperamos entre 35.000 a 40.000 pessoas naquele espaço magnífico cedido pela câmara num protocolo que nos garante este apoio por 99 anos.

Em sua opinião o que falta ainda aos portugueses em França?
Quando fomos trabalhar para a França, diziam-nos muitas vezes que íamos para lá trabalhar e não para fazer política e hoje no contexto europeu, falta-nos muito a participação cívica, os portugueses têm de participar mais na sociedade onde estão, é preciso tentar recuperar esses 20 anos perdidos, mas não é fácil...

José Manuel Duarte
jduarte@mundoportugues.org

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